Fazenda de Quartiero será desocupada em condição de terra arrasada

Marco Antonio Soalheiro
Enviado Especial da Agência Brasil
Na Fazenda Depósito (RR)

Da porteira de entrada, a Fazenda Depósito, área de 4,5 mil hectares que era ocupada na Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, pelo rizicultor Paulo César Quartiero, parece ter sido alvo de uma explosão. Destroços da sede e de galpões estão espalhados pela terra. Em meio a concreto e tijolos partidos, é possível identificar pedaços de privadas, telhas e azulejos quebrados.

Alguns funcionários vão concluir hoje (30) a retirada das últimas máquinas. Só ficarão estacas e arames. A ordem do produtor foi não deixar praticamente nada de que os índios possam se aproveitar. Ordem cumprida e apoiada pelos empregados. Depois de retirados móveis e utensílios que poderiam ser aproveitados em outra construção, tratores derrubaram tudo.

"Tinha banheiro, quarto com ar condicionado e poços artesianos. Tiramos tudo porque a cultura deles [índios] é ficar debaixo das malocas de palha e buscar água nos rios. Se queriam viver isolados, não precisam dessas coisas" , afirmou Anderson Borges, 30, um dos funcionários da fazenda. "Infelizmente não deu tempo de destruir as estradas", acrescentou.

A concordância dos empregados com a destruição se explica pela revolta que sentem diante da perspectiva de perder o emprego e até a moradia, já que alguns ficavam direto na fazenda. O patrão ainda estuda outras áreas para voltar a cultivar arroz e deverá, ao menos temporariamente, abrir mão de parte da mão-de-obra. Os empregados disseram ganhar dois salários mínimos, mais gratificações.

"Vamos caçar um lugar para ficar em Boa Vista. Ou vamos para debaixo da ponte ou vamos tomar a sede do CIR (Conselho Indígena de Roraima). Eles vêm para cá ficar isolados e a gente vai para lá", ironizou Borges.

A preocupação com os efeitos do desemprego, entretanto, é real. Nilo Carlos, outro funcionário, de 38 anos e três filhos, criticou a postura do governo federal, de apenas garantir o seguro-desemprego para quem deixar de trabalhar: "Isso é uma vergonha para o país. O governo desempregar as pessoas para depois querer dar esmola".

"Tinha pai que pagava faculdade de filho com o dinheiro daqui. Como fica isso?", questionou Borges.

Independentemente do mérito das motivações, a ação dos últimos dias na Fazenda Depósito pode se configurar como crime, uma vez que a indenização pelas benfeitorias do local já teria sido depositada em juízo pela Fundação Nacional do Índio. O Ministério Público Federal vai apurar e indicar os culpados.

Na outra área ocupada por Quartiero na reserva, a Fazenda Providência, de 5 mil hectares, a situação é diferente. O produtor alega ainda ter lá pelo menos 400 hectares plantados e insiste em permanecer por mais 30 dias para finalizar a colheita e sair pacificamente. O prazo dado pela Justiça para a desocupação, entretanto, termina hoje, e, se não houver uma prorrogação, a partir de amanhã Quartiero e funcionários poderão ser retirados à força da fazenda pela Polícia Federal.

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