Minas Gerais concentra mais da metade das ONGs que querem preservar o São Francisco

Thais Leitão
Da Agência Brasil
No Rio de Janeiro

As iniciativas de organizações da sociedade civil para enfrentar desafios ambientais têm se tornado cada vez mais relevantes nos municípios da Bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Ao todo, existem aproximadamente 50 mil instituições desse tipo, localizadas principalmente em Minas Gerais - Estado que concentra 58% das organizações da região.

A constatação faz parte do estudo Vetores Estruturantes da Dimensão Socioeconômica da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, divulgado hoje (22) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento, que traça uma radiografia da região enfocando aspectos como a configuração demográfica, os usos dos recursos hídricos, além da governança socioambiental, tem o objetivo subsidiar políticas de revitalização da área, desenvolvidas pelo Ministério do Meio Ambiente.

Bacia do São Francisco abriga fortes desigualdades socioespaciais, diz estudo

Entre as principais atividades econômicas estão, por um lado, o cultivo da soja e do algodão, no cerrado baiano, e a fruticultura em áreas irrigadas do semiárido, todas voltadas especialmente para exportação



De acordo com a pesquisadora do IBGE Ivete Oliveira Rodrigues, a crescente importância das organizações sociais que atuam na Bacia do São Francisco pode ser explicada pelo impacto que elas geram no dia a dia da população.

"Com a participação dessas organizações, você muda um pouco o foco do combate à seca para o da convivência com o semiárido. Elas conseguem se articular em redes e tentam difundir diferentes idéias que para o resto do Brasil podem parecer projetos ultrapassados, mas que para o sertanejo é de muita importância em sua atuação local, sua vida cotidiana doméstica e de trabalho."

Como exemplo, Ivete cita o programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), desenvolvido pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), rede que reúne mais de 700 organizações sociais que atuam em todos os estados do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. Pela iniciativa, pedreiros da própria localidade e integrantes das famílias residentes são capacitados para construir cisternas que armazenam até 16 mil litros de água captada das chuvas, por meio de calhas instaladas nos telhados das casas. Esse volume é suficiente para abastecer os moradores de uma unidade por, aproximadamente, oito meses.

De acordo com Valquíria Lima, coordenadora executiva da ASA, o objetivo é, além de garantir o acesso à água, estimular a mobilização social dessas famílias.

"Mais do que autonomia, essas famílias resgatam a auto-estima. Elas vivem dispersas no semiárido, distantes dos centros urbanos e têm dificuldade de acesso ao mínimo, que é a água para o consumo humano. No projeto, elas precisam se mobilizar como comunidade desde o início do processo, afinal são as próprias famílias que definem quem precisa com mais urgência da cisterna. Dessa forma, elas não se sentem beneficiárias, mas protagonistas de uma conquista delas mesmas", afirmou.

Desde 2003, quando o projeto foi lançado, já foram construídas cerca de 300 mil cisternas, atendendo mais de um milhão de pessoas. O objetivo é atingir a marca de cinco milhões de habitantes em toda a região semiárida.

O estudo do IBGE mostra ainda outras iniciativas com foco ambiental, como a promovida pelo Centro de Habilitação e Apoio ao Pequeno Agricultor do Araripe (Chapada), em Pernambuco. Para reverter o quadro observado na região de baixa produtividade devido às queimadas, ao uso indiscriminado de tratores, à monocultura entre outros, técnicos da organização capacitam de pequenos produtores da região, orientando-os sobre o reflorestamento das áreas exploradas com espécies nativas, e como usar adubo orgânico e inseticidas naturais.

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