Em plena atividade, barbeiro Pedro Coutinho completa 95 anos neste sábado

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Hoje, 27 de junho, ele faz 95 anos. E planeja passar o dia trabalhando.

Pedro Coutinho é um dos mais velhos trabalhadores em atividade em São Paulo. É responsável, nas suas contas, por seis cortes de cabelo por dia, de segunda a sábado. Aliás, aos sábados, dia de salão cheio, ele corta ainda mais. E seus clientes saem com o visual renovado do Salão Ideal, na avenida Angélica, pertinho da praça Buenos Aires, em Higienópolis (região central da cidade).



"Eu prefiro cortar cabelo. Eu acho que cabelo é mais gostoso para trabalhar. Eu trabalhei muito com aquelas navalhas antigas", conta ele. Navalhas daquelas que não se usam mais, que era preciso afiar. "Ah, eu tenho uma máquina daquelas manuais, o senhor quer ver?", pergunta, lembrando-se da ferramenta usada quando as máquinas usadas para deixar bem curtos os cabelos, estilo militar, ainda não usavam eletricidade.

Coutinho é detalhista, não se esquece de nada. Pede para o cliente lavar o cabelo antes de começar. Depois que o cliente se senta, o barbeiro se abaixa, pega a capa que protege contra os pequenos fios de cabelo, cobre o cidadão e começa. Na frente da cadeira, sobre uma toalha, estão as tesouras e os pentes a que Coutinho recorrerá para fazer o trabalho, que faz com agilidade, especialmente quando se considera sua idade. "Eu gosto de ter várias tesouras. Mania minha, porque não precisava tanta tesoura, né?"

O dia do seu Pedro, como é chamado no salão, começa cedo. "Eu acordo às 4h. Lá pelas 6h, venho para cá. Pego o ônibus no metrô Marechal e desço aqui na praça Buenos Aires. Para voltar eu pego o Lapa aqui no ponto, ou então o Casa Verde, que me deixa bem pertinho da minha casa."

"Ele chega aqui pelo menos umas quatro horas antes de mim", diz o barbeiro Carlos Roberto Oliveira, 65 anos, que herdou do pai a sociedade com Pedro. "Eu estando trabalhando, eu esqueço da vida, eu esqueço de tudo", diz Pedro.

À noite, ele volta para casa com sua mulher desde 1947, Dúria Pardo Coutinho, de 81 anos, que vai buscá-lo todos os dias, porque Pedro dorme cedo, por volta de 21h. É também ela quem faz a comida do marido, que leva na hora do almoço, todos os dias, para o barbeiro comer no próprio salão. "Porque ele não come em bar", explica ela. No cardápio, arroz, feijão, legumes como jiló. Aos domingos, macarrão.

Domingo, aliás, é um problema. Porque seu Pedro não trabalha. "Domingo eu durmo um pouco mais, assisto um pouco de televisão, passo o dia em casa. Mas eu não gosto de domingo, não, viu?"

Como tem problemas de audição, um problema hereditário, segundo Dúria, Pedro não fala muito. Pelo menos quando o aparelho que usa não está funcionando, um problema que já estava resolvendo.

Pais de três filhos, um do primeiro casamento (ficou viúvo) e dois com Dúria, Pedro atende no mesmo endereço há 54 anos, praticamente desde que chegou de São José do Rio Preto. Mas aprendeu a profissão no interior, numa cidade chamada Potirendaba, quando ainda morava no sítio e "puxava enxada" na lavoura de café.

"Lá não tinha escola. A gente ficava vendo o barbeiro cortar e aprendia olhando." Depois de 20 anos cortando o cabelo no interior, a convite de um compadre, aportou em São Paulo.

O salão foi mudando de dono até que Pedro e outros colegas assumiram a direção do negócio.

Tempos difíceis? Só quando os cabelos compridos ficam na moda. Na época do cabelão, conta, os garotos iam cortar cabelo, chegavam na escola, o professor mandava voltar: "Vai cortar o cabelo, você não cortou nada, tem que cortar mais", diz, dando voz ao professor-tipo que dava aulas a seus clientes. "Foi uma época difícil, viu? Caiu o movimento aqui, ninguém queria cortar o cabelo."

E por que seu Pedro continua na ativa, tantos anos depois de poder se aposentar? "Porque eu gosto de trabalhar e eu acho que o trabalho prolonga a vida da gente, viu? Não dá para ficar em casa, não. Aqui, as horas passam, a gente conversa com um, conversa com outro."

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