Vistoria em maternidades do Rio acha grávidas que acabaram de dar à luz em corredores

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Grávidas que saem da sala de parto direto para o corredor, saída de emergência trancada com cadeado e corrente, paredes com mofo e vazamentos, hospitais operados com mão de obra temporária e rotativa. Esses são apenas alguns dos problemas detectados pelos presidentes da Comissão de Saúde da Câmara dos Vereadores, vereador Carlos Eduardo (PSB-RJ), e do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Darze, durante uma vistoria surpresa feita a nove maternidades públicas do Rio de Janeiro nos últimos quinze dias.

CAOS NAS MATERNIDADES

  • Divulgação/Comissão de Saúde da Câmara dos Vereadores

    Aparelho de raio-X foi remendado com esparadrapo em hospital

  • Divulgação/Comissão de Saúde da Câmara dos Vereadores

    Pacientes são colocadas no corredor por falta de leitos

  • Divulgação/Comissão de Saúde da Câmara dos Vereadores

    Ala do Hospital Miguel Couto é fechada para obras de reforma

  • Divulgação/Comissão de Saúde da Câmara dos Vereadores

    Saída de segurança é fechada com cadeado e corrente



Veja aqui as maternidades inspecionadas
e os principais problemas apresentados


Além disso, a comissão de vistoria constatou que uma nova ala do Hospital Miguel Couto, na Gávea (RJ), foi fechada para obras de reforma. O hospital foi obrigado pela Secretária Municipal de Saúde e Defesa Civil a reabrir todos os leitos da maternidade que estavam fechados depois que a grávida Manuela Costa, de 29 anos, perdeu seu bebê, no dia 2.

Ela chegou ao hospital com fortes dores e sangramento, mas o obstetra de plantão apenas escreveu em seu braço "Fernando Magalhães" e "476 e 460", nome da maternidade e os ônibus que Manuela, sozinha, deveria procurar. Ela chegou à outra maternidade e foi submetida a uma cesariana de emergência, mas a criança nasceu morta.

"A nossa crítica vai contra o fechamento de leitos sem planejamento. Não temos nada contra a reforma, mas antes é preciso apresentar um plano de contingência. Fechar 10 leitos dos 43 disponíveis no Miguel Couto significa fechar 25% deles", ressalta o vereador.

Segundo ele, foi constatado que, enquanto no Hospital Miguel Couto e na maternidade Alexander Fleming, em Marechal Hermes, por exemplo, há superlotação e grávidas nos corredores, na maternidade da Praça XV, no Centro, sobram dezenas de vagas.

A falta de integração entre as maternidades é um dos principais pontos apontados pela comissão. "Uma grávida precisa esperar sete horas para ser removida de um lugar ao outro", exemplifica Carlos Eduardo.

Além do caso da grávida Manuela, a comissão também registrou dois casos de pacientes que não conseguiram o transporte pela Toesa, empresa que prestar serviços de transportes à Secretaria de Saúde.

No dia 25, Angélica de Oliveira chegou à maternidade Herculano Pinheiro, em Madureira, às 16h com a filha de dois meses em estado grave (diagnóstico de baixa de plaquetas no sangue) e aguardou até as 19 horas e 15 minutos a ambulância, aponta o relatório - "desesperada, foi embora com a criança sem autorização dos médicos. A ambulância chegou apenas às 19 horas e 40 minutos e sem aviso da central reguladora".

Os outros pontos críticos, segundo a comissão, são: a falta de investimento na estrutura predial das maternidades, que normalmente estão instaladas em prédios antigos, onde falta manutenção e reformas; a falta de investimentos em tecnologia (equipamentos ultrapassados e fora de funcionamento); e a deficiência de recursos humanos, tanto nas partes médica e de enfermagem, quanto na administrativa.

"Encontramos equipamentos avariados há meses ou cheio de improvisos para mantê-los funcionando. Vimos paredes mofadas, vazamentos, escadas com degraus quebrados. Algumas dessas maternidades não dispõem de UTI para adulto ou neonatal", diz Darze.

"Não se faz ultrassonografia em nenhuma maternidade do Rio durante o atendimento 24h, porque não tem gente para operar, por exemplo", completa Carlos Eduardo.

No Hospital Miguel Couto, o médico conta que as pacientes com gripe suína foram isoladas em área improvisada e as gestantes que estavam ali foram colocadas nos corredores.

Já na maternidade da Praça XV, a única saída de emergência disponível foi encontrada trancada com corrente e cadeado e ninguém sabia onde estava a chave. Em caso de incêndio ou situação de emergência, pacientes e funcionários não teriam como deixar o prédio rapidamente.

O resultado do cenário de caos nas maternidades, alerta Darze, é a elevada taxa de mortalidade materna no Rio de Janeiro. "É o triplo do índice considerado aceitável pela ONU (Organização das Nações Unidas)", afirma. "O presidente da República assinou em 2005 um decreto reconhecendo a calamidade da saúde publica no Rio. Esse decreto não foi revogado até hoje. A calamidade permanece".

A falta de condições físicas para o atendimento é agravada pelo descaso médico, aponta Darze: "Grave déficit de médicos e profissionais de enfermagem, plantões desfalcados, mão de obra temporária e de alta rotatividade. Isso é causado pelos baixos salários, que não ajudam os profissionais a se fixarem no hospital, o que é muito ruim para o funcionamento das maternidades".

No Rio, resume o vereador, acabaram com "o direito de nascer e gerar filhos com dignidade".

A comissão entrevistou gestores e profissionais de saúde, grávidas e seus acompanhantes. O relatório final da inspeção nas maternidades foi encaminhado ao prefeito Eduardo Paes (PMDB) e ao Ministério Público Estadual, onde foi solicitado um inquérito público.

O outro lado
A Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro informa que, segundo a direção do Hospital Miguel Couto, seis leitos da maternidade ficaram fora de funcionamento por uma semana para pequenas obras de rotina, como reparos de pintura e vazamento. "Atualmente 38 gestantes estão internadas na maternidade e nenhuma paciente ficou sem atendimento. Para evitar transtorno, algumas grávidas foram transferidas para a enfermaria da clínica médica", diz a secretaria em nota. Até este sábado, promete o hospital, a maternidade estará com todos os 43 leitos em funcionamento.

Os exames nas maternidades estão disponíveis nos turnos manhã e tarde para atender os pacientes das maternidades e pacientes que realizam pré-natal na rede. Nos demais períodos, o aparelho está disponível para equipes de plantão. "Nenhum paciente destas unidades deixou de fazer ultrassom quando o exame foi necessário", diz a nota.

A empresa Toesa é contratada pela secretaria para fazer o transporte terceirizado de pacientes, sendo que o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e o Corpo de Bombeiros dão suporte necessário às unidades municipais.

De acordo com a secretaria, todo serviço terceirizado é monitorado e periodicamente passa por um controle de qualidade. Um serviço de ambulância especializado para gestantes também deverá ser implantado ainda este ano.

Sobre a saída de emergência trancada, a nota diz que a maternidade da Praça XVI possui um portão principal que fica aberto 24 horas por dia e este é o local de entrada e saída de ambulâncias e transeuntes.

A secretaria afirma ainda que os leitos das maternidades do Rio de Janeiro são regulados por uma Central de Regulação, que trabalha de forma integrada.

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