Veja a cronologia sobre as ações em torno da Guerrilha do Araguaia

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Há quase 35 anos os familiares dos mortos e desaparecidos na Guerrilha do Araguaia lutam para ter acesso às informações sobre as ações dos militares durante a ditadura e para descobrir onde estão enterrados os restos mortais dos guerrilheiros. Veja abaixo os principais momentos dessa história:

1966 - Integrantes do PCdoB começaram a se instalar em três áreas do Bico do Papagaio, região onde os Estados de Goiás, Pará e Maranhão fazem fronteira. O movimento, organizado às margens do rio Araguaia, pretendia combater o governo militar e implantar o comunismo no país, a partir de uma ação rural aos moldes das revoluções na China (1949) e em Cuba (1959).
  • Reprodução

    José Genoino, em 1972, preso pelo Exército no Araguaia

  • Reprodução

    Os corpos de João Carlos Haas, o dr. Juca, e de outro guerrilheiro são observados pelo sargento José Antônio de Souza Perez (portador dos negativos das fotos) em 1972. Eles foram encontrados em uma área próxima às margens do rio Araguaia

  • Alan Marques/Folha Imagem - 05.mar.2004

    O ex-guerrilheiro Zezinho do Araguaia segura cartucho de fuzil achado em área de busca aos corpos desaparecidos



Entre 1972 e 1974 - Durante três campanhas, as Forças Armadas tentam eliminar a guerrilha. Apenas na última os militares conseguiram vencer. A ordem do general Emílio Médici, então presidente do Brasil, era de que as operações militares fossem executadas em segredo. A censura impediu que a existência da guerrilha fosse divulgada.

Outubro de 1980 - Familiares dos guerrilheiros vão à região do Araguaia em busca de informações a respeito de cemitérios clandestinos. Foi a primeira caravana realizada por parentes.

1982 - Familiares iniciam uma ação judicial para exigir da União esclarecimentos sobre as circunstâncias das mortes dos guerrilheiros e a localização dos corpos.

Abril de 1991 - Familiares organizam escavações no cemitério de Xambioá, onde encontram duas ossadas.

Janeiro de 1993 - Comissão dos familiares volta à região da guerrilha, na Fazenda Oito Barracas, procurando pelos restos mortais de Helenira Resende, sem obter resultados.

Junho de 1995 - Os familiares, por meio da organização Human Rights Watch e do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), enviam petição à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

18 de dezembro de 1995 - É criada no Ministério da Justiça a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, de acordo com a lei 9.140. Fica estabelecida a responsabilidade do Estado nas mortes e nos desaparecimentos de pessoas durante a ditadura.

28 de abril de 1996 - Reportagem do jornal "O Globo" traz fotos inéditas de guerrilheiros mortos e a localização de sete cemitérios clandestinos. Laura Petit, irmã de Maria Lúcia Petit da Silva, identifica a guerrilheira morta em uma das fotos, o que leva à reabertura dos processos de identificação da ossada exumada em 1991.

07 de maio de 1996 - A Comissão Especial do Ministério da Justiça faz a primeira missão de buscas de restos mortais no Araguaia, baseando-se nas informações de "O Globo" e de relatório da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. A investigação contou com a participação da Equipe Argentina de Antropologia Forense e de Criméia de Almeida. Neste mesmo ano, outra expedição foi feita até a região.

10 de junho de 2003 - Sentença da juíza federal Solange Salgado, da 1ª Vara da Justiça Federal em Brasília, determina a procura dos corpos dos desaparecidos no Araguaia e a entrega dos restos mortais às famílias.

05 de março de 2004 - Começam novas buscas por corpos. Dois geólogos da Universidade Federal de Minas Gerais, três antropólogas argentinas, um geneticista, integrantes da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e familiares das vítimas vão a Xambioá (TO) depois que a revista "Época" publicou declarações de ex-soldados das Forças Armadas sobre possíveis covas. Segundo a Comissão, faltaram pontos de referências que determinassem onde ficava a sede da base do Exército, o que levaria ao cemitério. O grupo não localizou nenhuma ossada.

07 de março de 2004 - O coronel da reserva da Aeronáutica Pedro Corrêa Cabral, que combateu os guerrilheiros e escreveu o livro "Xambioá - Guerrilha do Araguaia" (1993), diz que os corpos de cerca de 40 guerrilheiros foram queimados pelas Forças Armadas para eliminar as evidências do conflito. Segundo ele, os corpos foram localizados e desenterrados antes de serem queimados na serra das Andorinhas.

20 de setembro de 2007 - Familiares ganham o direito de saber o que aconteceu no Araguaia. Decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) obriga a União a quebrar o sigilo das informações militares que tratam das operações de combate à guerrilha e a intimar todos os militares que participaram do episódio a depor. No prazo de 120 dias, também deveria ser informado o local onde estão sepultados os restos mortais dos guerrilheiros, para traslado e sepultamento.

05 de dezembro de 2008 - Chico Dólar, codinome do tenente da reserva José Vargas Jiménez, admite em depoimento uso de tortura no Araguaia e descreve o uso de formigueiros contra os guerrilheiros.

08 de abril de 2009 - A Comissão Interamericana de Direitos Humanos presta queixa contra o Brasil pelo desaparecimento de 70 pessoas durante a campanha militar contra a Guerrilha do Araguaia. Em outubro de 2008, a Comissão pediu ao governo brasileiro que tomasse providências para identificar os responsáveis pelos desaparecimentos e para impedir que a Lei de Anistia prejudicasse o andamento dos processos na Justiça, além de recomendar a indenização dos familiares das vítimas, a admissão do papel do Estado nos desaparecimentos e aulas de direitos humanos aos militares.

30 de abril de 2009 - O Ministério da Defesa organiza a comissão responsável pelas buscas nos possíveis locais de sepultamentos, clandestinos e oficiais, no Araguaia e informa que a indicação do Comando do Exército para coordenar os trabalhos foi feita para superar as dificuldades logísticas enfrentadas em expedições anteriores. A iniciativa cumpre determinação da Justiça.

Maio de 2009 - O governo lança o portal "Memórias Reveladas - Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985)", cujo objetivo é compilar documentos produzidos durante a ditadura. Nove livros com atas de reuniões do extinto Conselho de Segurança Nacional, de 1935 a 1988, são transferidos para o Arquivo Nacional. Das três mil páginas, 416 trechos foram tarjados.

11 de junho de 2009 - O ministro da Defesa, Nelson Jobim, classifica como "revanchismo" a ideia de punir militares que tenham cometido atos de tortura durante o período de ditadura. Uma ação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Supremo Tribunal Federal (STF) pede a derrubada do perdão aos militares que cometeram atos de tortura.

18 de junho de 2009 - A Comissão de Anistia anuncia que indenizará 44 camponeses do Araguaia que sofreram com a repressão da ditadura militar. As reparações financeiras variam de R$ 80 mil a R$ 143 mil à vista e mais dois salários mínimos por mês até o fim da vida. O ministro da Justiça, Tarso Genro, declara que é um pedido de desculpas do Estado.

22 de junho de 2009 - Em entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo", Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o major Curió, oficial do Exército no regime militar, revela que dos 67 militantes mortos na Guerrilha do Araguaia, 41 foram executados já rendidos, quando não ofereciam risco às tropas. A versão oficial do Exército é de que todos os guerrilheiros foram mortos em confrontos. Também aparece nos documentos dele uma nova lista de 16 mortos. Segundo a reportagem, o número de combatentes teria chegado a 98, que contavam com o apoio de outros 158 moradores da região.

23 de junho de 2009 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anuncia que vai reunir os ministros Nelson Jobim (Defesa) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) para discutir as buscas. Mesmo diante da divulgação do dossiê Curió, Lula diz que todos os arquivos que poderiam ser abertos sobre a ditadura foram liberados.

30 de junho de 2009 - O soldado Raimundo Pereira de Melo diz ter indicado ao então secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, o local onde estariam enterrados dois guerrilheiros. Segundo Melo, as buscas teriam sido feitas em outros pontos. A insinuação de que o governo não tem interesse em achar os corpos foi rebatida por Miranda e pela integrante da Comissão de Familiares de Presos Políticos, Criméia Almeida, que afirmam que toda a área apontada por ele foi vasculhada.

02 de julho de 2009 - O ministro da Justiça, Tarso Genro, anuncia que a Comissão de Anistia vai chamar o major Curió para depor sobre a Guerrilha do Araguaia.

04 de julho de 2009 - A Advocacia-Geral da União (AGU) entra com pedido na Justiça Federal para que Curió seja intimado a entregar ao poder público documentos sobre a guerrilha que teria em seu poder.

07 de julho de 2009 - É identificada a ossada do guerrilheiro Bergson Gurjão Farias, executado no Araguaia em 1972. Os restos mortais haviam sido encontrados no cemitério Xambioá (TO) em 1996. A Secretaria Especial de Direitos Humanos anuncia que vai pedir a análise de outras 10 ossadas que ainda não foram identificadas a partir de exames de DNA mais aprimorados. A mesma ossada já tinha passado por outros cinco testes sem nenhum resultado conclusivo.

08 de julho de 2009 - Começam as buscas em Marabá, no Pará. A comissão passará novamente pelo cemitério de Xambioá (TO) e por antigos acampamentos do Exército e da guerrilha nas regiões de São Domingos e São Geraldo do Araguaia, também no Pará, e Xambioá, no Tocatins.
  • Arte UOL

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