Protesto contra impostos revive fila enorme em posto oferecendo gasolina barata

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Crise do petróleo, desabastecimento, superaumento da gasolina, cortes na Bolívia, CPI da Petrobras? Uma fila de mais de 200 carros formou-se em um posto paulistano na manhã desta segunda-feira (25). Mas o motivo foi outro: um protesto contra os impostos municipais, estaduais e federais, promovido simultaneamente em mais três cidades: Rio, Porto Alegre e Belo Horizonte.



"Isso me fez lembrar o passado, quando anunciavam aumento no telejornal e eu corria para o posto para completar o tanque, torcendo para terminar a fila até a meia-noite", descreveu Tsai Tong, comerciante chinês que era um dos últimos no corredor de veículos na avenida Sumaré, no bairro de Perdizes. Como companhia para as horas de espera, tinha uma cadela poodle no banco do passageiro.

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À sua frente estava o aposentado Alderico Silva, que pegou o carro do filho para aproveitar o preço de R$ 1,462 pelo litro da gasolina. Ele levou mulher, neto e um galão de 20 litros no bagageiro, para multiplicar o benefício. O problema é que o ato estabeleceu um limite de 25 litros para cada uma das pessoas que pegaram as 240 senhas distribuídas a partir das 9h.

"Para mim, está sendo uma aventura. Eu peguei a senha cedo e voltei agora para reabastecer. Só estou aqui porque estou sem serviço. Se não, valeria mais a pena estar trabalhando", confessou o eletricista Gumercindo Presente, que economizaria cerca de R$ 20 com a espera.

O tumulto na área obrigou o deslocamento de uma dezena de agentes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Mesmo assim, o final da fila atrapalhava o cruzamento com a rua Caiubi. A secretária Eloisa Ribeiro tinha um "marronzinho" exclusivo na traseira de seu carro desviando o fluxo matinal.

FILA NA AVENIDA

  • Derek Sismotto/UOL

    Agente da CET cuida para que fila ocupe apenas uma via da avenida

"Tem muito malandro cortando a fila. Então, me enfiei aqui para não perder a vez. Agora é promover um protesto contra os espertinhos", se queixava a secretária que atrapalhava a circulação.

O responsável pela distribuição das senhas era o estudante Ivan Miguel, que cumpria o serviço voluntário obrigatório para sua faculdade. "Foi mal organizado. Teve muita confusão, o pessoal chegou sem informação", explicou o jovem. Segundo ele, a maioria das pessoas que pegou as senhas de sua mão era de classe média. Os carros novos comprovavam sua informação.

Por outro lado, alguns motoboys aproveitaram para economizar. Mas, como a distribuição de senhas terminou em 40 minutos, muitos ficaram sem a gasolina barata. "Achei que era o dia todo. Li no jornal e não tinha nada falando de senha. Vim de Pirituba e fiquei frustrado", se resignou Anderson Souza sobre sua moto.

As duas organizações de visão liberal que promoveram o protesto foram a Mises Brasil, que divulga no país o pensamento do economista austríaco Ludwig von Mises, e o Movimento Endireita Brasil, associação que tenta encaminhar figuras do mundo empresarial para a política pública.

O curioso é que com apenas R$ 5.622, dinheiro para bancar o desconto nos 6.000 litros oferecidos ao público, as associações conseguiram atrair mídia facilmente. Equipes de TV rastreavam entre os motoristas histórias curiosas e depoimentos indignados.

Um deles foi o do representante comercial Claudenir Júnior, que, pelo celular, convocava os amigos para engrossarem o tumulto. "Isso é uma humilhação. Entrar nessa fila para ter combustível por um preço decente me deixa humilhado", esbravejou para os microfones.

PRECINHO CAMARADA

  • Derek Sismotto/UOL

    O litro de gasolina a R$ 1,462 atraiu consumidores de longe

Já Ricardo Salles, diretor do Movimento Endireita Brasil, preferia endereçar as críticas ao poder público. "O Estado atropela o consumidor com essa carga tributária", afirmou, desviando de um carro que saía em disparada após a demora para abastecer. Ele explicou que seu grupo é representante da direita liberal, que quer um Estado menor e mais eficiente para o país.

O grupo também quer estabelecer o 25 de maio como o "dia da liberdade dos impostos". Modelos contratadas distribuíam folhetos pedindo urgência na reforma tributária e citando até a morte de Tiradentes: "Foi enforcado em 1792 por lutar contra um imposto de 20% cobrado por Portugal sobre o ouro encontrado".

O ato foi mais uma manifestação contra a carga tributária do país, cujo protesto mais conhecido é o "impostômetro", um placar no centro paulistano que contabiliza o total de dinheiro endereçado para as taxas governamentais.

O contador, mantido pela Associação Comercial de São Paulo, deve chegar à marca de R$ 400 bilhões de impostos federais, estaduais e municipais pagos pelos brasileiros.

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