Não índios ainda trabalham para retirar últimos pertences da Raposa/Serra do Sol

Marco Antonio Soalheiro
Enviado Especial da Agência Brasil
Na Vila Surumu (RR)

Famílias de agricultores brancos que devem, por ordem judicial, deixar a Raposa/Serra do Sol até o fim do dia de hoje (30) ainda trabalham para conseguir retirar todos os seus pertences em tempo hábil. Magoados com o governo federal e com a Justiça, muitos deixarão a área com o futuro ainda incerto. É o caso do agricultor Aílton Cabral, 66, que levará aproximadamente 600 animais (bois, porcos, galinhas) provisoriamente para as terras de um primo, enquanto discute na Justiça o valor da indenização a ser paga pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e aguarda a indicação pelas autoridades de uma área compatível para assentamento.

"Eu estou sendo escurraçado. Desde o início, o governo adotou uma forma truculenta, vil e covarde de tratar a questão", reclamou Cabral. "Essa era uma área muito boa para a criação. Conseguir outra igual é muito difícil. Prometeram uma terra, mas até hoje não tenho para onde ir", acrescentou.

Os brancos casados com índias podem permanecer na área desde que concordem com a vida em coletividade e abram suas área para uso comum. Mas nem todos que estão nessa situação quiseram ficar. O policial militar aposentado Clóvis Pereira, 52, casado com indígena, aceitou contrariado a indenização de R$ 25 mil (ele acredita que teria de receber R$ 60 mil) e está de mudança para uma casa na periferia de Boa Vista. Deixará a casa de quatro cômodos, onde morou por décadas, porque teme ser perseguido pelos índios que não queriam a permanência dos brancos na reserva.

"O sentimento é de muita tristeza em deixar o lugar onde criei meus filhos. E estou saindo sem dignidade. Ofereceram um transporte que não era adequado e poderia estragar nossas coisas. Então, eu mesmo vou pagar a mudança", afirmou Pereira, enquanto orientava o carregamento de um caminhão.

Dos seis grandes produtores de arroz que atuavam na reserva, três disseram já ter concluído a desocupação das fazendas. Os outros ainda têm colheitas pendentes e insistem que o governo federal não tem condições de se responsabilizar pelo aproveitamento dos grãos. Querem pelo menos mais 30 dias para sair pacificamente da área. A dúvida é se ficarão nas fazendas depois do dia de hoje (30), mesmo correndo o risco de serem retirados à força pela Polícia Federal.

Os senadores Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) e Augusto Botelho (PT-RR) visitaram comunidades como representantes de um comissão externa do Senado. Eles se comprometeram a cobrar do governo federal melhor assistência na reserva e condições dignas de indenização e reassentamento para quem sair.

"Não estão retirando da região animais, mas seres humanos, então o governo federal precisa cuidar do pós-saída. Por enquanto, [o governo federal] não está cumprindo o prometido. Não dá para misturar pessoas que saírem daqui com sem-terras em assentamento de reforma agrária. Eles devem ter um condição equivalente àquela em que viviam aqui", ressaltou Cavalcanti.

"Espero que não aconteça aqui o que aconteceu em São Marcos [reserva indígena vizinha à Raposa/Serra do Sol]. Os irmãos índios de lá sobrevivem porque fazem contrabando de gasolina da Venezuela. Então, nós temos que dar alternativas de sobrevivência para os que ficam aqui", completou Botelho.

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