Filhos de Lugo viram tema de bastidores de reunião da CNBB, diz bispo vizinho ao Paraguai

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notíciais
Em São Paulo

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil está reunida desde o último dia 22 para discutir a formação dos padres, mas o tema celibato não é o foco, como parte da imprensa relatou. Mesmo assim, o caso de Fernando Lugo, presidente paraguaio que enfrenta três processos de paternidade da época em que era bispo católico, é discutido nos corredores "em conversas informais", como relata Dom Redovino Rizzardo, da diocese de Dourados (MS), área limítrofe com o país vizinho.

"A impressão que dá é que ele tinha mais vocação política que eclesiástica", afirmou o bispo à reportagem do UOL Notícias em entrevista que falou também de outros temas, como a política indigenista.

DESNUTRIÇÃO INDÍGENA

  • Reuters

    Crianças são mantidas em hospital para evitar morte

  • Lalo de Almeida/Folha Imagem

    Irmão de bebê morto por desnutrião senta em tenda

Em sua diocese há 25 aldeias, muitas com casos de suicídio entre os guaranis, além de assassinatos por envolvimento com o narcotráfico - anos atrás a tragédia local eram as mortes de crianças por desnutrição. Ele defende que os índios não podem mais viver "da caça e da pesca" e precisam conversar com produtores agrícolas para resolver os conflitos por terra. Leia abaixo os principais trechos da conversa que aconteceu em um intervalo da 47ª Assembleia Geral da CNBB, que ocorre em Indaiatuba (SP) até sexta feira (1º/5).

UOL Notícias - O tema principal do encontro de bispos é a formação dos padres. A questão do celibato está sendo discutida?
Dom Redovino Rizzardo -
Queremos uma formação aprimorada, incluindo o aspecto psicológico para que o religioso se doe mais e melhor para o povo, para que mostre seu amor para o povo. Para reconfortar o celibatário, há 20 anos a Igreja usa a psicologia, para qual tinha certa reserva, principalmente a linha freudiana que liga tudo ao sexo. Mas o celibato é só parte da formação e não está em questão sua mudança.

UOL Notícias - Qual é a sua opinião sobre o caso de Fernando Lugo, que devolveu ao noticiário o tema do celibato clerical?
Dom Rizzardo -
Alguns jornais falaram que foi tema de discussão até na assembleia, mas se falou disso só em conversas informais, nos corredores. A impressão que dá é que ele tinha mais vocação política que eclesiástica. Acho que ele escolheu fazer política e começou entrando para a Igreja. Espero que se sinta feliz com a vida de presidente e de pai. Não podemos julgar seus atos, ele que deve prestar contas à sua consciência.

UOL Notícias - Sua diocese tem forte presença indígena. Qual é a sua posição para a atual política indigenista?
Dom Rizzardo -
O índio não pode mais viver da caça e da pesca porque as florestas são poucas na região. Tem que haver um incentivo para que ele produza em suas terras, como os guaranis faziam um tempo atrás. Hoje, muitos sobrevivem com cestas básicas e não querem mais plantar. Por outro lado, eles tinham que se sentar à mesa com os produtores agrícolas e acertar suas diferenças sobre a demarcação da terra.

UOL Notícias - O senhor criticou a posição do Cimi (Conselho Missionário Indigenista) sobre a posição dessa entidade católica ligada à CNBB na questão da demarcação. Por que isso?
Dom Rizzardo -
Os dois lados têm que conversar para chegar a uma solução pacífica, não adianta defender um só lado. Não concordo que se faça justiça aos direitos dos índios com a injustiça sobre os direitos dos produtores. O Cimi não responde pela posição da Igreja ou dos bispos do Mato Grosso do Sul. O tema indígena é tão importante que mereceria até um ministério, mas defender um só ponto de vista é querer radicalizar a situação.

UOL Notícias - Sua região entra no noticiário justamente por problemas sociais. Primeiro com as mortes de crianças guarani por desnutrição, depois os suicídios entre índios. Por que existe esse quadro em sua diocese?

Dom Rizzardo -
Justamente pela falta de perspectiva em um futuro que os índios se suicidam. A fome nas aldeias melhorou com a distribuição de bolsas de auxílio e cestas básicas. A proximidade das aldeias de cidades e da fronteira do Paraguai também coloca os territórios indígenas na rota do narcotráfico, gerando mortes entre os índios que se envolveram nesse negócio. Nosso trabalho é mais social que religioso na região, afinal muitos índios são evangélicos ou praticam suas crenças.

UOL Notícias - A reunião da CNBB deste ano é sobre um tema interno, a formação dos sacerdotes. Anteriormente, a assembleia geral era voltada para temas sociais. É uma mudança em uma época que o papado é do conservador Bento 16?
Dom Rizzardo -
Os temas sociais têm espaço, com discussões sobre o tema indígena ou dos conflitos agrários. Mas a formação dos padres também é importante nesse aspecto porque não queremos um presbítero aburguesado. A função do padre é intrinsecamente social, sem precisar estar ligado a uma ideologia de esquerda. Essa é a mesma posição de nosso Papa.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos