Moradores, comerciantes e urbanistas criticam mudanças no bairro da Liberdade

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Quando a Lei Cidade Limpa chegou ao bairro da Liberdade, no centro de São Paulo, em janeiro de 2007, os luminosos e os letreiros bilíngues do tradicional reduto de orientais na capital paulista foram reduzidos a discretas placas entre 1,5 e 4 metros quadrados. Os comerciantes da região não gostaram do resultado e decidiram organizar um projeto de revitalização do espaço.

O projeto da iniciativa privada foi aprovado e alardeado pela Prefeitura de São Paulo como "a resposta para os problemas da Liberdade", depois que a retirada das placas provocou polêmica e fortes protestos do comércio do bairro, que queria manter a região parecida com as capitais japonesas ou os bairros Chinatown ao redor do mundo.

Dois anos depois da varredura feita pela prefeitura, os ânimos se acalmaram e a revitalização começou a sair do papel. Mas, longe das associações que organizaram o projeto, o descontentamento continua. A principal crítica, que também se estende às mudanças feitas pela Lei Cidade Limpa, é de que o bairro está sendo descaracterizado.

 
Rua Galvão Bueno, na Liberdade, antes da Lei Cidade Limpa, hoje e como deve ficar pelo projeto de revitalização

"Tiraram tudo e ficou horrível. Perdeu-se a cara da Liberdade, que transformava o bairro em ponto turístico. É uma vergonha", reclama Yukiko Tahara, dona da banca de jornal que fica na Praça da Liberdade.

A revitalização começou no ano passado e até agora já reformou a Praça da Liberdade, a rua Tomás Gonzaga e a rua Galvão Bueno, também chamado de "O Caminho do Imperador". Os trabalhos incluíram a limpeza das fachadas dos edifícios, a troca das calçadas e a substituição por modelos mais modernos dos postes de luz inspirados nas lanternas suzuranto.

As obras foram patrocinados pelo banco Bradesco, cuja agência no local ganhou uma fachada oriental. As demais etapas ainda dependem de captação de recursos por meio da iniciativa privada. Segundo acordo inédito com a prefeitura, quem bancar o projeto, que no total está orçado em R$ 55 milhões, ganhará o direito de explorar a publicidade no local dentro das regras da Lei Cidade Limpa.

O gerente da Associação Cultural Assistencial da Liberdade, Luís Sato, por sua vez, diz que o projeto está de acordo com o que os comerciantes da região desejam para o bairro. "Queremos um bairro temático", explica. Segundo ele, o projeto foi feito por um arquiteto que entende a arte oriental e que está trabalhando junto com a comunidade.

A reportagem do UOL Notícias ouviu de comerciantes e moradores da região queixas de que a maioria das lojas, além de não mais todos aqueles painéis coloridos que compunham o visual do bairro, sequer têm nome aparente ou ideogramas, que chegaram a ser adotados até pela rede mundial de fast food Mc Donald's em sua loja na Liberdade.

A lojista Tatiana Fujita, da Livraria Sol, diz que, depois da mudança na Praça da Liberdade, onde fica seu estabelecimento, as pessoas só identificam a loja quando olham para o tapete, que traz o nome do estabelecimento. O gerente da mercearia Towa, Inaldo Guilherme, também acha que o que mais incomoda no novo visual é a falta de identificação nas fachadas das lojas e a falta de letreiros, que davam "outra cara ao bairro".

A prefeitura diz que não há nada que impeça nomes ou ideogramas nas fachadas das lojas, desde que estejam dentro das especificações da lei. "Isso é de responsabilidade do comerciante. Você pode colocar nos letreiros qualquer informação do estabelecimento. Só não pode publicidade, como 'Beba Coca-Cola'", explica Regina Monteiro, presidente da CPPU (Comissão de Proteção à Paisagem Urbana), da Emurb (Empresa Municipal de Urbanização).

Já o arquiteto Márcio Lupion, responsável pelo projeto de revitalização, diz que a falta de letreiros "é um mal entendido". "Adaptamos as fachadas ao novo projeto, mas no contrato não está prevista a recolocação dos nomes, que devem ser adaptados à Lei Cidade Limpa". Ele afirmou também que pretende visitar o local e conversar com moradores e comerciantes para identificar problemas na execução do projeto.

O gerente Inaldo Guilherme, no entanto, diz que o tamanho imposto pela prefeitura não deixa espaço para as informações em português e mais outra língua, como se via nas placas de antigamente. "Não cabe quase nada nesse espaço, mal cabe o nome", reclama.

Buda gigante
Entre outros pontos polêmicos do projeto estão a instalação de uma estátua do Buda com 6 m de altura sobre uma fonte com flores de lótus em uma das praças do bairro da Liberdade, a adoção do Japão feudal como tema e a substituição do que foi construído por anos de influência imigrante, e que com o passar do tempo ficou deteriorado, por peças novas e modernas, sem que haja uma preocupação de restaurar e proteger o local como patrimônio histórico e elemento de uma memória coletiva.
  • Projeto prevê a instalação de um Buda de seis metros de altura em um parque da Liberdade



"Projetos como esse, que pretendem dar fisionomia a um bairro, devem ser o mais neutro possível, e interferir pouco nas fachadas. É importante trazer a atenção para piso, canteiros com vegetação, pintura e travessia de pedestres, para a qualidade e para o desenho", defende o urbanista Pedro Taddei Neto, especialista em planejamento e projeto do espaço urbano e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Segundo ele, a identidade de um bairro é dada pelos moradores, pelas mercadorias expostas, pelos restaurantes e pela arquitetura privada, e não por totens, painéis ou elementos caricatos impostos. "Transformar o bairro em um desfile de carnaval permanente e esperar que a alegoria exprima a identidade é ruim. A identidade deve ser instigante e não jogada na cara, senão fica grotesco", acredita.

O urbanista ressalta ainda que os órgãos responsáveis por cuidar do patrimônio histórico normalmente são muito debilitados e têm pouco poder de fogo para atuar nesses casos. "O tratamento do patrimônio como história, que é homeopático e depende do longo prazo, perde espaço para o tratamento temático e alegórico, que é rápido e mais fácil", lamenta.

A presidente do CPPU, Regina Monteiro também diz que o projeto foi uma iniciativa dos proprietários de imóveis de região e, por isso, não sofre influência da prefeitura. "O mesmo acontece na rua Oscar Freire. Lá os proprietários preferiram tirar as casas da década de 60 e construir lojas quadradas e modernas", disse. "Eu tenho a minha opinião, você tem a sua opinião, os acadêmicos reclamam, mas o projeto foi encomendado pelos comerciantes e querer mudá-lo é uma atitude paternalista dos especialistas."

Lupion também observa que o projeto de revitalização "não é um projeto de urbanismo". "Estou projetando a vontade absoluta dos comerciantes, das associações. É adorno de fachada de acordo com regras de Emurb, não é urbanismo", explica.

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