Lei antifumo esvazia feira de tabaco e faz produtores de charuto olharem para o exterior

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizada às 10h21

O cerco ao fumo em São Paulo já chegou até as artesanais fábricas de charuto do Recôncavo Baiano. "A demanda baixou 50% com as restrições e a crise econômica. E o problema vai continuar porque os outros Estados costumam seguir o exemplo. Vamos ter que focar nas vendas ao exterior", classifica o paulista Milton Martucelli Jr., que desde 2001 investiu em uma indústria em Cruz das Almas (BA), cidade que tem duas correspondências com Havana de Cuba: bons charutos e boxeadores, com vários atletas com passagem olímpica e títulos internacionais.
 



O pior é que Martucelli investiu em uma linha de cachaças para combinar com seu fumo, combinação proibida nas tabacarias paulistas pela lei prevista para ser sancionada hoje pelo governador José Serra. "Existe até a figura do epicurista, que busca a harmonização perfeita entre tabaco e destilados. Mas essa tradição ficará restrita às casas dos fumantes. Se os vizinhos não reclamarem...", se resigna o empresário.
 

Serra sanciona hoje a lei antifumo; medida entra em vigor em 90 dias

O governador assinará a lei durante evento de inauguração do serviço de Hospital Dia do Instituto do Câncer

O hábito é contado também pelos "tabaqueros cubanos" que se instalaram no Brasil. "Cigarro é um vício, charuto é um prazer. É um costume que combina com uma boa conversa, uma boa bebida, uma boa comida", teoriza Diógenes Puentes, que migrou, deu aulas de espanhol por aqui até que virou mestre charuteiro em uma fábrica em Boituva (SP) que processa os "puros baianos" com as folhas vindas do norte.

Seu compatriota Eduardo Llerena comanda uma equipe de caribenhos que enrolam em fábrica de Itatiba (SP). Só que a matéria prima vem da ilha de Fidel e Raúl Castro. "Em Cuba, nunca proibiriam o ato de fumar. Está muito arraigado na cultura. Nossos políticos fumam e não vão proibir o povo de fazê-lo", faz o paralelo.
 

A lei antifumo foi aprovada pela Assembleia Legislativa e, depois de sancionada por Serra, dará prazo de 90 dias para os estabelecimentos se adequarem. As tabacarias não poderão vender bebidas alcoólicas com a justificativa de que muitos bares poderiam trocar de denominação para vender ambos os produtos. Estão previstas multas e até fechamento de comércios que desrespeitarem a nova lei, o que gerou protestos dos empreendedores.

"Essa lei é muito proibicionista. A crise econômica está nos prejudicando, mas essa lei também tem influência. Tem que haver um movimento de fabricantes e revendedores para pressionar contra isso", sentencia Lorenzo Orsi, mais um paulista a investir numa fábrica baiana de charutos. A tentativa foi de levar métodos gerenciais para uma produção no ritmo cadenciado do artesanato (a produção é de 25 mil charutos por mês), mas a sensação dele é que seu investimento está na contramão: "Todos preveem a extinção do hábito de fumar, mas ainda há muito mercado no Brasil e no exterior para esses produtos finos de tabaco negro." O caminho pode ser a exportação se as regras apertarem nacionalmente.

A feira de tabaco Epicure, que se encerra hoje em São Paulo, contou com menos expositores do que nas edições anteriores. Três marcas que tradicionalmente participam da exposição não montaram seus estandes. Mais um indício de um mercado certo pela pressão das leis e da economia.

"A lei antifumo é 99,9% endereçada aos usuários de cigarro, mas os charuteiros acabam indo junto como os fumadores de cachimbo, narguilé e cigarro de palha. Mas as brechas logo vão surgir nessa lei. Não é possível segregar tanto os fumantes", analisa o epicurista (ou sommelier de tabaco) Cesar Adames.

Todos na feira admitiram os riscos do fumo à saúde e o incômodo do odor belicoso do charuto para quem é abstêmio, mas repetiam em coro suas adesões aos puros. "A intenção da lei é perfeita, suas regras são radicais. De qualquer forma, a satisfação dos amantes dos charutos nunca vai acabar", professa a fé o administrador de empresas Werner Muller, entre uma baforada e outra na exposição.

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