Médico diz que não fazer aborto em menina de 9 anos seria 'omissão'

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília

Atualizada às 11h45

Olímpio Moraes, médico-assistente do centro de saúde ligado à Universidade de Pernambuco, que realizou o aborto na menina de 9 anos violentada pelo padrasto, disse que seria um "erro de omissão" não ter realizado o procedimento. "É um erro ético, um erro médico gravíssimo", afirmou, em entrevista nesta quarta-feira (11), em Brasília.

Moraes destacou que a equipe médica preocupou-se em manter a criança em um quarto separado no hospital e preservá-la do assédio da imprensa. "Demos uma droga que causa contração e serve para indução do aborto. Também foi realizada uma curetagem e a placenta saiu completamente. Ela tinha condições de ter alta no mesmo dia, mas esperamos apoio do conselho tutelar porque ela não poderia voltar pra casa", afirmou.

O médico disse que alguns profissionais não participam do procedimento de aborto no hospital, "por questão de foro íntimo".

"Respeitamos essas pessoas e respeitamos todos os demais católicos. Muitos podem estar se sentindo como se isso fosse uma afronta, mas não tem relação com a religião católica, de maneira nenhuma", ressaltou.

Entrevista ao UOL

[Aborto] é uma questão latente na sociedade
brasileira

Ele acrescentou que uma de suas preocupações era com a mãe da garota, que é católica praticante. "Ela mora bem perto da igreja e se reúne com as amigas do grupo de caridade. O importante é que as amigas dela também apoiam nossa decisão".

CPI do Aborto
O médico concedeu entrevista no Cfemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), em Brasília. Ele foi acompanhado de representantes do movimento feminista, que abordaram outros aspectos do problema do aborto no Brasil.

Uma das questões que eles discutiram foi a possibilidade de instalação de uma CPI na Câmara dos Deputados para investigar o aborto clandestino no país.

O requerimento de criação da comissão parlamentar de inquérito foi aprovado no final do ano passado, e os parlamentares da Frente em Defesa da Vida, que organizam hoje um evento no Congresso, se articulam para iniciar os trabalhos.

O juiz Roberto Lorea já participou de audiências públicas no Congresso para discussão de projetos relacionados ao aborto. Favorável à descriminalização, ele afirmou nesta quarta-feira que a CPI vai servir apenas para "perseguir todos os que cumpriram suas obrigações, que prestaram serviço". "Eu chamaria esta CPI de CPI da excomunhão", resumiu.

Parlamentares se articulam para instalar CPI do Aborto na Câmara

"Vamos definir uma estratégia para a instalação da CPI, para pressionar os líderes a fazerem as indicações dos parlamentares que vão compor a comissão. Muitos, por uma posição pessoal, não querem indicar, mas há deputados que podem querer fazer parte e por isso é preciso definir os nomes", afirma o deputado João Campos (PSDB-GO).

Para ele, o aborto é um direito "tanto quanto o pré-natal". O juiz do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul cobrou uma posição laica dos deputados federais nas discussões do tema.

"Os parlamentares que assinam o requerimento de criação da CPI não assinam só o nome, assinam 'deputado evangélico, deputado católico, deputado batista. Que deputados são esses que não estão a serviço de um partido, da sociedade, mas sim se intitulam evangélicos, batistas?"

A psicóloga Margareth Arilha, da Comissão de Cidadania e Reprodução, afirmou que "há uma dissonância" entre a opinião da sociedade neste momento e a posição do Legislativo. "Os parlamentares devem se sensibilizar sobre a situação concreta de vida das pessoas. Valores religiosos são importantes para a vida pessoal, mas não devem prevalecer sobre a cidadania".

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