'Vizinho' de Ciro Gomes, morador de rua vira 'celebridade' em Fortaleza, mas fica sem namorada

Lauriberto Braga
Especial para o UOL Notícias
Em Fortaleza

Alexsandro Araújo da Silva, 30, ou Tigrão, como é mais conhecido, seria um típico morador de rua não fosse a forma inusitada e arriscada que encontrou para estirar o corpo cansado ao fim de cada jornada: uma galeria pluvial que dá para a mais boêmia das praias de Fortaleza, a Praia de Iracema. A galeria fica debaixo do cruzamento da avenida Historiador Raimundo Girão com Rua Ildelfonso Albano. Nessa mesma esquina, fica um luxuoso prédio onde, no alto do 23º andar, mora o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE).

  • Tigrão se abaixa para andar na galeria em que mora

  • Morador de rua manobra carro, um dos seus bicos

Exatamente na esquina em que está o buraco que serve de moradia a Tigrão. Flanelinha de profissão, Tigrão não costuma se encontrar com o "vizinho". Ele conta que só viu o político famoso uma vez, em 2007. "Mas nem cheguei a falar com ele. Só sei que ele é casado com aquela atriz... a Patrícia Pillar".

Tigrão virou celebridade em Fortaleza depois que se recusou a trocar o lugar em que vive por um abrigo público. Virou assunto de jornais, tevês e rádios cearenses. "Muita gente veio aqui me conhecer. Tiraram fotos, mas ajuda para sair da galeria, nenhuma", reclama.

Mas ele aproveita a ocasião até para distribuir autógrafo. Como apareceu nos veículos de comunicação de massa de Fortaleza, muitos curiosos o procuram para saber se vida melhorou. Recentemente, ele foi parar no jornal porque estava morando com uma companheira. Depois de dois meses de relacionamento, no entanto, ela deixou a galeria pluvial e Tigrão está de novo sozinho.

A vida de Tigrão é marcada pelas dificuldades. Sua família mora numa casa invadida na favela Rosalina. Saiu cedo de lá para trabalhar e não mais voltou, "porque não me cabe". Passou a infância vendendo água de coco na Avenida Gomes de Matos, a principal via do bairro periférico Montese. Mas há 10 anos teve a barraca destruída. Um ônibus passou por cima.

"Perdi tudo. Abri um processo na Justiça, mas que nunca deu em nada", afirma. O apelido Tigrão vem daí. A barraca de Alexsandro ficava na calçada de um ponto de comércio chamado de "Tigrão".

Do Montese, Tigrão veio para Praia de Iracema, ainda em 1999. Num dos principais cartões postais de Fortaleza, ele resolveu ser flanelinha. "Tive que expulsar um guardador de carro para ficar com a vaga", conta com orgulho.

No início, o flanelinha passou a dormir no calçadão. "Como sempre fui muito observador, encontrei esta galeria que dá para o mar. Fui entrando e descobri um canto bom para morar. Improvisei uma cama, um banheiro, que chamo de piscina, e uma despensa", relata.

A cama inicialmente era composta de uma tábua tendo como pés uma cadeira. Mas aí veio a enxurrada, a cama foi embora. Ele então teve uma ideia. Encontrou uma tábua mais resistente e fez os pés da "cama" de mármore. Sem ter como pagar pelas pedras, improvisou. "Peguei as pedras de mármore da obra do calçadão". Ficou boa.

O sonho dele é aparecer no programa do Gugu, do SBT. "Quero que o Gugu me dê uma casa, uma mobilete e um tratamento dentário", apela confiante que a produção do programa já contatada atenda a seus pedidos.

A moradia de Tigrão é de difícil acesso. Ele tem de percorrer bastante encurvado uns 150 metros de galeria até chegar a "casa". O percurso é um verdadeiro rali humano.

Tigrão passa por lama, pedras e concreto que machucam suas costas e pés principalmente. Todo dia ele faz esta rota pelo menos quatro vezes: ao acordar, ao tirar uma soneca depois do almoço, voltar para o trabalho e para dormir à noite. "Já estou acostumado. Sei todo o caminho de cor e salteado. O que não consigo é evitar a frieira nos pés e os arranhões nas costas", lamenta.

Tigrão lembra que a única visita indesejada que teve nessa década de moradia pluvial foi um rato. "Tomei um susto. Ele entrou na minha roupa, mas acabei matando. Nunca mais apareceu outro".

Tigrão se diz bastante confiante em Deus. "Tenho esperança que um dia saio da galeria para uma casinha. Não um abrigo, como chegou a ser oferecido, pois não sei ser mandado. O pessoal do Centro de Atendimento à População de Rua chegou a me oferecer abrigo, mas não aceitei."

"Pretendo fazer uma barreira aqui na galeria para ter mais conforto.
Seria uma espécie de quarto, que diminuiria os efeitos da enxurrada em épocas de chuva, quando as águas vêm como mais força, fazendo correnteza e chegando a mais de meio metro de altura".

A galeria tem um metro de altura. Na maior chuva do ano em Fortaleza, terça-feira passada (17) teve que ser resgastado pelo Corpo de Bombeiros. Mas tão logo as águas baixaram, ele voltou para a moradia.

O flanelinha Tigrão também faz bicos de manobrista, apesar de não ter carteira de motorista. "Mas não me troco por muitos motoristas com carteira", se vangloria.

Aliás, Tigrão é muito autoconfiante. Falante ao extremo, diz ter alguns anjos da guarda. O pessoal de um restaurante e de uma pousada, na área em que ele "vigia" carros, lhe dá a alimentação básica: café da manhã, almoço e jantar.

"O que eu compro com o meu apurado no dia é o cigarro, meu único vício, material de higiene. E dou uma pensão diária de R$ 5 para um filho que tenho de dez anos. O nome dele é Anderson".

Querido na área, Tigrão só reclama do pessoal que frequenta o calçadão. "Como aqui fica perto do aterro, onde normalmente tem shows, poderia o pessoal me dar um trocado melhor para pastorar e lavar os carros. Mas muitos não dizem nem muito obrigado."

O faturamento médio diário de Tigrão com o serviço é de R$ 10. "Já cheguei a ganhar R$ 30 num dia, mas isso é uma raridade".

Tigrão imagina que pudesse fazer outras coisas na vida. "Dava para ser um policial. Não gosto de vagabundo. Tem muita gente gaiata. Não gosto de brincadeira. Trabalho. Fiz meu cantinho e não devo nada a ninguém".

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