Pesquisa revela que a maioria dos idosos se sente desrespeitada no Brasil

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Pesquisa inédita divulgada nesta quinta-feira (25) durante o 4º Fórum da Longevidade traça um perfil detalhado da situação do idoso no Brasil e revela que os maiores de 55 anos se sentem desrespeitados, esquecidos pelos parentes e, na maioria das vezes, percebem que precisam de cuidados especiais.
  • Lalo de Almeida/Arquivo Folha Imagem

    Idosos aguardam atendimento em agência do INSS. Pesquisa revela que 39% dos entrevistados já foi desrespeitados por causa da idade, mesmo em situações em que a terceira idade tem preferência



O estudo, organizado pelo cientista político José Carlos Libânio, ouviu cerca de 2.000 pessoas em sete cidades e aponta que 39% dos entrevistados já foram desrespeitados por causa da idade, mesmo em situações em que a terceira idade tem preferência, como transporte público gratuito, filas, estacionamentos e assentos preferenciais e INSS. Para 67% dos idosos, a terceira idade não é respeitada no país.

O desrespeito é maior entre as mulheres (44%) com mais de 70 anos (49%), da classe C (42%) e que moram em regiões de alta longevidade (51%).

Para 85% dos entrevistados, os idosos precisam de atenção especial e, segundo 80% deles, a sociedade ainda não está preparada para lidar com a velhice. Muitas vezes, dizem eles, os benefícios concedidos socialmente se tornam motivo de desrespeito e eles se veem diante do dilema: aceitar ou não as preferências oferecidas? Por conta disso, alguns idosos evitam a fila preferencial e interpretam como desprestígio quando uma cadeira é oferecida, ressalta o estudo.

De acordo com os entrevistados, nos ônibus é onde acontece grande parte das situações de desrespeito. Os mais velhos relatam que os motoristas não gostam de parar, que os assentos preferenciais são poucos e ocupados por jovens e que no Rio de Janeiro, por exemplo, eles são chamados de "0800". Nos hospitais, são tratados com descaso e em bancos as pessoas "olham torto" para quem está na fila preferencial.

Sobre a família, quase 60% dos ouvidos na pesquisa dizem que os parentes esquecem-se dos idosos. Ainda assim, 80% deles é responsável pelo sustento da casa onde vivem. A situação é especialmente comum no Nordeste e na classe C. Apenas 19% afirmam ser sustentados por parentes.

Saúde e longevidade
O estudo mostra que, para os idosos, longevidade significa viver até os 90 anos e retardar o envelhecimento. Mais do que uma questão cronológica, a longevidade está relacionada à qualidade de vida, ou seja, ter saúde, estar ativo e ser independente.

As principais preocupações do idoso são, em primeiro lugar, invalidez (45%), depois doenças (41%) e dependência financeira (31%).

Trabalho e aposentadoria
Dificuldades para manter renda estável (50%) e falta de preocupação (28%) são os principais motivos dos que não têm aposentadoria ou nunca contribuíram.

Quase metade dos idosos (48%) não planejou a aposentadoria e quem o fez, contribuiu para o INSS (81%). Só 19% dos entrevistados que planejaram a aposentadoria investiram em previdência aberta, 6% poupou dinheiro e 4% preferiu aplicar em imóveis.

Pontos positivos e negativos
Para 73% dos entrevistados, ser idoso é sinônimo de tranqüilidade, porque é o momento de fazer as coisas que sempre se quis (87%) ou não ter nada para fazer (13%). Para 87%, a terceira idade é um privilégio e 75% acha bom não ter horário para fazer as coisas.

Questionados sobre os pontos positivos, eles citaram: prioridade e benefícios, tranqüilidade, experiência de vida, liberdade e ser respeitado.

Dos ouvidos, 30% acha que envelhecer é motivo de preocupação, mas apenas para 13% a velhice é um transtorno, sendo que a maior preocupação é entre as mulheres.

A maioria discorda das frases "A velhice é um tipo de doença" (78%) e "Os idosos dependem dos outros para tudo" (61%), embora os entrevistados citem limitações físicas, doença, rejeição, vulnerabilidade, desprezo, desrespeito, discriminação e dependência e solidão como pontos negativos de se envelhecer.

Em São Paulo e Brasília, a falta de oportunidade de trabalho é enfatizada como ponto negativo. E em Porto Alegre, um motivo de preocupação são os remédios caros.

Autodefinição
Os entrevistados se definem de forma muito positiva e otimista. As mulheres usam palavras relacionadas à emoção, à postura diante da vida e ao relacionamento familiar, como alegre, otimista e guerreira, vaidosa e inteligente ou família, solidária e amiga.

Os homens preferem se definir por meio de hobbies, como futebol, religião e música. Usam palavras mais racionais, como honesto, trabalhador e profissional.

Família
Ser idoso é ser independente e ter que sustentar parentes, especialmente no Nordeste e na classe C, revela o estudo.

A maioria dos entrevistados ainda mora com o cônjuge (63%) e em famílias com mais de 3 pessoas (59%). Em São Paulo, muitos idosos ainda se preocupam com formação dos filhos. E, em geral, os netos são considerados seus segundos filhos.

Amizades
Os homens acreditam que com a aposentadoria as amizades se tornam frágeis e entre colegas de trabalho as relações decaem gradualmente. Eles tendem a ter redes de sociabilidade mais restritas que as mulheres.

Elas são grandes articuladoras das redes de sociabilidade e se esforçam para manter as amizades antigas. Com a aposentadoria, há a necessidade de reconstituir a sua rede de amigos, especialmente na igreja e em trabalhos voluntários ou em um novo emprego ou atividade.

Cotidiano
Os mais velhos exercem diversas atividades cotidianas e de lazer e gostam muito de viajar. Costumam acordar cedo, perdem o hábito de dormir muito e preocupam-se com a alimentação.

A falta de dinheiro (37%), de tempo (29%) e de saúde (20%) são os principais motivos que impedem os idosos de fazerem mais o que gostam, especialmente viajar.

No entanto, 80% dos entrevistados se declaram realizados.

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