Lei antifumo cria proliferação de regras nas calçadas de bares e boates

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

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No badalado clube Vegas, três seguranças cuidam do lote permitido de seis clientes fumantes que saíram para a calçada. No bar Tapas Club, a preocupação é que os clientes não levem copos requintados para fora. No modernoso bar Volt, os frequentadores deixam um documento para poder dar uma pitada ao ar livre. No boteco O Pescador, o batente da porta de entrada virou uma espécie de sofá para os tabagistas.

FUMANTES DÃO DEPOIMENTO SOBRE VIRADA ANTIFUMO


Cada local criou sua própria regulamentação para se adaptar à lei antifumo de São Paulo, que entrou em vigor à 0h desta sexta-feira, restringindo o cigarro em locais fechados e de uso coletivo.

Muitos já colocaram em ação as regras novas há uma semana, para acostumar sua clientela. Outros só foram pensar nas pesadas multas aplicadas (de R$ 792 ao fechamento do estabelecimento) minutos antes. É o caso do boteco 25 horas, quando um grupo de funcionários do shopping Higienópolis dava baforadas até o limite da legalidade.

Antonio dos Reis é o único empregado noturno no despojado local da boêmia rua Augusta: "Cuido da chapa, do bar, das mesas de sinuca e agora vou ter que me virar para vigiar os cigarros. É dose. À meia-noite, se eles estiverem fumando, peço para irem para fora."

Na calçada em frente, Andressa Freitas e sua namorada Mariana Elias fumando pela primeira vez do lado de fora da sinuca O Pescador, por recomendação do dono. Elas estão sentadas e encolhidas no batente da entrada. Andressa dispara contra o governador José Serra, o idealizador da lei. "Ele é um hipocondríaco, quer se eleger presidente e inventou essa lei", reclama, antes de lançar sua bituca na calçada, entre outras que pousam ali.

Enquanto no clube Vegas, a proporção de seguranças de olho nos fumantes é de três para seis, no vizinho Studio SP um vigia cuida para que nenhum dos três apreciadores da nicotina permitidos na calçada não se evada sem saldar suas dívidas etílicas.

MAÇOS E MULTAS

  • Sergio Andrade/UOL

    Grupo de amigos dão últimas tragadas dentro de bar antes que entre em vigor lei antifumo de SP

  • Sergio Andrade/UOL

    O ambulante Antonio Itamar exibe seus produtos: placas de advertência sobre a lei, vendidas a R$ 8

  • Sergio Andrade/UOL

    Fiscais da Vigilância Sanitária se reúnem para começar périplo pela boêmia rua Augusta

Atravessando a rua, no clube Outs, os roqueiros colocam a digital na saída para comprovar que não estão inadimplentes com o bar e vão baforar perto do asfalto. "Tem muito dogma nesse tema, falta bom senso e sobram regras", defende Leandro Presoto, um não-fumante que acompanhava a namorada do lado de fora.

Enquanto a maioria das casas preferiu dar pulseira colorida para identificação, o Tapas Club decidiu carimbar os habitués defumados com um carimbo na mão. "Estou me sentindo no Playcenter quando eu era criança. Já saí seis vezes para fumar e não é nem meia-noite. Que absurdo", reclamava Thays Leonel - o segurança perto dela estava mais preocupado em que ela não sumisse com copo em que tinha sua caipirinha. Lá os clientes pagam antecipadamente o consomem por meio de um sistema de fichas, e a recomendação é só sair para a calçada com copos e garrafas descartáveis.

Na mesma calçada, a psicóloga Renata Junqueira bateu boca com a fiscal Vilma Warner. "Por que o governo não coloca cinzeiro na rua para os fumantes não sujarem a rua?", pergunta para a funcionária pública, que desconfiava que aquele protesto era armado pelos donos dos bares próximos.

Outra fiscal já previa mais manifestações contrárias. "Esse pessoal, principalmente os adolescentes, se excede na brincadeira", afirmou a fiscal Angela Gatti.

O quarteto de fiscais, com colete bege e emblema da campanha, esperava para descer a rua Augusta à meia-noite. Ouvindo frases de apoio. "Manda multa nesse pessoal mesmo", gritou um moleque. "É uma idiotice. Essa lei não vai pegar", bufava uma senhora.

Na frente do popular bar do Netão, um pequeno protesto esperava os servidores do Estado e município. "Comecei a fumar hoje motivado pela lei. E vou vaiá-los. E expulsar esses fiscais a baforadas", se manifestava Henrique Vicente, entre um gole e uma tragada.

Já no bar Carniceria Z, o segurança Moris Goldfeder discutia com a DJ Lady Rocker. "Eu tenho que cuidar da porta e dos fumantes. Se eles se afastam muito, logo chamo a atenção", se explicava o leão-de-chácara enquanto a senhorita tatuada reclamava das novas regras. "Vai buscar minha garrafa lá de dentro. Essa leizinha é ridícula. Ficamos na garoa do lado de fora, com perigo de ser assaltado, enquanto minha cerveja está esquentando lá dentro", disparou. Ela estava do lado direito da entrada, enquanto do esquerdo se formava a fila para entrar no recinto.

Na porta do Studio SP, o músico Mauricio Polimeni baforava fumaça enquanto fazia projetos de largar o hábito. Saindo de uma sinuca na rua Peixoto Gomide, Felipe Pitta prometia abandonar a vida noturna. "Largo a balada, mas não largo o cigarro. Já fui em uma festa que tinha mais gente do lado de fora do que dentro", contou.

Enquanto a psicóloga Renata Junqueira denuncia que os governos lucravam com a venda e as multas sobre o cigarro, um coadjuvante nessa história toda também ganhava seu troco. O ambulante Antonio Itamar vive os últimos dias de vender placas alertando sobre a lei pela zona Leste e Central da capital paulista. Comprando do cunhado cada exemplar por R$ 3 e vendendo por R$ 8, ele já comercializou mais de 100 e quer chegar a 200 em suas andanças. "É o leitinho das crianças saindo dessa novidade."

Com a típica garoa da madrugada paulistana caindo, o grupo de fumantes na calçada na frente do bar Exquisito soltava fumaça pelas ventas, misturando nicotina com o vapor em meio ao ar frio. "Aqui estamos nós, os fumantes, excluídos, leprosos, em baixo de chuva", romantizava a garçonete Camila Valones.

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