Líder arrozeiro de Roraima fala em "salve-se quem puder" e prevê atraso na retirada de não-índios de reserva

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Depois da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) na última quinta-feira (19) pela demarcação contínua da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, o líder dos arrozeiros e um dos principais produtores do Estado, Paulo César Quartiero, afirmou que pretende respeitar a decisão do Supremo e sair do local, mas reconhece que não terá condições plenas para cumprir a retirada das instalações e dos funcionários de sua fazenda em um curto prazo.

"Em respeito ao STF, começamos a fazer a retirada no último sábado (21), mas eu não havia feito as contas de quanto isso custaria", diz. "Fiz, então, um levantamento e descobri que terei que desembolsar mais de R$ 2 milhões em deslocamento, transporte, mão-de-obra, entre outros custos", relata.

O prazo de retirada de não-índios da reserva será definido na próxima quarta-feira (25), quando o ministro do Supremo, Carlos Ayres Britto, se reunirá com o ministro da Justiça, Tarso Genro.

De acordo com Quartiero, a colheita da atual safra de arroz termina em junho e o prazo concedido para a saída dos não-índios deveria ser de ao menos oito meses. "Se trabalharmos todos os dias, o tempo mínimo para a retirada é de 240 dias. Além disso, a indenização deveria ser paga antes da retirada, o que não deverá acontecer", projeta o arrozeiro, que também é dono de aproximadamente 4.000 cabeças de gado.

Segundo o fazendeiro, um caminhão que iniciou no sábado (21) a retirada dos bens da fazenda foi parado em uma blitze da Polícia Rodoviária Federal na saída da Raposa/Serra do Sol. "Os policiais colocaram armas na cabeça dos funcionários da fazenda e os revistaram. Após a humilhação, o motorista disse que não trabalhará mais na retirada", disse Quartiero.

Segundo o produtor, os não-índios da Raposa/Serra do Sol temem o futuro. "Ontem (22), estive na Vila Surumu (que fica na Raposa/Serra do Sol). Os não-índios não têm para onde ir. Não têm dinheiro para fazer a mudança. As crianças ficarão sem escola. Daqui para frente será a lei do salve-se quem puder", acrescentou.

Para indígenas, prazo para a retirada será curto
Já entre os índios os últimos dias foram de festa, segundo o líder indígena e coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Dionito José de Souza. "Nós só comemoramos desde a decisão do STF. Agora, nossa única preocupação será respeitar as 19 condições impostas pelo Supremo (para a demarcação contínua da reserva)", afirmou.

Para o coordenador do CIR, o prazo que o STF deverá conceder para a saída dos não-índios terá que ser curto. "Nós iremos esperar a retirada dos não-índios porque isso será rápido. Não tem porque demorar. A terra é nossa", afirmou.

Dionito acredita ainda que, após a retirada dos não-índios, não haverá conflitos pela posse da terra entre as aldeias indígenas alinhadas ao CIR e as que apoiam a Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiurr). "Nós temos diálogo com eles. Assinamos uma carta para trabalharmos amistosamente."

Questionado sobre como ficará situação de não-índios que vivem em famílias ou comunidades indígenas, Dionito afirma que isso só será tratado após o início da retirada. "Será um segundo passo. Iremos organizar os não-índios que são casados com índios e resolver pacificamente cada situação. Mas aqueles que vierem complicar a vida dos povos indígenas não serão aceitos", disse.

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