"MST tucano" atrai associados oferecendo bolsa universitária em SP

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

"A maioria não se interessa pelo movimento sem-terra, só está atrás do desconto", confessa Felipe Cirne na porta da universidade UniSant'Ana, que parece um formigueiro no intervalo de 15 minutos do período noturno. "Poucas pessoas sabem o que essa associação prega. Eu mesmo não presto muita atenção", resume logo ao lado Juliana Ramos.
 



Felipe e Juliana conseguiram um abatimento de 50% na mensalidade por ter frequentado cinco reuniões antes do vestibular. Agora, já no segundo semestre do curso de história, eles têm obrigação de todo mês presenciar os encontros para não perder a bolsa. Como eles, 60 mil jovens de classe média baixa aproveitam da benesse em São Paulo.

Muitos, porém, ainda confundem a entidade que concede a bolsa com o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). "Tem muita gente que pensa que tem que invadir fazenda para ganhar o desconto. E fala que prefere pagar a mensalidade integral a fazer parte do MST", conta Fernanda Romão, que só está pagando na íntegra porque não teve tempo de se inscrever na ATST (Associação dos Trabalhadores Sem Terra).

Classificada como "o MST tucano" ou "o maior movimento de base do PSDB", essa entidade reúne em seu quadro de 100 mil integrantes um total de 60 mil bolsistas de 18 faculdades privadas na Grande São Paulo. Seu principal líder é o deputado estadual Marcos Zerbini (duas vezes vereador paulistano também pelo PSDB) e sua mulher, Cleuza, que afirmam não acreditar em ideologia.

A associação existe desde 1986 e não tem como estratégia ocupar áreas abandonadas nem exigir do Estado moradia a seus militantes. Em vez disso, usa pequenas poupanças familiares, que reunidas compram grandes lotes para depois dividi-los entre os militantes, aproveitando as "leis de mercado". Dessa forma, já conseguiu moradia para mais de 17 mil famílias na periferia paulistana, principalmente na zona norte.
 

A MARCHA

  • Moacyr Lopes Jr./Folha Imagem

    A ATST fez protesto durante gestão da petista Marta Suplicy

Zerbini e a mulher iniciaram sua militância nas pastorais da Igreja Católica e no PT, mas passaram para uma linha mais pragmática e se aproximaram dos tucanos durante a administração estadual de Mario Covas (1995-2001).

O ATST também se ligou ao movimento Comunhão e Libertação, surgido há 50 anos, mas que tomou corpo no papado de João Paulo 2º. Hoje ele apoia o papa Bento 16 e é crítico da igreja mais progressista, identificada com a Teologia da Libertação. Na entrada da sede da associação, na Lapa, há uma faixa com frase do pontífice alemão. O casal Marcos e Cleuza foi recebido pelo papa em Roma.

"Nós levamos valores para uma juventude que não tem mais referência. Mostramos o caminho para esses jovens, que com organização e disciplina podem atingir seus sonhos. Mas nossas palestram não são religiosas, são filosóficas", afirma Amanda Barion, advogada da associação e filha da fundadora.

Ela conta que a ação universitária do ATST, intitulada projeto "Educar Para a Vida", começou há cinco anos quando fecharam o primeiro acordo com uma faculdade particular, que oferecem desconto de 50% se a associação levasse 500 alunos. Resultado: inscreveu 1.800 e lotou um campus que estava às moscas.

"Se eles têm muitas vagas ociosas, e nós temos os alunos, por que não negociar?", questiona Zerbini. Hoje tem acerto com duas dezenas de instituições para ocupar as vagas remanescentes, incluindo a PUC-SP. "Para a faculdade é um bom negócio. Para nós, é um serviço social. Nossa cláusula principal é que a faculdade mantenha o desconto até o final do curso, porque muitas atraem público fazendo abatimentos no primeiro ano e depois tiram", explica Amanda, que conta que a associação já conseguiu diplomar 10 mil.

A "turma dos sem terra" representa a metade da classe de Felipe e Juliana. "Tem o pessoal do ProUni [bolsa do governo federal por desempenho no Enem e por renda familiar], mas deve ser cinco no total. Os que têm bolsa da associação são mais que a metade. Só paga integral quem não estava informado", contabiliza Felipe, que ainda lembra as reuniões dominicais às 6 da manhã que teve de enfrentar depois do batente de segunda a sábado para garantir a chegada ao 3º grau.
 

O TERRITÓRIO

  • Danilo Verpa/Folha Imagem

    Bairro Recanto da Serra, em Perus, é área adquirida pela ATST

"Não queremos aventureiros aqui. É para levar a coisa a sério. Por isso, criamos dificuldades e exigimos frequência", argumenta a advogada da associação, que não pede comprovação de renda. Se a disciplina exigida é grande (três faltas nas reuniões suspendem a bolsa), a burocracia é pequena: a inscrição na associação custa R$ 1 pela carteirinha. Depois de matriculado na faculdade, o custo é de apenas R$ 7 mensais.

Apesar dos responsáveis pelo projeto "Educar para a Vida" serem 20 voluntários, ela diz que há "acompanhamento um a um" os milhares de participantes, que ganham descontos que vão de 20% a 60%.

Amanda conta que é "uma confusão danada" quando os interessados pensam que é o MST que está por trás das vagas - muita gente já bateu na porta do movimento rural. Já o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), com características mais urbanas como o ATST, mas com perfil à esquerda, já estampou em seu site em letras garrafais que não tem convênio com faculdades e que defende "uma educação pública, gratuita e de qualidade".

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos