Reformas em prédio tombado dividem Faculdade de Arquitetura da USP

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

É um prédio bem engraçado: não tem janela, mas "caixilhos"; não tem porta na entrada, nem na saída; o piso é, devido à cor, chamado de caramelo, e o responsável por sua concepção orgulhosamente afirmava que ele era um espaço em que a pessoa não consegue saber se "está no primeiro andar, no segundo ou no terceiro".

  • Fabiano Cerchiari/UOL

    Detalhe de coluna que passa por reforma no prédio da FAU-USP

Feito com tanto esmero e assinado por João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) e Carlos Cascaldi, o prédio que abriga a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, na Cidade Universitária, é o centro de uma enorme polêmica, que só cresceu no último mês, sobre uma série de reformas iniciadas no ano passado. No centro da discussão está a questão da fidelidade ao projeto original: as mudanças propostas modificam ou não aspectos essenciais do projeto, tombado pelo patrimônio histórico do Estado e da Prefeitura de São Paulo e admirado por gerações de arquitetos?

As discussões começaram pequenas, no ano passado, quando o diretor Sylvio Barros Sawaya iniciou a obra da diretoria, sem autorização dos departamentos históricos da prefeitura e do Estado, apesar de o edifício ser tombado desde 1982. Um jardim que acompanha um dos lados do prédio (a que dá para a rua do Lago, mais interna, e onde fica a entrada do edifício) também foi remodelado já no começo de 2009. Uma pequena escada, incorporada por Artigas numa das alterações que foram feitas no prédio nos anos 1960, foi retirada.

Para complicar a situação, as reformas ocorrem num lugar em que todo mundo entende do assunto - são 950 alunos de graduação, entre estudantes de arquitetura e de design, aproximadamente 600 na pós-graduação e cerca de 150 professores. Ou seja, 1.700 vozes capazes de discutir detalhadamente cada aspecto da mudança.

Hoje, há mais um "round" da discussão, com a realização de uma reunião aberta do Conselho Curador do edifício, para debater os problemas e soluções da cobertura.

Aula de arquitetura
Cultuado por algumas de suas soluções, o bloco de concreto de Artigas, sustentado por pilares em forma de trapézio, é capaz de despertar paixões, e os alunos de hoje gostam de repetir a máxima de que o espaço é um dos grandes professores da FAU.

Por suas ideias e projetos, Artigas é considerado um dos mestres da USP. Mas também é admirado por conta de suas posições política - foi cassado pela ditadura militar em 1969 devido a suas posições esquerdistas, assim como aconteceu com os professores Florestan Fernandes, da sociologia, e Fernando Henrique Cardoso, da ciência política, entre outros.

  • Fabiano Cerchiari/UOL

    Vista interna do prédio, que não tem portas na entrada

  • Fabiano Cerchiari/UOL

    Atrás dos tapumes ficarão os departamentos e as salas dos professores

  • Fabiano Cerchiari/UOL

    Estalactites no teto do prédio, e rede para proteger que passa abaixo delas

"Quando a coisa é muito importante e o arquiteto já morreu...", sintetiza, sem completar a frase, Pedro Paulo de Melo Saraiva, que foi assistente de Artigas na FAU e é autor da reforma do Mercado Municipal de São Paulo. Mais recentemente, a pedido da direção da FAU, Saraiva fez uma nova proposta de alteração na cobertura do edifício, com o objetivo de resolver um problema crônico de infiltração.

As reformas na área que abriga a burocracia da faculdade, no ano passado, mexeram com as salas da Congregação (principal órgão colegiado da faculdade, uma espécie de "parlamento" em que são representados professores - principalmente -, funcionários e alunos), do diretor, do vice e de outras áreas administrativas, que "cresceram" incorporando o espaço de um corredor.

A alteração foi projetada pelo próprio diretor da faculdade, Sawaya, o que provocou críticas na comunidade acadêmica. Ele rebate afirmando que fez esse desenho, "simples", não por vaidade, mas por necessidade - era preciso mexer no espaço, argumenta, e ele assumiu a tarefa.

Artigas dizia que aquela seria uma escola aberta, e por isso essa escola não teria porta de entrada ou de saída. Diferentemente do que ocorreu na escola carioca - como na obra de Niemeyer, que aliás era companheiro de Partido Comunista de Artigas -, não se dá tanto valor às coisas plásticas. Ele dá valor ao espaço, a uma arquitetura que incentiva as ideias de solidariedade

Atualmente, está sendo refeito o piso de uma das áreas do prédio e realizada a limpeza da laje. A direção planeja também iniciar rapidamente a manutenção de juntas de dilatação no alto das vigas de concreto. São obras que não exigem, segundo a diretoria, autorização dos órgãos de patrimônio.

Os projetos de reforma foram provocando discussões crescentes e, em maio, a faculdade viveu uma série de reuniões abertas e discussões que culminaram, no dia 19 de maio, na retirada dos tapumes do local em que seriam feitas as novas salas dos departamentos e dos professores. A diretoria abriu sindicância e inquérito policial contra os estudantes que participaram do ato, o que foi atacado publicamente pelo Grêmio da FAU, organização que representa os estudantes da faculdade: "Esta será a resposta da universidade e da Justiça: impunidade ao diretor e punição aos estudantes?", perguntou em carta à Folha de S.Paulo, no dia 22/5, a aluna Alice Viggiani. Os tapumes já estão de volta ao local.

Também em maio, circulou um abaixo-assinado com mais de mil assinaturas questionando o andamento das reformas e sua realização sem a elaboração de um plano diretor para os prédios da FAU, especialmente do celebrado edifício que se destaca entre as sedes de faculdades da Cidade Universitária da USP, no Butantã.

Para João Masao Kamita, autor de "Vilanova Artigas" (Cosac & Naify, 2000), o prédio sintetiza uma arquitetura "que incentiva as ideias de solidariedade". O abaixo-assinado reforçava o aspecto político da obra, que teria se convertido em testemunho "da ousadia histórica que lhe deu origem e foi abruptamente interrompida pela ditadura militar" (1964-1985). Sawaya, num artigo na Folha pedindo mais celeridade na aprovação das reformas pelos órgãos do patrimônio, afirma, por outro lado, que há uma diferença entre sagrado e fetiche: "Tombar um edifício por seu valor histórico e deixá-lo impróprio ao uso é resultado de crendice temerosa e idolatria deslocada", escreve.

Riscos
Se sobre o como e quando fazer gera polêmica, há certo consenso na necessidade de reformar o prédio.

O prédio está cheio de estalactites de calcário que denunciam as infiltrações, nos dias de chuva em algumas áreas não é possível fugir das goteiras, e o aço de parte da estrutura da cobertura oxidou e estourou o concreto. Dos banheiros, pode-se dizer que eles não funcionam com a regularidade normalmente exigida do serviço e que não cheiram exatamente a pinho.

Eu acho que tratorei. Sabia que, se eu não fizesse isso, eu não faria nada. Então eu resolvi fazer esse processo. Ter esses elementos [projeto de reforma, verba e um grupo capaz de realizá-lo tecnicamente] e depois discutir. Acho que essa minha atitude foi entendida como uma postura autoritária. Se é autoritária ou não, o importante é que a faculdade seja cuidada

Em parte do prédio, redes protegem contra a queda de pequenos pedaços de concreto que podem se desprender do teto. Em outros pontos críticos, não há essa proteção. A longo prazo, segundo a direção, o risco é que as infiltrações atinjam o aço da estrutura principal, o que tornaria o custo de uma eventual reforma muito mais alto.

O estado atual de conservação do prédio, segundo o abaixo-assinado sobre a reforma que circulou entre os arquitetos da cidade, "é lamentável, resultado de um processo de manutenção inadequada, baseada em pequenas reformas fragmentadas, quase sempre projetadas de improviso e muitas vezes mal executadas, com exceção da reforma da sua biblioteca".

As reformas previstas pela diretoria envolvem, no total, um orçamento de R$ 5,6 milhões, e vão da troca de louças dos banheiros a uma reformulação das salas dos professores, passando pela manutenção do concreto armado da cobertura e dos pisos. Num dos pavimentos, há dois banheiros, um masculino de um lado do edifício, um feminino do outro. Pelo projeto de reforma, esses banheiros são divididos - passam a se um masculino e um feminino de cada lado do pavimento.

Nesta sexta-feira, às 14h, o Conselho Curador do prédio, um organismo interno que ganhou força durante as acaloradas discussões deste ano, realiza uma reunião aberta para discutir propostas para a reforma da cobertura.

A reunião promete: primeiro, porque os alunos do Grêmio da FAU não estão convencidos de que essa é a hora de discutir a cobertura. Antes, eles querem que seja elaborado um plano diretor, como determinado numa das reuniões - também abertas, ocorridas nos dias 6 e 12/5 - da Congregação. Além disso, acham que a composição do próprio Conselho Curador está, por decisão da Congregação, em discussão, e esse problema deveria preceder qualquer discussão sobre as reformas.

A posição dos alunos, que pediam a paralisação completa da reforma, foi rejeitada pela Congregação. "A gente queria que parasse tudo e que os projetos fossem repensados dentro de um plano diretor de restauro, mas acabou vencendo a proposição de manter a realização das reformas já aprovadas, que consideradas de manutenção", explica Luciana Ferrara, representante discente dos alunos de pós-graduação.

Milton Braga, professor da FAU que participou diretamente da coleta de assinaturas do abaixo-assinado, critica a realização de reformas sem que seja definido o plano diretor, ou seja, de uma visão de longo prazo que oriente projetos específicos.

Braga destaca que sua posição é minoritária, mas acha, por exemplo, que a colocação de pequenas salas individuais dos professores próximas aos "caixilhos" leva a uma espécie de "privatização" de um espaço imaginado como coletivo. A solução prática proposta pela diretoria, acredita ele, contradiz a poética do prédio de Artigas. Braga também avalia que a diretoria não conduziu de modo adequado os projetos em andamento - por outro lado, os órgãos da faculdade responsáveis pela gestão do prédio, na sua opinião, não vinham funcionando a contento.

O professor também acha que é preciso buscar opiniões de arquitetos que não estejam tão diretamente envolvidos nas discussões da reforma - ou seja, arquitetos de fora da FAU, que poderiam avaliar o projeto de forma mais isenta. "Eu também estou no meio dessa confusão. A última opinião confiável é a nossa", afirma.

Para o presidente do Conselho Curador do prédio e vice-diretor da faculdade, Marcelo Romero, o plano diretor deve andar em paralelo às reformas já aprovadas pelos colegiados da faculdade. Segundo ele, a USP tem pressionado a FAU a iniciar as obras da cobertura, orçadas em R$ 660 mil, até 15 de julho. "A responsabilidade é nossa, a FAU não pode esperar."

"A reunião desta sexta-feira é aberta. Ela foi chamada para que os professores Paulo Helene e Aloísio Fontana Margarido, da Poli [Escola Politécnica, de engenharia], exponham o que está acontecendo na cobertura. Não é para decidir nada", diz Marcelo Romero, vice-diretor da unidade e presidente do conselho.

Sobre o projeto das salas dos professores e dos departamentos, Romero diz que ele tem de ser levado adiante porque já foi aprovado por todas as instâncias da faculdade. "Os alunos voltam para casa e tem lugar para trabalhar. Os professores também precisam ter onde trabalhar [na faculdade].

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