Médicos pedem demissão em massa na maior maternidade de AL

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió (AL)

Mais de 80 pediatras, anestesistas e obstetras efetivos pediram demissão na maternidade Santa Mônica, única mantida pelo Estado de Alagoas para atendimento a gestantes de alto risco. Os profissionais vão cumprir, a partir desta terça-feira (17), 30 dias de aviso prévio.

"Isso significa quase 90% dos médicos que trabalham na maternidade. Só ficaram os profissionais que estão para se aposentar em breve. Dia 16 de abril a maternidade vai estar fechada, porque não tem onde o Estado buscar médicos para cobrir esse pessoal", informa o presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed), Wellington Galvão.

O motivo alegado para a saída de todos é a baixa remuneração e a falta de condições para atendimento a gestantes e bebês. Há 15 dias, os pediatras contratados como prestadores de serviço já entregaram o mesmo pedido à direção da Universidade de Ciências da Saúde (Uncisal), responsável pela gestão da maternidade.

A Uncisal alega que não tem como conceder reajustes. Segundo o reitor André Falcão, os pedidos de demissão coletiva foram recebidos, e o governo pretende dar uma resposta dentro de uma semana. "Vamos ter uma reunião com o pessoal da Gestão Pública, da Fazenda, da Saúde e com o próprio governador (Teotonio Vilela Filho). Essa é uma questão complexa e de governo, já que a Universidade não tem como dar um aumento ou contratar pessoas. Na próxima semana teremos a resposta oficial do Estado", explicou o reitor.

Fim do credenciamento
Também nesta terça-feira, os médicos cadastrados ao Sistema Único de Saúde (SUS) em Alagoas anunciaram que vão antecipar a entrega dos pedidos de descredenciamento. No último dia dois, os cerca de 300 médicos credenciados no Estado decidiram deixar o SUS. A ideia inicial era entregar todas as assinaturas até o fim do mês.

Caos na Saúde em Alagoas

  • Carlos Madeiro/UOL

Os representantes da categoria afirmaram que os anestesistas serão os primeiros profissionais a entregarem os pedidos. A entrega deveria acontecer já nesta terça-feira, mas erros no preenchimento do formulário adiaram a proposta imediata. "Tivemos esses problemas, mas já conseguimos 41 das 50 assinaturas. Só vamos entregar quando tivermos com todas, como tínhamos dos formulários errados. Já está decidido: até sexta, no mais tardar segunda-feira, entregaremos esses pedidos", revelou o presidente da cooperativa dos anestesistas de Alagoas, João Lisboa.

Segundo Wellington Galvão, o principal motivo da antecipação foram as declarações dadas ao UOL pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão. "O ministro mandou que os governos pressionassem os médicos. Financeiramente, nós (médicos) não precisamos do SUS para nada, tanto que estamos em greve há quase nove meses e ninguém sentiu impacto no bolso. Se ele (Temporão) pensa que estamos preocupados por não termos para quem trabalhar, está enganado", afirmou Galvão.

Em entrevista ao UOL, Temporão afirmou que "em um Estado onde 95% da população não tem plano de saúde, se os médicos não trabalharem para o SUS, vão trabalhar para quem?". Segundo o Sindicato dos Hospitais (Sindhosp), em 2008, 8,77% da população de Alagoas tinha plano de saúde.

Para Wellington Galvão, o ministro foi irônico com a declaração e fugiu do foco do problema. "Ele parece que não tem noção do que acontece em Alagoas, do que a população passa com a saúde pública deficitária. Ele e a família dele deveriam ser obrigados, assim como os gestores dos Estados e municípios, a só usarem o SUS. Garanto que funcionaria bem", assegurou o sindicalista.

Ainda nesta terça-feira, em entrevista coletiva, os médicos receberam o apoio oficial dos hospitais de Alagoas credenciados ao SUS. Segundo o presidente do Sindhosp, Humberto Gomes, o Estado de Alagoas e o município de Maceió têm dinheiro para complementar a tabela SUS. "Para aumentarmos em 100% o valor da tabela seriam necessários R$ 5,1 milhões por mês. Em 2008, por exemplo, o recurso mandado pelo Ministério da Saúde para atendimento ambulatorial e hospitalar teve sobra de R$ 93 milhões entre Estado e municípios. Esse recurso deve ter sido utilizado para outras áreas de saúde", argumentou, mostrando relatório que será entregue ao Ministério Público Federal.

Segundo Gomes, os hospitais são solidários aos médicos porque também "não suportam mais cobrir os custos de procedimentos. "Uma colectomia (retirada parcial do intestino) é remunerada pelo SUS com R$ 143,39. Os custos hospitalares são de R$ 2.835,86. Ou seja, 1.800% a mais. É impossível trabalhar assim", explica, complementando que 5,3 mil cirurgias deixaram de ser feitas durante os pouco mais oito meses de greve somente nos três maiores hospitais conveniados de Maceió.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde disse que precisaria ter acesso aos dados para fazer uma análise precisa do caso.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos