Obama manobra um transatlântico, diz crítico da política de guerra às drogas

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Ethan Nadelmann, fundador e diretor da organização Drug Policy Alliance, um dos principais críticos norte-americanos da política da guerra contra as drogas, é um dos convidados do debate que se seguirá à apresentação do trabalho realizado pelos pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

  • Drug Policy/Reprodução

    Ethan Nadelmann, diretor da organização Drug Policy

Mestre pela London School of Economics e ex-professor de relações internacionais da universidade de Princeton, Nadelmann, 52, acredita que a administração Obama está, lentamente, mudando a política dos EUA para o assunto - mas o faz com o cuidado de quem está manobrando um transatlântico.

Leia abaixo entrevista de Nadelmann ao UOL Notícias.

UOL Notícias - Qual o futuro da guerra contra as drogas?
Ethan Nadelmann -
Os defensores da guerra contra as drogas nos Estados Unidos não usam mais a expressão. Eles sabem que hoje uma substancial maioria do público não acredita que ela possa ser bem sucedida. Há uma dependência do sistema criminal como instrumento central no combate às drogas. Por outro lado, há uma busca por diferentes alternativas, um movimento por mudança, em diferentes áreas.

UOL Notícias - O que mudou com a administração Obama?
Nadelmann -
Já há sinais de mudança. A administração Obama aponta para uma outra direção, mas o faz lentamente. É como se estivesse manobrando um transatlântico, a mudança é lenta. O problema das drogas passa a ser tratado como um assunto de saúde, não criminal, há uma tendência a reduzir as punições e um apoio outras políticas, como redução de danos. Mas Obama não deve apoiar a legalização, a proibição deve ser mantida.

UOL Notícias - Por quê?
Nadelmann -
Parte da opinião pública apoia mais mudanças, mas não mudanças radicais. Além disto, há uma enorme burocracia nos Estados Unidos, um complexo industrial prisional - o que significa um complexo baseado na proibição às drogas -, que faz dinheiro graças a essa proibição.

UOL Notícias - Como você vê o papel do Brasil neste debate?
Nadelmann -
O Brasil tem um forte potencial de liderança na América Latina e nas organizações internacionais. Assumiu esse papel na questão da relação entre HIV e as drogas injetáveis, adotou de forma relativamente rápida políticas de redução de danos e tem uma tradição de uma sociedade em que essas questões podem ser debatidas. Um exemplo disto foi o papel de Fernando Henrique Cardoso na Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. A comissão defendeu a descriminalização da maconha, políticas de redução de danos, foco em saúde pública e criticou a política de guerra às drogas. FHC teve um papel fundamental neste movimento. Em 1998, minha organização encaminhou um abaixo-assinado a Kofi Annan, e um dos signatários foi Lula. Além disto, o Brasil conhece os efeitos da proibição no incremento da violência nas favelas. Infelizmente, a coordenação da política antidrogas do governo parece estar com os militares, não com a saúde.

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