À espera de indenização maior, arrozeiros estudam transferir cultivo de arroz para a Guiana

Marco Antonio Soalheiro
Enviado Especial da Agência Brasil
Em Boa Vista

Os produtores de arroz que estão deixando a Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, onde constituíram fazendas nas últimas décadas, intensificaram esta semana as conversas com autoridades da Guiana que podem resultar na transferência de suas atividades para o país vizinho.

O governo da Guiana estaria disposto a oferecer áreas próprias para cultivo de arroz, a serem exploradas por tempo determinado e com isenção de impostos. Um ministro daquele país iria se reunir na noite de ontem (27) com os produtores. Mas a consolidação de uma parceria dependerá de uma extensa lista de condições.

"Vamos levantar o custo de produção e ver o que eles vão querer em troca, se será possível cultivar lá e manter usinas aqui. Tudo isso será avaliado com cuidado após essa primeira conversa", afirmou o presidente da Associação do Arrozeiros de Roraima, Nelson Itikawa.

A saída dos produtores da Raposa foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após decidir no mês passado manter a demarcação da reserva de 1,7 milhão de hectares - homologada pelo governo federal em abril de 2005 - em faixa contínua

"Nós não vamos desistir nunca. Vamos continuar produzindo aqui ou fora", garantiu a empresária Regina Barilli, esposa do arrozeiro Ivo Barilli. Ela lembrou, porém, a dificuldade de encontrar em Roraima outras áreas propícias à atividade. "Área igual àquela [da Raposa/Serra do Sol], para se plantar seguido, não tem. Existem outras, mas pequenas e pulverizadas".

Na tarde de ontem, o produtor Paulo César Quartiero analisava detalhadamente um mapa da Guiana em seu escritório. Disse também ter recebido a oferta de terras no interior de São Paulo. Os arrozeiros estão insatisfeitos com os governos federal - pela indenização oferecida pela saída da Raposa após a demarcação da reserva em faixa contínua - e estadual - por, segundo eles, demonstrar pouco empenho em criar condições para mantê-los em Roraima.

Para Quartiero e Itikawa, o futuro da economia do Estado está comprometido. "Roraima acabou. Aqui não se consegue licença ambiental para nada. Vai virar Estado de contracheque", afirmou o primeiro. "O Estado já é pobre e ficará pior se perder produção e empregos", ressaltou Itikawa.

Os arrozeiros relatam já terem demitido de 20% a 50% do quadro de funcionários fixos. Segundo Itikawa, a atividade gerava no Estado pelo menos 1.000 empregos de carteira assinada e outros 4.000 indiretos e temporários.

Itikawa, que explorava 7.000 hectares na área demarcada, disse que a indenização oferecida pela Fundação Nacional do Índio (Funai) foi de cerca de R$ 300 mil, que, segundo ele, representa 5% do valor que considerava justo.

Os arrozeiros já ajuizaram ações na Justiça Federal pedindo indenizações maiores. "O governo ainda não fez o que prometeu no decreto [de demarcação], que foi indenização prévia, justa e realocação em outra área", criticou Quartiero. "Minha área era titulada e nos chamam de invasores ou grileiros. O governo até agora não cumpriu nada", reforçou Itikawa.

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