Em tempos de gripe suína, "hipocondria transitória" lota hospitais

Rodrigo Bertolotto Do UOL Notícias Em São Paulo

Um "estado hipocondríaco transitório" movido por um "estresse psicossocial". O jargão médico define assim o pânico coletivo que faz a maioria das pessoas que acreditam estar com o vírus H1N1 serem apenas "alarmes falsos".

"Em outros anos, a pessoa engripava e se tratava com repouso em casa e antigripal. Agora, ela vai para o hospital ver se os sintomas que tem não são da pandemia", conta Anna Sara Levin, que coordena o atendimento do Hospital das Clínicas para os suspeitos de terem a influenza A ou, mais popularmente conhecida, a gripe suína.

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Segundo o próprio ministério da Saúde, mais da metade das pessoas que vão aos hospitais públicos crentes de fazerem parte da pandemia tinham apenas resfriado ou nem isso. Por volta de 25% tinham gripe comum. O restante sim estava com a gripe cujo atual surto surgiu no México em março último e que já vitimou dezenas de pessoas no Brasil.

Por outro lado, hospitais no Estado de São Paulo registraram um aumento de 40% no movimento graças à doença que ganhou a mídia nos últimos meses. O Sindicato dos Farmacêuticos também aponta um incremento da venda de remédios no último mês.

"Todo mundo tem um certo grau de hipocondria, mas no máximo 7% daqueles que buscam o atendimento sem precisar podem ser classificados como hipocondríacos", cita estudos norte-americanos o psiquiatra Sérgio de Barros Cabral, do Amban (Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo).

Mas o volume maior dos dias atuais, com filas de horas nos hospitais, é resultado de uma hipocondria temporária. "Quando se descobriu o vírus HIV nos anos 80, criou-se uma neurose. Foi a mesma coisa com um surto de febre amarela no final de 2007, com gente morrendo porque tomou duas vezes a vacina em curto período de tempo. Agora é a vez da gripe tipo A fazer qualquer espirro parecer uma contaminação", lembra o psiquiatra. Outros surtos que dominaram o noticiário, como a febre aviária em 2005 e o ebola em 1995, assustaram, mas não chegaram às fronteiras brasileiras.

O Hospital das Clínicas, por exemplo, já criou uma sala específica para quem chega com suspeita da gripe. Quem passa pela triagem já ganha uma máscara e um atendimento prioritário. Quem está no grupo de risco (idosos, crianças até dois anos, gestantes, pessoas recentemente operadas ou sob tratamento quimioterápico) e as com estado de saúde grave são medicadas e internadas.

"Não é injustificada a presença das pessoas em um pronto-socorro movimentado como este: algum problema de saúde elas têm. Afinal, estamos no inverno, quando aumenta o número de doenças respiratórias. Mas a grande maioria apresenta quadro leve e podem se tratar em casa de seus resfriados e gripes", relata Levin.

Os hipocondríacos interpretam sensações fisiológicas habituais ou pequenas variações normais do corpo como um sintoma de um mal presente ou que está por vir.

Segundo pesquisa comandada pelo psiquiatra Brian Fallon, da Universidade Columbia (EUA), há três tipos de hipocondríacos catalogados. O primeiro, o obsessivo-compulsivo, é atormentado por pensamentos e sensações que estimulam a buscar informações com familiares, amigos, internet ou médicos para saber se são portadores de alguma doença.

PSIQUIATRA EXPLICA O QUE É O "ESTADO HIPOCONDRÍACO TRANSITÓRIO"


Neste quesito podem estar os "cybercondríacos", aqueles que procuram na internet descrição de enfermidades, formulação de remédios e geralmente chegam ao consultório médico já sabendo os tratamentos mais recentes, posologias adequadas e as contraindicações que os eventuais medicamentos podem causar. Tudo levantado em sites especializados.

O segundo tipo, o hipocondríaco-fóbico, evita médicos ou qualquer informação sobre doenças com o fim de prevenir a ansiedade que desejam reprimir, tornando-se negligente com a saúde. O terceiro é o hipocondríaco-depressivo, mais desesperado e convencido de que é portador de uma doença crônica que nenhum médico consegue curar.

"A hipocondria é uma doença que vira um estilo de vida. A pessoa segue hipocondríaca por toda a vida. Já as pessoas abaladas com a chegada da gripe suína vão voltar ao normal quando a pandemia passar", afirma Cabral.

Para quem teme ser mais uma vítima da gripe suína, os especialistas recomendam ser racional e não se deixar levar pelo pânico. É bom lembrar que a melhor forma de evitar gripes e mesmo resfriados é lavar as mãos. "Deve procurar ajuda médica quem estiver com sintomas importantes que não melhoram em 24 ou 48 horas, como febre alta, moleza, dores no corpo, tosse e dificuldades respiratórias", afirma o infectologista David Uip, diretor do hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Não é recomendado consumir antigripais sem orientação: a prática pode fazer com que o remédio não funcione quando realmente houver necessidade.

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