Produtores da Bahia querem mais cacau no chocolate; dívidas e questões técnicas atrapalham produção

Aurélio Nunes
Especial para o UOL Notícias
Em Salvador*

Por uma passagem secreta pelo bar Vesúvio, o coronel Ramiro Bastos despista a mulher e entra no cabaré de Maria Machadão. Terno italiano, botina de couro, relógio de ouro, ele pede o melhor vinho da casa, cerca-se das mais belas raparigas e acende o charuto com uma nota de 100 réis. Em pouco tempo, perderá tudo o que tem.

A cena, inspirada pelo livro "Gabriela Cravo e Canela", de Jorge Amado, é representada semanalmente pelo grupo teatral Mactube no palco do Bataclan Décor, uma casa de entretenimento criada no mesmo espaço que abrigou, entre os anos 1920 e 1930, o mais luxuoso dos cabarés de Ilhéus. O prédio estava em ruínas quando um grupo de arquitetos teve a ideia de restaurá-lo e transformá-lo em atração turística.

Para Eduardo Costa, advogado e administrador de uma propriedade produtora de cacau do Grupo Consolação Pirajá, essas histórias reforçam o que considera um preconceito comum sofrido pelos cacauicultores: o de que as dívidas bancárias em que estão mergulhados hoje foram consequência das extravagâncias do passado e não do quadro devastador de seca, da queda dos preços no mercado internacional e da temida vassoura-de-bruxa, praga causada por um fungo que assolou as plantações nos anos de 1980. A vassoura-de-bruxa ataca flores, brotos e frutos do cacaueiro, reduzindo radicalmente a produção.

Costa também reproduz uma crítica comum dos produtores: a de que o chocolate brasileiro tem pouco cacau - seria mais um "achocolatado" do que um chocolate, a rigor.

"Embora a Garoto e a Nestlé já estejam produzindo chocolate com 60% de cacau, tem empresa que só bota 3%", concorda o produtor Virgílio Costa de Amorim, 64. "Na Europa, o fabricante é obrigado a colocar no rótulo o porcentual de cacau no chocolate. Aqui não", reclama (a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados, afirma, por sua vez, que a média de cacau no chocolate ao leite no Brasil é de cerca de um terço. E que a principal razão para isso acontecer é o gosto; segundo a associação da indústria, o percentual introduzido na composição do produto se adequa a fatores como a temperatura média no país e o paladar do público brasileiro).

Essa história de produtor que queimava dinheiro para acender cigarro pode até ter acontecido em casos muito pontuais, mas não reflete a realidade dos produtores

  • Eduardo Costa, advogado e administrador
Virgílio Amorim produz chocolate artesanal em sua propriedade de 100 hectares, a Fazenda Primavera, e a degustação do produto, cuja textura lembra mais a de uma rapadura, é reservada ao público das sessões de visitação monitoradas pelo próprio proprietário.

Transformar a Fazenda Primavera em atração turística foi uma das alternativas para driblar a crise do setor cacaueiro. Produzir açaí e criar gado de leite, outras. Além de mostrar toda a cadeia produtiva do cacau - colheita, fermentação, secagem e ensacagem -, Amorim conduz o visitante a um passeio pelo museu que construiu em sua propriedade com mobiliário e documentos que datam do século 17. "Esta propriedade é uma sesmaria que pertence à minha família há sete gerações. Começou com meu tataravô, está comigo e ficará com meus netos", diz.

O produtor integra um seleto rol dos que não têm dívidas no banco, assim como Ronaldo Santana, 64, que também apostou na diversificação e na qualificação do produto para contornar a queda de produção de 2.500 arrobas para 400 arrobas depois que seus cacaueiros foram atacados pela vassoura-de-bruxa. Ele produz cacau orgânico, que é vendido no mercado de R$ 130 a R$ 150 a arroba, contra os R$ 95 pagos pelo produto convencional.

"Em vez de adubo químico, usamos cinzas, pós de rocha, cobertura morta, cascas, e resíduos. A vassoura-de-bruxa eu combato com um fungo, o tricoderma. Na minha lavoura nada se queima, nada se raspa do solo. O mato é o cabelo da terra", prega Santana, que resolveu transformar parte de sua propriedade, Conjunto Vivenda Colina de Ode, em reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) Mãe da Mata, uma área de 13 hectares com árvores de até 700 anos de idade. Banana e cupuaçu são as outras culturas desenvolvidas em sua fazenda.

Órgão do governo errou, dizem produtores
"Essa história de produtor que queimava dinheiro para acender cigarro pode até ter acontecido em casos muito pontuais, mas não reflete a realidade dos produtores. É lógico que o cacau era uma atividade rentável, que atraiu muita gente, mas isso já acabou e faz tempo", diz o advogado Eduardo Costa.

Segundo ele, há mais de 35 anos o cacau, principal matéria-prima do chocolate, é fruto de desgosto para a maioria dos cacauicultores. "O cacau movimenta US$ 70 bilhões anuais em todo o mundo. Menos de 5% ficam nas mãos dos produtores, que são os que correm mais riscos", desabafa.

A vassoura-de-bruxa eu combato com um fungo, o tricoderma. Na minha lavoura nada se queima, nada se raspa do solo

  • Ronaldo Santana, produtor de cacau orgânico
O advogado é autor de uma ação coletiva proposta pelo Sindicato dos Produtores Rurais de Ilhéus contra a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), o Banco do Brasil e o Banco do Nordeste, de nulidade dos contratos feitos no Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira, que, segundo calcula, criou um endividamento de quase R$ 1 bilhão, no total, para mais de 500 agricultores da região.

"A Ceplac, que é um órgão do governo, cometeu erros técnicos. A primeira e a segunda etapas, que consistiam na remoção da vassoura-de-bruxa, não trouxeram nenhum resultado porque a adubação excessiva estimulava a planta a produzir mais vassoura-de-bruxa. Na terceira etapa, os primeiros clones mostraram-se incompatíveis sexualmente, pois dependem de polinização cruzada de frutos que nascem em épocas diferentes [nesses casos, a árvore produz flores que não frutificam]. Mas o governo não só não reconhece a sua responsabilidade como ainda está cobrando da gente", declarou. A Ceplac nega qualquer tipo de erro técnico.

Ele calcula que "99% dos produtores de cacau estão endividados" e que a devastação das lavouras fez a produção baiana retroceder de 420 mil toneladas para 139 mil toneladas anuais a produção de cacau, sendo responsável pelo desaparecimento de mais de 250 mil postos de trabalho. Uma das medidas da crise do setor é o fato de que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ilhéus teve o telefone de sua sede cortado por falta de pagamento.

Menos cacau, mais ovos de Páscoa
A região da Costa do Cacau, onde está situada Ilhéus, responde pela totalidade da produção baiana do fruto, mais da metade da brasileira, de 217 mil toneladas. O Brasil detém cerca de 6% da produção mundial, e é o quinto do ranking, atrás de Costa do Marfim, Gana, Indonésia e Nigéria.

No entanto, a produção nacional não atende sequer à demanda do mercado interno. Em 2008, o Brasil importou 74 mil toneladas. Na melhor fase de produção, o país chegou a exportar em torno de 157 mil toneladas.

A maior parte da indústria de beneficiamento de cacau também se concentra em Ilhéus. São as indústrias que transformam amêndoa do cacau em pó, licor ou torta, as diferentes formas que são compradas pela indústria chocolateira. A produção nacional de cacau é utilizada quase que em sua totalidade para a produção do chocolate. Uma parte muito pequena é utilizada na produção de vinagre, manteiga, aguardente e polpa, entre outros subprodutos.

A queda da produção de cacau vai na contramão da de ovos de Páscoa, que terá aumento de 4,8% em relação ao ano passado, segundo a indústria do setor. O setor estima que 113 milhões de unidades de ovos de chocolate foram confeccionados em 2009.

* Colaborou Gabriel Carvalho, de Salvador

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