Exército corta carros-pipa que atendiam a 140 mil sertanejos em Alagoas

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

Pelo menos 140 mil sertanejos de Alagoas deixaram de contar com abastecimento de água por meio de carros-pipa nesta segunda-feira (23). Alegando falta de recursos, o Exército suspendeu a Operação Pipa, que garantia o abastecimento de 33 municípios atingidos pela seca no Estado.

Segundo a Coordenadoria de Defesa Civil de Alagoas, 30 dessas cidades estão em situação declarada de emergência há mais de três meses.

Por conta da estiagem, que já dura sete meses em alguns municípios, o programa federal, de caráter emergencial, era a única fonte de água para consumo humano da população. No semi-árido alagoano, a grande maioria dos barreiros e açudes estão secos desde o final do ano passado. Segundo a Defesa Civil, a situação nesses municípios deve ficar "dramática" caso o corte no abastecimento permaneça por muitos dias.

O comandante do 59º Batalhão de Infantaria Motorizado, coronel Cristiano Pinto Sampaio, explica que os recursos vinham diretamente de Brasília para pagar aos fornecedores. "Existe a ausência de verba. Assim, não tenho como assumir o compromisso de abastecer essas famílias, porque o recurso não chegou", informa o comandante. Não há previsão para a volta do programa.

Nesta segunda-feira, os prefeitos alagoanos fizeram uma reunião em Maceió para discutir o assunto. "Esse corte foi brutal e não sei o que vou fazer. Os municípios de Alagoas não têm como manter esse abastecimento. Os recursos mal estão dando para os prefeitos honrarem a folha de pagamento", afirma o prefeito de Poço das Trincheiras, Gildo Rodrigues. O município do Sertão é um dos mais castigados pela estiagem. "Os açudes e barreiras continuam secos."

De acordo com os prefeitos alagoanos, os sucessivos cortes no Fundo de Participação dos Municípios (FPM) inviabilizam a manutenção do programa com recursos municipais e diversos outros gastos de custeio. O corte no mês de março do FPM foi de 19%, o que segundo os gestores locais inviabilizou o pagamento de fornecedores e até a garantia dos salários referentes ao mês de fevereiro em dezenas de prefeituras no Estado.

Documento a Lula
Nesta terça-feira (24), uma comitiva da Associação dos Municípios de Alagoas (AMA) vai a Salvador para entregar um documento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo a reativação imediata da Operação Pipa no Estado.

O presidente da AMA, Luciano Barbosa, deve se encontrar com o presidente durante o evento que marca a assinatura do Compromisso pela Diminuição das Desigualdades Regionais. Na próxima quarta-feira, os 33 prefeitos devem se reunir em Santana do Ipanema, a 205 km de Maceió, para discutir o problema com o governador Teotônio Vilela Filho e o comandante do Exército em Alagoas.

"Enquanto o governo federal não restabelecer a operação, vamos solicitar uma ajuda estadual para o pagamento dos carros-pipa. Nossa proposta é que o Estado pague 50%, e os municípios complementam com os outros 50%", afirma o prefeito de Arapiraca, Luciano Barbosa. O Estado ainda não se posicionou sobre o pedido de ajuda.

Sem dinheiro em caixa, os prefeitos emitiram nota apelando à bancada alagoana em Brasília para que ela "pressione o governo federal a rever essa posição sob pena de uma convulsão social, provocada pela fome e miséria, invadir às cidades".

Greve e municípios "fechados"
Ainda durante a reunião, os prefeitos alagoanos decidiram "fechar" os municípios por um dia, em protesto contra o corte dos recursos federais. No próximo dia 2 de abril, eles prometem parar contra o que consideram de "estado de pré-insolvência".

"Nesse dia os gestores vão às ruas decretar luto e mostrar a população o que está acontecendo com as cidades. Apenas os serviços essenciais vão funcionar", informou Barbosa.

"Nossa realidade é completamente diferente do Sul e Sudeste, onde a maioria dos gestores não precisa do FPM. Aqui um real faz diferença", afirma o prefeito de Quebrangulo, Marcelo Lima.

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