Psicólogo diz que revitalização pulveriza a Cracolândia

Daniel Mello
Da Agência Brasil
Em São Paulo

A revitalização da Nova Luz, projeto da Prefeitura de São Paulo, e as ações policiais nas ruas tomadas pelo crack estão "pulverizando" a Cracolândia, afirma o psicólogo do Projeto Quixote, Lucas Carvalho, que trabalha com jovens em situação de risco, no centro.

Chama-se de Cracolândia um conjunto de ruas no centro de São Paulo onde o crack é consumido e comercializado abertamente.

"A Cracolândia não está sumindo, está se fragmentando em diversos pontos da cidade", alertou Carvalho, que fez a observação com base na sua experiência de trabalho com crianças e adolescentes pelas ruas da cidade.

Usuários de crack criam estratégias para evitar exclusão social, constata pesquisadora

Alguns usuários de crack desenvolveram estratégias para lidar com o vício e, ao mesmo tempo, não ficar excluídos em guetos como a Cracolândia, em São Paulo, apontam as pesquisas da psicofarmacóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Solange Nappo, que estuda a droga desde 1992



Esse fenômeno, segundo ele, está facilitando o acesso das crianças à droga. "O crack está chegando mais perto delas [crianças], antes precisava ir até a Cracolândia [para conseguir crack]. Agora, a Cracolândia está por aí", afirmou.

De acordo com a prefeitura, estão sendo concedidos incentivos fiscais para empresas que se mudem para a região, além de obras para alargar as calçadas e melhorar a iluminação. Além disso, os hotéis usados por traficantes de crack estão sendo fechados.

A Polícia Militar atua ostensivamente nas ruas onde o crack é usado livremente, como verificou a reportagem da Agência Brasil, em visita à região. As abordagens aos usuários são frequentes. Nessas situações, a maioria deles foge correndo até a próxima esquina, riscando compulsivamente os isqueiros para manter os cachimbos acesos, enquanto se reagrupam em um outro quarteirão.

O vice-presidente da Associação dos Moradores e Comerciantes do Bairro de Campos Elíseos (AMCCE), Nelson Barbosa, afirmou que os usuários da Nova Luz estão sendo "empurrados" para as regiões vizinhas.

"Se hoje, eles [a prefeitura] chamam lá de Nova Luz, nós chamamos as outras regiões de nova Cracolândia. Essa região [nova Cracolândia] corresponde à Santa Ifigênia, aos Campos Elíseos, à Santa Cecília e também à região da Praça da República", disse Barbosa.

A tendência de que a Cracolândia mude de endereço devido às ações policiais ocorre, segundo especialistas, porque "o problema não é o local, o problema são aquelas pessoas". Segundo a psicofarmacóloga da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Solange Nappo, caso os usuários de drogas sejam realmente expulsos do centro, outro ponto da cidade poderá ser dominado pelo crack. "Eles vão sair dali, vão para outro local e vão começar, aos poucos, a montar uma outra Cracolândia", afirma.

A polícia está fazendo "a sua parte" para combater o problema do crack, defende o comandante do 13º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Osni Rodrigues de Souza. Ele destacou que a polícia realiza operações diárias, com foco principalmente no tráfico de drogas.

No entanto, o tenente-coronel, reconheceu que só a ação policial não é capaz retomar as ruas dominadas pelo crack. "Ali não é só problema de polícia, se fosse só problema de polícia estava fácil de resolver", disse.

Um trabalho integrado, com ações de saúde e sociais, é o modelo defendido pelo psicólogo Lucas Carvalho. Para ele, é necessário "olhar aquelas pessoas enquanto pessoas" e traçar políticas públicas que resgatem a dignidade de quem vive na Cracolândia. "Se esse fenômeno da Cracolândia tem uma continuidade de, no mínimo, dez anos, não é em dois anos que vai se resolver sem dar uma continuidade de políticas públicas", concluiu.

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