Para especialistas, preconceito incentiva e facilita o tráfico de pessoas

Guilherme Balza e Thiago Scarelli
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Apesar do perfil variar de tempos em tempos, as vítimas do tráfico de seres humanos são, em geral, mulheres entre 13 e 30 anos, afrodescendentes e vulneráveis socialmente, segundo os últimos estudos da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e do Unodc (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, em português).

"Temos uma sociedade machista, adultocêntrica e preconceituosa. O tráfico de pessoas é objeto de preconceito porque atinge mulheres, negros, pobres, crianças, e a população segregada socialmente", afirma Thaís Dumet, coordenadora do projeto de Combate ao Tráfico de Pessoas da OIT.

"O tráfico de pessoas é um problema econômico, mas não só. Tem todo um problema cultural envolvido também", acrescenta Priscila Siqueira, articuladora da ONG Serviço à Mulher Marginalizada. "É um crime que causa mal-estar. As pessoas pensam que é mais fácil trabalhar no atendimento a crianças carentes do que com uma menina de 12 anos que já teve a vida sexual iniciada", acrescenta.

Para Adriana Maia, assistente do projeto de Combate ao Tráfico de Pessoas da Unodc, o fato de grande parte das vítimas do tráfico serem prostitutas é utilizado como justificativa para o preconceito. "Com freqüência ouvimos as pessoas falando sobre as vítimas: 'Ah ela sabia que iria se prostituir'. Sim, mas ela sabia em que condições? Ela sabia que teria a vida ameaçada, que acumularia dívidas, seria explorada, que teria os direitos violados?".

Falso salão de massagens

Azade, 22, deixou a zona rural do Azerbaijão para trabalhar em um salão de massagens em Baku, capital do país. O local, na verdade, era um bordel. Logo após Azade ter chegado ao local, um funcionário do prostíbulo a ameaçou, dizendo que bateria em seu pai, caso ela não aceitasse se prostituir. A moça foi forçada durante vários meses a trabalhar como prostituta até conseguir fugir com a ajuda de uma organização não-governamental que combate o tráfico humano.

"Trafficking in Persons", 2009

Segundo Romeu Tuma Júnior, secretário nacional de Justiça, o tráfico de seres humanos possui diferenças e semelhanças com o tráfico de drogas e de armas. "Ambos possuem quadrilhas organizadas, que obtêm lucros altos e que lavam dinheiro. Mas, diferente do tráfico de drogas, no de pessoas o consumidor não é vítima. Ele é cúmplice." Para Dumet, "ainda se dá muito mais importância ao tráfico de objetos como drogas, armas e combustíveis do que de pessoas".

Vítima e criminoso
Uma das proteções que os traficantes recebem vem da própria vítima, que não se enxerga como vítima. "Elas se veem como culpadas, acham que deram azar, que foram incompetentes, ou porque estão em situação irregular tem medo de procurar o consulado, a polícia local. A própria pessoa tem dificuldade de se perceber", afirma Maia.

Fábio Ramazini Bechara, promotor de Justiça do Estado de São Paulo, acrescenta que essa condição dificulta o acesso a indícios, que precisam ser buscadas por meios alternativos. "O Estado precisa se aparelhar corretamente com métodos de investigação não convencionais, como escutas ambientais, fiscalizações telefônica, entre outros, que permitam a identificação de criminosos e considere o tráfico de pessoas como uma atividade econômica", diz.

A farsa do namorado

A chinesa Xiao Ping, 20, passou a maior parte de sua vida em uma pequena aldeia na China. Ela se encantou quando seu novo namorado ofereceu para levá-la no fim de semana para uma viagem na sua cidade natal. O destino da viagem, no entanto, era um deserto, onde Xiao Ping foi "vendida" a um agricultor para ser sua esposa. Durante 32 meses o agricultor a prendeu, estuprou e a agrediu diariamente. Xiao Ping engravidou. Ela conseguiu se libertar com o dinheiro de outro homem, com quem se casou. Mas, segundo Xiao, seu novo marido a trata como uma mercadoria e seu casamento não deve durar.

"Trafficking in Persons", 2009

"É importante que as pessoas conheçam essa situação. O tráfico de pessoas é um tema que precisa ser colocado em pauta na sociedade", diz Dumet. "O combate ao tráfico é papel da polícia. No atendimento das vítimas, a sociedade civil pode até ajudar, mas a responsabilidade é do Estado. Só ele tem recursos para isso", acrescenta Siqueira.

Nos últimos anos, foram criados pelo Ministério da Justiça postos avançados de atendimento às vítimas dos tráficos, localizados em regiões de fronteira, aeroportos, rodoviárias, entre outros locais estratégicos. Antes, o atendimento às vítimas era feito somente em entidades da sociedade civil organizada.

Para Priscila Siqueira, apesar dos avanços, não há no Brasil um serviço adequado para atender as vítimas desse crime. "Não adianta a vítima voltar para casa. Ainda não existe no Brasil um atendimento eficiente à vítima. Normalmente as ações de reintegração são individualizadas", diz a articuladora do Serviço à Mulher Marginalizada.

O que fazer para não se tornar um alvo do tráfico de pessoas?

* Desconfiar de promessas de trabalho no exterior, mesmo se elas vierem de amigos e parentes
* Só aceitar propostas de entidades reconhecidas
* Buscar o máximo de informações sobre as condições futuras de trabalho
* Jamais entregar documentos particulares a outra pessoa
* Procurar descobrir telefone e endereço dos consulados do Brasil no país de destino
* Recorrer aos consulados em momentos de insegurança
* Manter as pessoas mais confiáveis informadas sobre os seus destinos e manter contato regular com elas
* Não criar dívidas com futuros empregadores para financiar a viagem
* Desconfiar de propostas nos setores de entretenimento, moda, agências de emprego, agências de casamento e turismo
* Não hesitar em denunciar uma situação incômoda

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos