Entorno de "Carandiru caipira" sofre com briga entre prefeitura e Estado

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Hortolândia (SP)

A cidade de Hortolândia (SP) tem dois lugares cercados de toda a segurança, dentro dos quais circulam diariamente por volta de 10 mil pessoas. Um deles é a Tech Town, condomínio empresarial especializado em tecnologia da informação, tendo a multinacional IBM como empresa mais famosa.
 



O outro é o complexo penitenciário que foi batizado de "Carandiru caipira", por sua dimensão semelhante e por albergar muitos detentos transferidos da célebre Casa de Detenção desativada em 2002 na zona norte de São Paulo. Fora das cercas prisionais, as pessoas estão realmente desprotegidas: bairros surgem, sem nenhuma infraestrutura, com população que mistura parentes de presos, agentes penitenciários e pessoas que vivem da economia em torno da cadeia.

A prefeitura local reclama uma compensação pelo ônus social de 8.000 detidos em um município de 200 mil habitantes. O governo, por meio da Secretaria da Administração Penitenciária, diz que sua ingerência se limita a fronteiras muradas. O atrito também acontece por motivos políticos: Hortolândia é um reduto petista em um Estado governado pelo PSDB.

Um episódio escancara a situação: familiares dos presos têm de chegar na véspera da visita (para conseguir senha de entrada), pagando R$ 10 pelo pernoite ao relento em colchonetes em uma das pensões da vizinhança. Um grupo de mulheres de presos descobriu que uma das pousadas era de propriedade de um carcereiro e quase lincharam a prima do funcionário público que tocava o empreendimento - revoltaram-se porque eram alojadas pela mesma pessoa que aprisionava seus parceiros.

"Aqui é um lugarzinho cheio de gente com parente em cana", define Eliana Guimarães, apontando a poeirenta Vila Guedes. Ela tem um filho preso há 11 meses. Ao seu lado está Jaqueline Fátima, cujo namorado vive do outro lado do muro. "Fui visitar meu irmão e me apaixonei pelo amigo dele. Tenho duas filhas desse relacionamento, de nove e sete anos", conta.
 

Pôr-do-sol, chinelo e amor

  • Flávio Florido/UOL

    Em torre de presídio, vigia observa os detentos de Hortolândia

  • Flávio Florido/UOL

    Barraca próxima oferece aluguel de chinelo, afinal, tênis é proibido

  • Flávio Florido/UOL

    Jaqueline conheceu namorado em visita e teve filhas com ele

O entorno do presídio cheira a uma mistura de esgoto e queimada. Das ocupações correm línguas de água servida em direção a pastos com gado. O mato alto é constantemente incendiado, e a paisagem se perde em meio à fumaça.

No Parque Perón, o líder comunitário Juracir dos Santos atravessa um matagal cheio de ratos e cobras para mostrar que o rio Jacuba ganhou uma nova nascente: a cloaca que escoa 50% do esgoto do presídio ao lado. Metros abaixo está a mina originária de água que só serve para diluir um pouco a poluição. Galinhas ciscam nos dejetos. Crianças brincam perto. Os meninos Derek e Jeferson simulam uma perseguição em suas bicicletas.

"Vim da Bahia para cá em 1989 para construir a prisão e decidi ficar. O bairro era tranquilo e tinha água limpa para a gente tomar banho e lavar as roupas. Hoje, os problemas se acumulam, mas pelo menos tem menos fugas e crimes", diz Juracir. Cinco anos atrás, a cidade era a segunda no ranking de homicídios do Estado e acabou batizada como "Mortolândia".

O azulejista Juracir mostra o campinho em que treina o time do bairro e faz questão de mostrar um dos patrocinadores: o bar do Luisão, onde os agentes penitenciários se reúnem no final de expediente. Esses funcionários públicos não querem aparecer em reportagem. O temor é duplo. Por um lado, alguma punição das autoridades. Por outro, uma vingança de algum detento. Um carcereiro faz jornada também como cabeleireiro na vizinhança. "Vejo alguns detentos passarem na frente do salão, mas finjo que não vi", comenta sobre os presos em regime semiaberto, facilmente identificados por suas calças beges, que capinam e varrem nas vias públicas.

As histórias de ataques nos períodos de indulto são comuns. O último caso foi de um motorista de lotação que se engraçou com uma namorada de preso. Para se vingar, um comparsa deu uma descarga de tiros no peito do "talarico" (gíria para ladrão de mulher).

Mães, esposas e irmãs se aglomeram desde quinta para a visita do fim de semana. Depositam o "jumbo" (sacola com produtos de limpeza e higiênicos) num dia. Esperam as senhas no outro. E, finalmente, no sábado e domingo fazem horas de fila para verem seus entes encerrados. Elas desenvolveram uma economia paralela. Uma é manicure e banca os custos de viagem pintando as colegas de sina e as garotas das proximidades.

Maria Aparecida Barros sai da Casa Verde, bairro da capital paulista, e atravessa os 105 quilômetros até Hortolândia todas as semanas. Traz na bagagem uma sacola com calcinhas e sutiãs para a multidão predominante feminina na porta da cadeia. "Aqui é vida louca. Uma ajuda a outra porque não esperamos ajuda das autoridades." As próprias visitas organizam a entrada no presídio, criando um sistema de senhas que privilegia idosas, gestantes e quem chega antes (muitas acampam à beira da avenida).

Natural de Foz do Iguaçu (PR), Maria Aparecida conheceu seu amor quando estava presa na Penitenciária Feminina de Santana e começou a se corresponder com um preso no Carandiru. Ela foi solta, e ele foi transferido para Hortolândia. Como não há perspectiva de soltura, Maria Aparecida já se acostumou ao namoro que tem uma revista policial como preliminar.
 

PERFIL DO ENTORNO DO COMPLEXO PENITENCIÁRIO*

Renda média per capita: R$ 260
72% dos chefes de família são mulheres
50% dessas mulheres estão no mercado informal
48% dos domicílios há casos de desemprego
*dados da prefeitura local

O "Carandiru caipira" foi projetado para abrigar 5.300 presos, mas a estimativa atualmente é que o número passa de 8.000 em unidades que recebem nomes como P1, P2 ou P3, o que transformaria o local na maior concentração de detentos de São Paulo. A Secretaria da Administração Penitenciária não divulga a quantidade, mas, por seu lado, o sindicato dos agentes penitenciários dá conta que há pelo menos 500 detentos a mais em cada uma das seis unidades prisionais localizadas na divisa com Campinas. Por esses números, Hortolândia seria endereço de 4% da população carcerária do Estado - em contrapartida, aloja apenas 0,5% de toda a população paulista.

Entretanto, Hortolândia não atrai só os presos, suas famílias e suas facções (em 2006, uma rebelião mostrou a força do PCC por lá). Na base da renúncia fiscal, recebeu instalações de gigantes da indústria tecnológica e farmacêutica. Foi tema de várias reportagens do tipo "O Brasil que dá certo". Quando a Dell mudou para a mesma cidade da IBM, logo se ouviu que ali seria o "Vale do Silício" do Brasil.

Apesar da vocação industrial, com crescimento econômico em níveis chineses e mais de 250 indústrias instaladas, é um lugar pobre: 85% da população economicamente ativa recebe menos de cinco salários mínimos. Muitos dos trabalhadores especializados dessas fábricas vivem nas cidades vizinhas. Hortolândia se emancipou da vizinha Sumaré em 1991, quando já tinha a IBM e a penitenciária em seu território, e até hoje tem de lidar com esse contraste em sua realidade.

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