Seca já atinge 122 cidades gaúchas; meteorologia prevê chuva só em maio

Flávio Ilha
Especial para o UOL Notícias
Em Porto Alegre

Atualizado às 19h40

O número de cidades afetadas pela seca no Rio Grande do Sul subiu para 122 nesta sexta-feira (24), de acordo com os dados divulgados pela Defesa Civil. Somente nesta semana, mais 20 prefeituras decretaram situação de emergência - todas localizadas nas regiões Norte e Noroeste do Estado, na divisa com Santa Catarina e Argentina.

É a segunda estiagem do ano no Rio Grande do Sul. Em janeiro, 85 cidades das mesmas regiões atingidas pela atual falta de chuvas decretaram situação de emergência, tendo sido afetadas, segundo a Defesa Civil do Estado, cerca de 150 mil pessoas. Na atual seca, a estimativa é de que a área afetada envolva uma população de 800 mil pessoas.

As altas temperaturas, aliadas à falta de chuvas, têm afetado as lavouras de milho e de soja da região, além da produção leiteira. A Emater (Associação Rio-grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural) estima que a quebra na produção de leite nos municípios do Norte e Noroeste do Rio Grande do Sul esteja em 50%.

Nas lavouras, a secretaria de Agricultura do Estado trabalha com uma quebra entre 20% e 30% na safra. A previsão do 8º Distrito de Meteorologia do Rio Grande do Sul é de que chova forte no Estado apenas na segunda quinzena de maio.

Na chamada região Celeiro, no Noroeste gaúcho, 15 das 21 cidades estão em situação de emergência. O presidente da associação dos municípios da região, Claudemir Locatelli, disse que boa parte da população já está sem água para consumo próprio. Entre os municípios mais afetados estão Alpestre, Braga, Miraguaí, Nonoai, Pinheirinho do Vale, Redentora, Tenente Portela, Tiradentes do Sul, Três Passos e Vista Gaúcha.

Reivindicações
Nesta sexta-feira, mais de 1.200 agricultores e uma centena de prefeitos e secretários de agricultura se reuniram em frente à agência do Banco do Brasil em Palmeira das Missões, a 374 km de Porto Alegre, para fechar uma lista de reivindicações aos governos federal e estadual. A reunião foi liderada pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e pela Associação dos Municípios da Zona da Produção (Amzop).

Segundo Plínio Simas, do MPA, quase metade da população da região afetada pela seca vive da agricultura. "Todos foram atingidos. Está faltando água até para beber", relatou. O dirigente disse que a maior parte dos agricultores planta milho, feijão, arroz e batata para subsistência e que muitas famílias estão gastando agora o estoque que deveria ser utilizado no inverno. Na quarta-feira (22) choveu 1 mm em Palmeira das Missões. "Não deu para nada", lamentou Simas.

O MPA quer que o governo federal estenda o plano de anistia do Imposto de Renda aos pequenos agricultores para dívidas de até R$ 10 mil. Também espera obter anistia para todos os agricultores que têm cadastro junto ao Serasa e acesso a novos investimentos. Pelas regras do Ministério da Agricultura, quem recorrer três vezes ao seguro agrícola em cinco anos não pode mais ter acesso a financiamento.

A reunião também decidiu propor a criação de um fundo para liberar um salário mínimo por família atingida pela estiagem. O cadastro das famílias beneficiadas seria formado pelo Conselho Agropecuário da cada município ou pela Defesa Civil. Os agricultores também pretendem obter isenção de um ano no pagamento de energia elétrica para os afetados pela seca.

Cesta básica e água
Nesta semana, o governo do Estado, através da Defesa Civil, entregou mais de 4.000 cestas básicas às famílias da região, além de 7.500 litros de água para abastecimento de pequenas propriedades rurais.

Neste sábado (25), serão entregues outras 3.560 cestas básicas nas 20 cidades mais afetadas pela seca, entre elas Barra do Guarita, Bom Progresso, Coronel Bicaco, Crissiumal, Derrubadas, Esperança do Sul, Humaitá, Inhacorá e Três de Maio. A governadora do Estado, Yeda Crusius, vai pessoalmente à região fazer a entrega dos donativos.

O deputado federal Luiz Carlos Heinze, que representa a bancada ruralista da região, esteve na reunião em Palmeira das Missões e disse que o endividamento dos grandes produtores se agravou com a estiagem das últimas semanas. "O custo de produção subiu muito com a crise global. Agora, a situação é dramática", avaliou.

O secretário-executivo da Amzop, Saul Mattei, cobrou atitudes mais efetivas do governo estadual para minimizar os efeitos da falta de chuva. Segundo ele, o governo poderia desburocratizar a licença para a abertura de novos poços artesianos e ter uma política efetiva de irrigação e abastecimento de água em regiões que sofrem com a seca há mais de uma década.

Mattei também sugeriu a criação de um fundo permanente de reserva contra as secas, que ajudaria as famílias comprometidas com recuperação e preservação ambiental com um salário mínimo de remuneração mensal durante períodos de pouca chuva. O fundo seria capitalizado com os recursos oriundos das multas contra crimes ambientais.

Cisternas e microaçudes
O governo do Estado informou que está abrindo cisternas, poços artesianos e microaçudes para o consumo animal de água e irrigação de lavouras nos municípios afetados pela seca.

Além disso, 15 reservatórios móveis de água estão circulando pelas regiões Norte e Noroeste do Estado a fim de amenizar a falta d'água junto à população. Mais 15 reservatórios estão sendo adquiridos.

O secretário da Agricultura e Agronegócio do Rio Grande do Sul, João Carlos Machado, disse que carros-pipa estão sendo mobilizados para abastecer os locais mais afetados pela estiagem. "O governo está muito atento, muito sensível. Estamos solidários com as comunidades e com os prefeitos", disse.

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