É necessário investir US$ 500 milhões nos trens do Rio, diz especialista

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Trens superlotados, viagens demoradas, longa espera nas plataformas de embarque, funcionários em greve por melhores condições de trabalho, seguranças agredindo passageiros, acidentes ocorrendo com frequência. O sistema ferroviário do Rio de Janeiro, sob concessão da Supervia, vive uma situação difícil e precisa de fortes investimentos, avalia Albuíno Azeredo, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

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Para ele, é necessário investir nos próximos meses aproximadamente US$ 500 milhões para que o carioca possa usufruir de um transporte ferroviário de qualidade.

Com esse valor, segundo Azeredo, seria possível comprar cerca de 60 trens novos, renovar completamente a frota (atualmente são 20 trens novos, 48 reformados e 32 antigos), adequar a sinalização na via, remodelar a linha férrea, drenar o solo e reformar as estações. "É um sistema vulnerável, tanto para o usuário, quanto para o funcionário, que está distante do nível desejado pela sociedade", afirma o professor.

A partir de 1994, o sistema ferroviário, que até então era de responsabilidade do governo federal, passou para a administração governo do Estado no Rio de Janeiro, assim como em São Paulo. Em 1998, a Supervia venceu a concorrência e obteve a concessão do sistema de trens do Rio de Janeiro por 50 anos para administrar 89 estações e sete linhas que cortam 11 municípios da Grande Rio e totalizam 225 km de extensão.

De acordo com Azeredo, a situação do transporte ferroviário no Rio de Janeiro estava no "fundo do poço" em 98 quando a Supervia assumiu. Ele cita a redução do número usuários diários - de quase 1 milhão em meados da década de 1980 para 120 mil em 1998. "A partir de 1998 houve melhorias. A Supervia fez investimentos, o governo do Estado comprou 20 trens e reformou outros 48, o número de passageiros aumentou para quase 500 mil neste ano, mas o sistema ainda está muito longe do ideal", diz.

Histórico de incidentes
Nos últimos cinco anos, pelo menos quatro incidentes graves foram registrados no sistema ferroviário carioca. Em 10 de agosto de 2004, uma colisão de trens deixou ao menos 50 pessoas feridas. Já em 30 de agosto de 2007, na estação de Austin (Nova Iguaçu), oito pessoas morreram e 111 ficaram feridas em um choque entre uma composição que levava mais de 800 pessoas e outra que manobrava na mesma linha.

Em 30 de novembro de 2007, um trem descarrilou na estação Méier e bateu contra os pilares da passarela de acesso à estação, destruindo parte da infraestrutura da estação e deixando várias pessoas feridas. Na última quarta-feira (15), quatro seguranças da Supervia foram flagrados pelas câmeras agredindo passageiros com chutes, socos e chicotadas.

"O poder público abriu mão do direito de operar o transporte alegando falta de recursos, mas isso não é justificativa. Era necessário o governo priorizar os gastos, mas o que houve foi uma política de reduzir os investimentos até deteriorar o sistema, sob a alegação que só é possível operar o sistema com ele privatizado. No entanto, vemos que em vários outros países o governo continua a operar e investir transporte sob trilhos", acrescenta.

Segundo o professor, o governo do Estado, por meio da Agetransp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquáviários, Ferroviários e de Rodovias do Estado do Rio de Janeiro), tem o papel de monitorar a concessionária e até acabar com a concessão, caso julgue necessário.

"As agências reguladoras não foram bem estruturadas e não estão aparelhadas para fazer a fiscalização. Não possuem sequer equipamentos para avaliar as condições técnicas das ferrovias", afirma Azeredo.

O professor defende, ainda, que o governo federal volte a investir no sistema ferroviário do Rio de Janeiro. "O erro foi o governo federal se afastar do sistema de transporte sob trilhos. A agência reguladora precisa ser aparelhada, a concessionária precisa aumentar os investimentos, mas é fundamental que o governo federal volte a investir, assim como já faz com as ferrovias Norte-Sul e Leste-Oeste, que transportam carga, não passageiros", diz.

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