Inverno mais frio da década agrava drama dos sem-teto em Porto Alegre

Flávio Ilha
Especial para o UOL
Em Porto Alegre

O inverno mais gelado dos últimos cinco anos em Porto Alegre tem sido perverso com os cerca de 1,2 mil moradores de rua da capital gaúcha. O mês de julho, que teve a menor temperatura já registrada na década (um grau negativo na madrugada do dia 25), aumentou a procura por vaga nos sete abrigos públicos da cidade. Em vão. Não há lugar para todo mundo.
  • A capital gaúcha tem cerca de 1,2 mil moradores de rua. Nos dias de frio rigoroso não há espaço para todos nos abrigos

  • Segundo a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) de Porto Alegre, há uma vaga nos albergues municipais para cada dois sem-teto



Segundo a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) de Porto Alegre, há uma vaga nos albergues municipais para cada dois moradores de rua da capital. Em 2009, foram abertos 80 novos leitos em Porto Alegre - um aumento de 14% em relação ao ano passado. Mas a população de rua cresce de forma diferente: eram 300 adultos em 1995, chegaram a 2 mil em 2005 e se estabilizaram em 1,2 mil a partir de 2007.

A abertura de vagas nos sete albergues da cidade é pouco para compensar o salto na demanda por abrigo no inverno. No maior deles, que tem 150 vagas, as filas por abrigo começam a se formar às 18h. Não há leitos sobrando e muita gente acaba ficando de fora. Uma equipe da Fasc também faz abordagens durante a noite para convencer os sem-teto a saírem da rua.

"Mantemos um trabalho sistemático para tirar os moradores das ruas, mas mesmo assim é insuficiente. Há uma grande resistência por parte de alguns", justifica o presidente da Fasc, Kevin Krieger. Ele nega que haja superlotação nos abrigos municipais.

Entre os motivos da resistência estão as regras rígidas dos albergues mantidos pela prefeitura. Em todos eles, é proibido beber ou usar drogas. Os albergados também passam por uma revista minuciosa antes de entrar para passar a noite, como forma de coibir a presença de armas ou de objetos cortantes. O toque de recolher é às 22h, depois do banho e da janta. De manhã, todos têm de voltar às ruas.

"A maioria das abordagens é tranquila, mas às vezes é necessário apoio da Guarda Municipal para garantir a segurança da nossa equipe", relata o coordenador do Albergue Municipal, Ricardo Riveiro. Ele defende as regras do sistema. "Não há como manter a liberdade da rua dentro de um espaço público e comunitário", diz.

Mas a rotina da rua nas noites frias é severa. A maioria dos moradores se abriga em marquises ou sob pontes e viadutos para enfrentar as baixas temperaturas. A bebida é quase regra. Dormir com os corpos colados um no outro, também.

Na segunda-feira (27), foi registrada a primeira morte deste inverno por causa do frio: um homem aparentando 60 anos apareceu morto numa praça do bairro Timbaúva, zona Norte da cidade.

Além do frio, violência
Boa parte dos moradores de rua se concentra na avenida Ipiranga, uma das principais vias públicas de Porto Alegre. Ali, eles circulam em grupos. Cortada pelo arroio Dilúvio, a via tem dezenas de pontes em seu trajeto e diversos edifícios que oferecem abrigo aos sem-teto. Na esquina da rua Santana, um grupo com mais de 15 homens se preparava para enfrentar mais uma noite gelada na última quarta-feira (29) sob a marquise de uma loja de pneus.

Abrigados com cobertores doados, os andarilhos não gostam dos abrigos porque têm medo de serem roubados. "Já me tiraram roupas em um albergue para colocar no lixo", reclama um rapaz com cerca de 25 anos de idade. Com medo da reportagem, ele prefere não falar de sua origem nem dar seu nome. Mas diz que não se droga. "Só não tem como não tomar cachaça com esse frio", adverte.

Outro homem, de 50 anos, preparava a cama - um pedaço de papelão, outro de espuma e alguns cobertores rasgados que ele tira da carcaça de um carrinho de supermercado. Gilberto Severo, natural de Bagé, se apresentou como guardador de automóveis durante o dia. À noite, sem teto para dormir, divide a calçada com os colegas de rua. "Todo mundo aqui se conhece. É uma forma de se proteger porque a rua tem muita violência", conta.

O grupo já foi removido mais de uma vez, mas volta sempre que pode para dormir no mesmo lugar. A última tentativa de remoção foi há 20 dias, no início de julho. Os sem-teto reclamam da violência policial e também dos agentes da Fasc. "Me levaram para o quartel e me deixaram lá só porque eu estava dormindo na rua", reclama Gilnei Francisco, 30 anos. Além disso, segundo ele, suas roupas e objetos pessoais foram confiscados para forçá-lo a sair das ruas.

As agressões entre os sem-teto também são comuns. Em março, um morador de rua foi espancado por outros seis sem-teto na mesma avenida Ipiranga em função de disputas por drogas. Em janeiro, outro mendigo já havia sido vítima de um ataque com álcool e fogo promovido por três moradores da rua de Porto Alegre na zona Leste da cidade.

Uma pesquisa realizada para Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2008, traçou um perfil da população de rua de Porto Alegre. Segundo o levantamento, oito em cada dez sem-teto são homens - a grande maioria com idade até 44 anos. Metade deles estudou pelo menos quatro anos e foi parar na rua por desavenças familiares, provocadas especialmente pelo álcool. Apenas 22% dos entrevistados declarou que o desemprego foi a causa do abandono.

Outro dado importante levantado pela Ufrgs dá conta de que 30% dos moradores de rua têm uma renda de até meio salário mínimo por mês - cerca de R$ 230, boa parte fruto de esmolas. Um terço deles também declarou que faz três refeições por dia. A maioria dos sem-teto de Porto Alegre se abriga no Centro da cidade ou em áreas adjacentes. O registro de moradores de rua nos bairros ou na periferia é praticamente nulo.

Crise da família
O coordenador da pesquisa, Ivaldo Gehlen, diz que o aumento na população de rua de Porto Alegre não é exorbitante. "Uma metrópole é atrativa para qualquer um. Não tem relação [o número de sem-teto] com êxodo rural, mas com as oportunidades concentradas no centro da cidade", argumenta.

O sociólogo reforça a necessidade de programas específicos para a família. "Os números mostram que a desagregação familiar está por trás desse drama", diz. Gehlen lembra que 70% dos moradores de rua da cidade nasceram em Porto Alegre.

O presidente da Fasc reconhece que o número de vagas nos abrigos públicos é insuficiente, mas alega que a oferta é compensada por uma demanda baixa. Segundo ele, não há superlotação nos albergues porque muitos moradores de rua preferem continuar sem abrigo. "Não podemos ressocializar ninguém à força", justifica.

Segundo ele, as 15 pessoas da equipe do Atendimento Social de Rua (ASR) percorrem a cidade diariamente oferecendo abrigo e atividades ocupacionais aos sem-teto. Mas não têm tido receptividade. "Qualquer esmola ou doação serve de incentivo para pessoas permanecerem nas ruas", avalia.

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