Sem médicos do SUS há um ano, Alagoas tem "fila de espera" para cirurgias garantidas pela Justiça

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

A greve dos médicos do SUS (Sistema Único de Saúde) em Alagoas completou um ano nesta semana sem perspectiva de regularização do atendimento para cerca de 2,8 milhões de alagoanos.

Os serviços de saúde estão paralisados no Estado desde julho de 2008. Nesse período houve apenas um momento de suspensão da greve - de 40 dias entre dezembro e janeiro. Os doze meses de protestos renderam um cancelamento de aproximadamente 50 mil cirurgias, segundo estimativa do Sinmed (Sindicato dos Médicos de Alagoas).
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    Paciente com cisto na boca mostra primeiros exames. Ele tem liminar para passar por cirurgia, que aguarda há quase um ano

  • Divulgação

    Maria Benedita iria retirar um tumor da mandíbula em junho, mas a prótese veio errada e a cirurgia teve que ser adiada



Como 92% da população de Alagoas depende do SUS, os pacientes de doenças graves deixaram de lotar os consultórios para abarrotar o poder judiciário com pedidos de liminares. Segundo dados de MPF, MP do Estado e Defensoria Pública, além das pessoas que buscaram diretamente a Justiça Federal, mais de mil pessoas já ingressaram com pedido de liminar, o que gerou uma nova fila de espera para atendimento.

Somente na Defensoria Pública, os advogados deram entrada a um número recorde de 111 ações na área de saúde no mês de junho. "Já superamos o número de ações da área da família. Isso nunca tinha acontecido", conta o defensor público Ricardo Melro.

A procura pela Justiça se reflete nos gastos públicos. O Estado tem sido obrigado a pagar as cirurgias de pacientes do interior, e afirma que a demanda judicial deixa uma conta cara para o poder público. Segundo a Sesau (Secretaria de Estado da Saúde), Alagoas gastou mais de R$ 10 milhões em cirurgias desde o início da paralisação dos médicos. "Em 2008, foram gastos com ações mais de R$ 5 milhões. Já em 2009, até junho, já foram gastos mais cerca de R$ 7 milhões", informou a assessoria de comunicação da Sesau, alegando que os médicos chegam a cobrar valores até "300% maiores" que os praticados no mercado. Embora alegue prejuízo com as cirurgias, o Município de Maceió não respondeu aos questionamentos da reportagem do UOL Notícias.

Casos se acumulam
Com o aumento no número de casos aceitos pela Justiça, a liminar na mão não se tornou garantia de cirurgia imediata. Muitos pacientes aguardam cumprimento há quase um ano. A cirurgiã-dentista Alynne de Assis fez um trabalho para avaliar a demora dos pacientes para conseguir uma cirurgia no Estado. "Um paciente com câncer, por exemplo, consegue iniciar uma quimioterapia em até sete dias após o diagnóstico. Já uma cirurgia demora mais de um ano", conta.

A dentista acompanha oito pacientes com problemas graves de saúde. Cinco deles já conseguiram liminar na Justiça e ainda esperam a marcação do procedimento. Outros dois já foram operados. "Têm pessoas que perderam a esperança e preferem ficar na fila comum", disse.
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    A cirurgiã-dentista Alynne de Assis acompanha cinco pacientes com problemas graves que conseguiram liminar na Justiça mas ainda esperam para marcar cirurgias pelo SUS



Um dos pacientes que espera cirurgia é Herman Nicácio, 22. No final do ano passado, ele garantiu da Justiça o direito de ser operado de um ameloblastoma (tumor benigno odontogênico), mas reclama da burocracia. "Esperei um bom tempo para me chamarem e quando consegui, tinha perdido os documentos e não pude preencher a ficha para marcar a cirurgia. Já fiz os mesmos exames duas vezes por conta da demora", contou.

O caso de Maria Benedita é ainda mais grave. Com um tumor na mandíbula, há um ano ela entrou com uma ação e também conseguiu uma liminar. A cirurgia deveria acontecer em junho, mas a equipe médica descobriu que a prótese que substituiria a parte do osso retirada veio errada. "Ao invés do lado direito, mandaram a do esquerdo. Temos que aguardar chegar da nova peça, que deveria chegar em oito dias, mas já estamos com vinte e nada", explica Alynne. A demora na efetivação já custou a ela os movimentos da boca e a possibilidade mastigar alimentos.

Já a manicure Alessandra Marta da Silva, 38, teve mais sorte. Ela descobriu que tinha câncer nos ossos em maio do ano passado e conseguiu uma liminar em dezembro. Mesmo assim, ela só foi operada em março. "Hoje eu espero a chegada dos exames para saber se preciso continuar o tratamento", afirma a paciente.

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