PMs são acusados de humilhar estudantes em escola de Goiânia; meninos dizem que tiveram de tirar as roupas

Sebastião Montalvão
Especial para o UOL Notícias
Em Goiânia

O Ministério Público de Goiás abriu uma investigação para apurar abusos cometidos por policiais militares contra estudantes em uma ação em que a PM foi chamada depois de uma denúncia de furto numa escola pública de Goiânia. Alunos dizem que os policiais os obrigaram a tirar as roupas e os humilharam. A Polícia Militar informou que abriu uma sindicância sobre o caso.

A polícia foi chamada na manhã da última segunda-feira (30) na Escola Estadual Albert Sabin, no setor Petrópolis, periferia de Goiânia, após denúncia de que cerca de R$ 940 em dinheiro arrecadado para a compra de camisetas para uma turma de formandos da escola teriam sido furtados durante o período de aulas. O dinheiro ficava em posse de uma aluna nomeada pelos colegas como responsável pela arrecadação. A aluna denunciou o sumiço do dinheiro e a direção escola decidiu chamar a polícia.

Seis policiais participaram da ação. Eles chegaram à escola em três carros da PM. A PM afirma que os três já começaram a ser ouvidos nesta quarta.

"Eles chegaram e pediram para as meninas saírem das salas de aula. Depois mandaram que todos tirassem as camisas e abaixassem as calças. Foi constrangedor", conta M., de 15 anos. Ele disse ainda que, em determinados momentos, os policiais teriam feito brincadeiras e comentários a respeito dos órgãos genitais dos garotos, que têm faixa etária entre 12 e 20 anos.

"É uma situação muito preocupante. A escola é um ambiente pedagógico, de ensino. Duvido que fizessem uma ação desse tipo numa região nobre da cidade. É uma evidência de que a polícia não está preparada", afirmou o promotor, informando que amanhã (2) pela manhã deve receber um grupo de pais de alunos revoltados com a situação.

Um deles é o comerciante Weber Carvalho, 38, pai de dois alunos. "A gente cria os filhos em um ambiente de respeito e educação. Aí, acontece uma coisa assim. Isso foi humilhante", disse. Os pais admitem a possibilidade de entrar com uma ação contra o Estado de Goiás em decorrência do suposto constrangimento.

"A situação é gravíssima. Não tenho notícia de que algo semelhante tenha acontecido. Nem mesmo durante o período da ditadura", disse o promotor Everaldo Sebastião de Souza, coordenador Centro de Apoio Operacional da Infância, Juventude e Educação do Ministério Público.

Além do Ministério Público, o caso também deve ser investigado pela DPCA (Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente) e pela Corregedoria da PM. A delegada, porém, afirmou que não tem prazo para dar início às investigações, uma vez que a Polícia Civil de Goiás está em greve desde o dia 23 de março. "Dependo de agentes, escrivão para fazer intimações, boletins. Só depois da greve", disse Adriana, por telefone.

O Ministério Público informou que a apuração deve ser concluída em cerca de 30 dias. "O trabalho será desenvolvido paralelamente com a DPCA e a Corregedoria. Após 30 dias, reuniremos todas as informações e apresentaremos denúncia", disse o promotor. Além dos policiais, Everaldo afirmou que a diretora da escola também pode ser responsabilizada. "Ela é a responsável pela escola", defende o jurista, informando ainda que, havendo condenação, a pena pode variar de seis meses a dois anos de detenção, com a possibilidade de aplicação de penas alternativas, como pagamento de cestas básicas, por exemplo.

O tenente-coronel Lorival Camargo, comandante do Batalhão Escolar da PM de Goiás, afirmou que defende ações nas escolas, mas disse que o que houve foi uma "ação equivocada e talvez realmente tenham havido excessos".

Procurada pela reportagem do UOL Notícias, a diretora da escola não atendeu às ligações. A secretária de Educação do Estado, Milca Severino, informou que vai apurar as denúncias. O Secretário de Segurança Pública, Ernesto Roller, classificou a ação como "lamentável e equivocada" e que determinou a apuração dos fatos.

Na manhã desta quarta, os dois secretários lançaram um programa de segurança escolar que visa a "aproximar" a polícia do ambiente do ensino.

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