Desempregado busca futuro em São Paulo movido a água

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

O desemprego no país tem um número: 8,6% da população economicamente ativa segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). E tem um rosto entre tantos: Bruno Bertholdi, sem carteira de trabalho assinada desde o final de 2007.
 

Todo dia, ele sai cedo atrás de um trabalho que possa ajudar a bancar o apartamento que divide com a avó de 87 anos na Bela Vista, região central de São Paulo. No bolso, alguns trocados. Quando enfrenta a pé os quilômetros entre agências e cooperativas de emprego, sobra dinheiro para o almoço. Se gasta com transporte, sobrevive à base de água.

"Preciso de um trabalho para tocar minha vida para frente. Olhar para trás não adianta. É só tristeza", desabafa o rapaz de 23 anos que já foi carpinteiro, eletricista, gráfico, frentista, garçom e até ajudante de pedreiro por R$ 20 diários - a função é conhecida como "orelha seca", por ter de carregar argamassa nos ombros.
 

Emprego formal tem pior trimestre desde 1999, mas melhora em março

No primeiro trimestre, o país perdeu 57.751 empregados. No mesmo período do ano passado, houve geração líquida de 554.440 empregos.

Nas andanças, ele não é criterioso, pega o que vier. É só ver uma placa com um "precisa-se" que ele entra. Vale vaga de panfleteiro, entregador de pizza ou ajudante geral em supermercado. A versatilidade de Bruno é uma vantagem e uma desvantagem, afinal, formalmente ele só comprova experiência como frentista, único trabalho com carteira que teve na vida. Os diplomas profissionalizantes - e Bruno tem um par deles - pouco importam para os empregadores sem meses devidamente documentados no batente.

Em 2 de janeiro, Bruno trocou São Sebastião, onde morava com a tia, por São Paulo, onde apenas conseguiu um estágio como atendente de telemarketing. Fez o treinamento, ganhou uma ajuda de custo, mas acabou dispensado no processo de seleção.

Ele cursa o terceiro ano do ensino médio e sonha em fazer uma especialização em design gráfico. Ainda adolescente, cuidava da diagramação de cartões e cartazes em uma gráfica. Montava logos e pilotava o computador e os programas Photoshop e Coral Draw. "Foi o emprego que me deu mais prazer. Era legal inventar os logos e agradar os clientes", lembra. Foi também o único trabalho não braçal que teve.

Em São Sebastião, Bruno não conseguia nada. A prefeitura de lá deu cursos de construção civil para garantir mão-de-obra local para uma obra da Petrobrás por lá, mas, como o projeto está na terraplanagem, as vagas estão estagnadas. Outros verões já renderam bicos como garçom, mas este, que recentemente terminou, não. Reflexo da crise global detonada em 2008.

"Para os pobres, a crise é permanente. Essa última eles inventaram para tirar o trabalho dos pobres", resume. O passado duro reforça a esperança de um futuro melhor. Bruno foi criado quase sem a presença dos pais. "Meu pai é o exemplo do que eu não devo fazer." Bruno conviveu com ele apenas uns meses, quando tinha 12 anos. Foi um intervalo entre um e outro período atrás das grades. Atualmente, o senhor sexagenário está no Cadeião de Guarulhos. Roubo. "Não sei quando ele sai, mas aposto que virá atrás de mim, afinal, ele não tem nada na vida."

O contato com o pai se limita a três ligações anuais. "A gente não tem assunto. Ele pergunta se eu estou bem. Eu pergunto também e digo 'tchau'. Não vou ficar pedindo conselhos a ele." Nada de visitas. Nada de informações sobre sua pena.

Quando tinha cinco anos, perdeu a mãe. A história que lhe contaram à época é que ela morreu dormindo. Não acreditou quando criança, muito menos agora. Ele já era criado pela avó e a tia do lado paterno. A mãe aparecia por dois, três dias e desaparecia. Foi enterrada como indigente em Caraguatatuba, também no litoral paulista. E até hoje tem pouquíssimo contato com a família materna, que vive em Jundiaí.

No dia em que a reportagem do UOL Notícias o encontrou, Bruno estava na central paulista do Centro de Solidariedade ao Trabalho, no bairro da Liberdade. Com R$ 1, tinha almoçado no restaurante popular Bom Prato, o que lhe recobrou forças para as oito horas nas filas, salas de espera e balcões de triagem no local. Saiu com três indicações de emprego.

No dia seguinte foi a duas delas, mais uma programada antes e duas imprevistas, encontradas em sua caminhada. Seu périplo foi testemunhado pelo repórter fotográfico Flávio Florido. Foi quase um verdadeiro expediente atrás de trabalho, das 8h, quando saiu do prédio em que mora, até o retorno às 15h30. Um dia totalmente empregado atrás de emprego. Mas Bruno foi dormir nesse dia tão desempregado quanto estava na hora em que acordou.

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