Trabalho com remanescentes de quilombos levou médicos à comunidade dos "negros brancos"

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

O alto índice de albinismo em Filus, comunidade de remanescentes de quilombos em Santana do Mundaú (AL), despertou a atenção de professores do Departamento de Medicina da Universidade Federal do Estado no ano passado.

  • Diego Barros/Divulgação Iteral

    Cleone Severino da Silva, que não é albina, com sua filha Taís, de apenas 5 meses, a mais nova entre os albinos de Filus

  • Diego Barros/Divulgação Iteral

    Duas moradoras da comunidade quilombola Filus, da Zona da Mata de Alagoas; à dir., Deusa, a mais velha entre as mulheres albinas

Desde 2007, o projeto Afro-Atitude, ligado à Ufal, começou a visitar as 23 comunidades remanescentes de quilombos reconhecidas no Estado para traçar um diagnóstico da situação de saúde desses povoados.

Ao chegar em Filus, em 2008, a equipe do projeto se deparou com um grupo de "negros brancos" que morria, segundo os relatos, mais cedo que a média dos demais moradores da comunidade.

O histórico de mortes por problemas decorridos do albinismo preocupa os moradores do povoado. O caso mais recente de câncer aconteceu no ano passado, e todos os moradores acompanharam o sofrimento de Luzinete Izabel da Conceição, 37. Ela desenvolveu um tumor que a levou a amputar o braço, antes de morrer numa casa de taipa na comunidade.

"Ela gemeu de dor até morrer, em julho [de 2008]. Foi terrível ver aquilo e tenho medo de passar por essa situação", conta a irmã Cleonice Isabel, 34, que também é albina.

"Em pessoas de pele normal, o câncer de pele tem cura. Mas pela fragilidade da pele deles, não há muito o que fazer. Já houve outras mortes em anos anteriores por conta do câncer", diz o médico Jorge Luís Riscado, coordenador do projeto Afro-Atitude.

Foi dele a ideia de pesquisar todas as 23 comunidades quilombolas de Alagoas e traçar o perfil sanitário das comunidades. Em Filus, ele encontrou pessoas albinas que não tinham acesso a exames que deveriam fazer com frequência. Protetor solar, só nos comerciais da televisão.

Ao tomar conhecimento do caso, Riscado convocou outro especialista, o professor em cirurgia plástica Fernando Gomes, que visitou a comunidade para fazer um pré-diagnóstico do problema. Logo no primeiro contato, Gomes viu que a pele dos albinos já era marcada por feridas. A primeira recomendação dada foi o uso de boné todas as vezes que saíssem de casa durante o dia. "Essas pessoas têm uma tendência a desenvolverem algum tumor de pele na vida, principalmente na cabeça e no pescoço. É necessário também que eles passem por exames de rotina para prevenir o câncer", explica o professor.

Segundo Gomes, em três meses o mapeamento genético realizado pelos médicos estará pronto, e os albinos passarão por um mapeamento digital da pele. "Precisamos das informações genéticas do mapeamento para definir os procedimentos que iremos adotar. Precisamos ter também o controle de todas as feridas da pele para acompanhá-las, para isso vamos tirar essas fotografias da pele de cada um deles", ressalta.

Os albinos que vieram até Maceió não tiveram nenhum caso de câncer diagnosticado. Mas em alguns deles foram encontrados ceratoses actínicas [lesão de pele provocada pelo sol], "e isso pode gerar um câncer", explica o médico. Depois de todos os procedimentos, os albinos terão de voltar pelo menos duas vezes ao ano a Maceió para passarem por exames de rotina.

Nascida há cinco meses, Taís é a mais nova entre os albinos. O abraço de mãe e filha é o retrato do contraste: Cleone da Silva não é albina e nunca teve um filho com a doença. Durante a visita a Maceió, ela confirmou que nunca teve nenhuma noção dos cuidados básicos por conta do problema que a filha tem. "Agora que sei o que é isso [albinismo] e o que ele pode causar, espero seguir tudo direitinho para não ter problemas com ela", assegura a mãe.

O médico Fernando Gomes informa que vai produzir um relatório sobre o caso e encaminhar ao Estado. "Todos os dados serão encaminhados para que garantam a assistência a eles. Uso de protetor solar é imperativo e cabe ao Estado garantir esse produto", explica.

Segundo o presidente do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral), Geraldo de Majella, o instituto é quem vai acompanhar e dar apoio aos moradores da comunidade Filus, reconhecida oficialmente como remanescente de quilombo em 2006. "Vamos procurar a Secretaria da Saúde para trabalhar com o Hospital Universitário", diz, ressaltando que é preciso fazer um "trabalho de organização para que o Estado assuma suas responsabilidades e inclua essas pessoas".

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