"O governo está cometendo um roubo legalizado contra Roraima", diz líder dos arrozeiros

Carolina Juliano Do UOL Notícias Em São Paulo

O empresário e líder dos arrozeiros do Estado de Roraima, Paulo César Quartiero, ainda não desocupou totalmente uma das fazendas que está localizada nas terras da Reserva Indígena Raposa/Serra do Sol e nem pretende desocupar até a meia-noite de hoje, quando termina o prazo dado pelo STF (Supremo Tribunal Federal). "Não tenho a menor condição para desocupar, tem muita coisa lá e nem as famílias podem sair simplesmente porque não têm para onde ir. Além disso, não recebi nenhum ofício dizendo que tenho que sair, só sei disso pela mídia."

  • Sério Lima/Folha Imagem

    "O que eles querem é confiscar meus bens, confiscar meu engenho. Por que não confiscam também minha mulher e meus filhos? Só falta isso", desabafa líder arrozeiro de Roraima

Quartiero falou com o UOL Notícias pelo telefone, de Boa Vista, de onde acompanha a movimentação na Vila de Surumu por informações passadas por seus funcionários. Disse que o governo Lula está cometendo um "roubo legalizado" contra Roraima, mas não prevê que haja conflito na região, apesar de a Polícia Federal garantir que toda a reserva será desocupada hoje. "Não temos como reagir, a única violência que poderá ocorrer ali é algum velhinho morrer do coração."

Leia os principais trechos da entrevista:

UOL Notícias - O senhor ainda não desocupou a fazenda que está dentro da Reserva Indígena Raposa/Serra do Sol. Vai cumprir o prazo que termina à meia-noite de hoje?

Paulo César Quartiero -
Não recebi nenhum ofício dizendo que tenho que sair. Nenhum juiz veio aqui me dizer que tenho que deixar as terras. Ainda tenho muitas coisas lá, máquinas, equipamentos e 400 hectares de arroz para colher.

UOL Notícias - Quanto isso é em dinheiro? O valor não está incluído no cálculo da indenização feito pelo governo federal?

Quartiero -
Isso é um prejuízo de R$ 3 milhões. Um técnico do governo foi lá e avaliou a colheita em apenas R$ 900 mil. E a Funai também avaliou em apenas R$ 2,6 milhões as minhas terras, enquanto uma consultoria que eu contratei disse que as terras valem pelo menos R$ 53 milhões. E isso ocorre também com os pequenos produtores que estão ali, o governo não fez a sua parte, eles não têm para onde ir.


Polêmica em Roraima

  • Roosewelt Pinheiro/ABr

    Dionito José de Souza, coordenador-geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR) diz que o Exército terá que comunicar previamente as comunidades antes de fazer qualquer operação na reserva

UOL Notícias - O senhor pretende resistir à ordem de retirada, caso a Polícia Federal tenha que intervir?

Quartiero -
Eu não tenho como reagir. O governo Lula, só porque não votamos nele no meu Estado, enviou mais de 500 homens fortemente armados, com helicópteros e tudo mais. Não vai haver conflito, se houver violência vai ser, no máximo, algum velhinho morrendo do coração. Mas eu não consigo entender a razão do ódio que o governo desenvolveu contra o Estado de Roraima. Por que isso de determinar a saída no dia 30? Esse número é por acaso um número cabalístico?

UOL Notícias - O dia 30 é o fim de um prazo determinado pelo Supremo. E por que o senhor se recusa a sair no dia 30?

Quartiero -
Não me recuso a sair dia 30. Eu me recuso a sair antes de colher o meu arroz e de retirar as coisas com calma, com o tempo que isso exige. Eu estou gastando muito dinheiro para desocupar as terras e o governo ainda vem e me multa. Até hoje, recebi duas multas por supostos danos ambientais. Elas somam mais de R$ 50 milhões. Em troca, o governo depositou na minha conta até agora R$ 600 mil, que dizem que é pela indenização das terras. O governo está cometendo um roubo legalizado contra o Estado de Roraima.

UOL Notícias - Por que o senhor diz que está sendo roubado quando o governo está executando uma determinação do Supremo Tribunal Federal?

Quartiero -
O Supremo legalizou o roubo do governo Lula. Em vez de negociar como deve ser, de arranjar lugar para aquelas famílias de não índios serem alojadas, de avaliar corretamente as terras e dar tempo digno para que elas sejam desocupadas, o governo fez o que? Enviou o Exército para nos expulsar. O que eles querem é confiscar meus bens, confiscar meu engenho. Por que não confiscam também minha mulher e meus filhos? Só falta isso.

UOL Notícias - O senhor chegou a negociar um prazo maior para poder colher o seu arroz?

Quartiero -
Nós temos uma bancada inteira no Congresso Nacional tentando negociar há cinco anos. Neste caso, duas ou três semanas seriam suficientes para o arroz estar no ponto de colheita. Mas o senhor Ayres Britto [Carlos Ayres Britto, ministro do STF] não nos deu atenção. E nem falo só por mim. A situação dos pequenos produtores é ainda pior porque eles não têm para onde ir. Os pequenos precisam de terra e de um mínimo de justiça.

UOL Notícias - O senhor acha que o STF não fez justiça?

Quartiero -
Não fez, claro. E ainda temos que ouvir as bobagens que dizem seus ministros por aí. Por favor, tudo bem que venham tomar as nossas terras. Mas não me obriguem a ter que ouvir o besteirol do Supremo. Isso é muita tortura.


Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos