Comerciantes da Feira do Rato desaprovam mudança de local e temem perder clientes

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

Os apitos do trem, a cerca de 500 metros da Feira do Rato, são a senha para que os feirantes desarmem as barracas e cubram as mercadorias que ficam em cima do trilho. Entre o sinal sonoro e a chegada do trem passam-se menos de dois minutos.

Cenas da Feira do Rato

  • Hugo Oliveira

    Do trem, passageiros observam a Feira do Rato

  • Hugo Oliveira

    Entre os trilhos, os produtos que estão à venda

  • Divulgação

    Imagem do VLT que deve ser implementado em Maceió

Não há correria. "Olha o trem, minha gente", grita o primeiro dos vendedores a ouvir o apito. De forma quase que automática e tranquila, os protagonistas da feira tomam suas precauções sem maiores transtornos. O trem passa e em menos de um minuto tudo está de volta ao mesmo lugar.

Essa rotina se repete diariamente na Feira do Rato. Em alguns trechos, os vagões passam a menos de um metro de distância das barracas, o que não assusta mais os comerciantes. "Isso não é carro, meu filho, não tem como desviar de caminho", brinca João de Souza, dono da barraca que vende produtos eletrônicos.

Por dia, o trem passa 16 vezes pelo local, oito vezes vindo de Rio Largo, outras oito deixando Maceió. Duas dessas viagens acontecem à noite.

Por conta do destaque nacional que já teve, a Feira do Rato atrai turistas. "Volta e meia vem um 'paulista' desses aí fotografar o trem passar. Eles ficam sem acreditar", conta Maria do Carmo, vendedora do Mercado de Artesanato, que fica ao lado da Feira do Rato.

De frutas e pássaros a peças de bicicleta e lanchonetes, todos encontram espaço nas ruas apertadas da feira. Enquanto muitos construíram barracas de alvenaria - e terão que deixá-las -, outros apelam para a venda ambulante. É o caso de quem utiliza o trilho do trem para expor os produtos. "É o nosso banco", brinca o comerciante Ferreira Júnior, que vende ferramentas há mais de cinco anos no local.

Mas o bom humor dos comerciantes termina quando o assunto é transferência da Feira do Rato. Todos os comerciantes ouvidos pelo UOL Notícias tinham alguma crítica sobre a mudança de endereço. O maior temor é quanto ao prejuízo que a saída pode causar às vendas.

No local ainda há uma desinformação sobre os detalhes da transferência. "Botar a gente em três locais?! Trabalho aqui há mais de 20 anos e isso não vai dar certo. Esse trem é que deveria passar por outro lugar", lamenta Josival Pereira, vendedor de peças de bicicletas da feira e contrário à ideia.

Além do medo em perder clientes, o apego ao local também influencia diretamente na opinião dos feirantes que teimam em permanecer no local. "Há 30 anos que trabalho neste ponto. Passei minha vida aqui, vendendo. Não sei como será a vida dos que trabalham, mas acredito que o movimento pode cair", disse Luiz Francino, um dos mais populares e dos poucos feirantes que se deixam fotografar na Feira do Rato.

Ele afirma que os clientes já sabem como chegar à barraca dele. Com a mudança de local, os fregueses "vão se perder". "Aqui todo mundo já conhece o lugar. Quando acontecer a transferência, vai virar um mercado, não será a mesma coisa. Fiz o meu cadastro, mas não vou frequentar as reuniões. Só sei que a gente terá que deixar esse lugar", disse Luiz Francino, que vende ferramentas e já consta em uma lista de comerciantes cadastrados pela prefeitura e que teriam "local garantido" num novo espaço.

Há seis anos, André Silva faz todo dia o mesmo percurso. Acorda cedo, arruma suas coisas e pega o ônibus em direção ao centro. Chega por volta das 7 horas, e coloca à venda, em seu pequeno tabuleiro, relógios e outros produtos. Segundo ele, a preocupação dos feirantes não está na organização e melhor estrutura dos novos locais. "O movimento aqui é muito bom. As pessoas vêm às barracas todo dia, têm contato direto com os vendedores. Em outro local, mesmo que seja mais organizado, não sabemos como vai ser. Isso deve derrubar as vendas, aí a gente sai no prejuízo", questiona.

Remanejamento
Como a transferência deve acontecer para três locais, alguns comerciantes devem remanejados antes de outros - fato que também preocupa os feirantes. Muitos deles afirmam que se cadastraram e "ouviram relatos" de uma mudança de local, mas não foram notificados oficialmente pela prefeitura. "A gente ouviu histórias, mas nunca passou disso", informa João Verçosa, proprietário de uma barraca de frutas no local. "Não sei para onde vou, não, com essa mudança. Espero que desistam disso", alega, temendo não conseguir um bom local.

De acordo com o secretário de Abastecimento de Maceió, Carlos Ronalsa, a mudança de local é inevitável. Mas ele diz que a prefeitura vai dar toda a infra-estrutura aos novos locais. "Estamos trabalhando para que todos sejam bem alojados, por isso vamos adotar alguns critérios para cada setor. Vamos ouvir os comerciantes antes de iniciar a mudança", explica.

Perigo
Na rua onde há o escambo, a praxe é os comerciantes se recusarem a conversar com jornalistas. Também não se mostraram simpáticos à ideia de serem fotografados durante a venda de produtos. A parte específica para as trocas e vendas de produtos usados fica por trás dos trilhos e é alvo de operações policiais. Para a polícia, o local é um dos principais pontos de venda de armas e produtos roubados em Alagoas.

No momento da visita da reportagem do UOL Notícias, na manhã de quinta-feira (12), nenhum policial foi visto pela região.

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