No primeiro fim de semana da nova lei, uma não-fumante salva os cabelos e enxerga melhor

Gabriela Sylos
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Grupo de discussão

Com blitz da lei antifumo, você percebeu mudanças na rotina dos estabelecimentos que frequenta?

Dois grupos se misturavam na porta de entrada da casa noturna Eclipse Club, na rua Bento Freitas, centro de São Paulo, na noite da última sexta-feira (7). Enquanto uma parte das pessoas fazia fila para entrar, outra se aglomerava para fumar.

O local pode ser reservado para festas privadas, como naquela noite, quando o produtor musical Denis von Brasche comemorou seu aniversário. Durante a semana que antecedeu o evento, a lei antifumo gerou polêmica no grupo de e-mails mantido por seus amigos. E era novamente tema ali na fila. O diretor de criação Peco Porto especulava que, sem o cheiro de cigarro, outros aromas poderiam ganhar espaço. "Imagina no verão?", questionou, ao pensar no suor dos frequentadores. "Ou o cheiro de perfume forte?".

Uma vez dentro da festa, o cliente pagava o ingresso, recebia uma carimbada na mão e comprava as fichas de cerveja no caixa. Sem fumaça, a vista era nítida e o ar estava leve. O clima beirava o de reunião familiar, com som ambiente, convidados ainda sóbrios e rodinhas de colegas.

Lei polêmica entra em vigor em São Paulo

  • Gabriela Sylos/UOL

    O aviso de proibido fumar estava espalhado por diversos estabelecimentos visitados no fim de semana, inclusive em um condomínio da região de Santa Cecília, no centro da cidade de São Paulo

O assunto em uma dessas rodinhas era, mais uma vez, a falta do cigarro. "Se fosse permitido, ele já teria fumado uns cinco nessa meia hora", afirmou a jornalista Alexandra Makowski referindo-se ao namorado. Ele riu, disse em tom de brincadeira que estava nervoso e seguiu para a saída. Ela, não-fumante e cabelo longo, constatou: "Pelo menos hoje não vou ter que lavar o cabelo antes de dormir".

O trânsito para os fumantes era fácil. Sem comanda e com o carimbo na mão, o cliente podia circular à vontade, sem precisar entrar em uma fila para poder sair e dar suas tragadas. E como a cerveja estava paga, ela podia acompanhar o dono - mas apenas no copo, garrafas não saíam. Resultado: festa paralela na calçada.

Cerca de vinte pessoas conversavam do lado de fora, alguns apoiados nos carros estacionados. Todos falavam alto - o que não chegava a ser um problema naquela rua, majoritariamente com lojas comerciais e outras casas noturnas. O entra e sai era constante. Um fumante chegou e desabafou: "Eu odeio essa lei". Outros se preocupavam em contabilizar a redução de cigarros naquela noite.

Alguns abandonaram a contabilidade e instituíram logo a festa paralela do lado de fora. "Chega uma pessoa e acende mais um cigarro, aí eu vou ficando", afirmou a tradutora Flávia Ferreira. No fim da noite, Flávia disse que fumou a mesma quantidade de antigamente: pouco menos de um maço. "E nesta balada eu bebi mais, porque eu comprava uma cerveja e queria sair logo para fumar", recordou.

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Quem não era convidado oficial arranjou um jeito de participar da "festa da calçada": um motorista parou seu Fusca em fila dupla, abriu a porta e aumentou o som. Um transeunte, visivelmente alcoolizado, reivindicava o direito de sentar no banco que o estabelecimento colocou no passeio público. Deu briga. Dois seguranças tiraram o sujeito à força, sob os olhares assustados dos frequentadores, e gritos de "chega, chega!".

Minutos depois o segurança se aproximou, sem graça, e pediu desculpas, reforçando que o banco de madeira foi colocado para o "conforto dos clientes". Banco aliás rodeado por dois cinzeiros, que não impediram que a calçada ficasse pontilhada de bitucas.

Às seis da manhã, com o burburinho dentro e fora da balada, a reportagem deixou o local. Ao chegar em casa, o banho pôde ser dispensado porque os cabelos ainda cheiravam a xampu. E as roupas não precisaram ir para o varal no dia seguinte para tomar um ar fresco.

Proibido fumar neste local
A indefectível placa de proibido fumar com o símbolo do Estado de São Paulo estava espalhada na festa do centro da cidade, na churrascaria do almoço de sábado, na pizzaria do jantar de domingo, no supermercado, na floricultura, na padaria e também perto dos elevadores de um condomínio no bairro de Santa Cecília, região central.
  • Gabriela Sylos/UOL

    Grupo de fumantes se aglomerava para fumar do lado de fora da casa noturna Eclipse Club, na capital



Em um prédio na Pompeia, zona oeste da capital, o aviso era em forma de texto e estava pregado na parede interna do elevador. Lembrava de todos os locais onde a partir de sexta (7) era proibido fumar: nas escadas, no hall dos andares, no hall social, nos salões de festa e de jogos, na entrada dos dois salões, na portaria, entre outros. O texto frisava que, em caso de desrespeito, a multa seria "pesada".

Sobre o salão de festas, alguns moradores questionavam que, se você faz uma comemoração, com apenas seus convidados, o espaço torna-se uma extensão da sua casa, onde afinal é permitido fumar. Mas contestações à parte, a administração do prédio foi clara: quem desrespeitar a lei pode arcar sozinho com a multa. O valor pode chegar a até R$ 1.585.

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