PM afasta policiais que arrastaram transexual pelos cabelos em Alagoas

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

A Polícia Militar de Alagoas anunciou nesta quarta-feira (19) o afastamento de dois policiais que participaram da prisão, no domingo, de um transexual durante a Parada Gay em Penedo (região sul do Estado).

Uma gravação flagrou os militares arrastando a vítima pelos cabelos e pelo chão. Os policiais jogaram ainda a vítima no asfalto por duas vezes antes de a levarem para a delegacia.

Veja imagens da agressão em Alagoas

Segundo os policiais, o transexual estaria sem roupa, praticando atos obscenos e teria desacatado os militares. A identidade do transexual não foi revelada pela organização do evento. Por temer represálias, a vítima não quis prestar queixa dos policiais.

No vídeo, gravado por um cinegrafista amador, a vítima é abordada por três policiais. Na primeira imagem, ela aparece vestindo uma camisa, sem a calça, usando um fio dental.

Em seguida, obrigado pelos militares, o transexual veste a calça e é algemado. Sem demonstrar reação, dois dos policiais carregam o transexual pelos cabelos por cerca de cinco metros e, em seguida, o jogam no chão. Na sequência, os mesmos policiais arrastam a vítima pelo chão, até uma ambulância.

Como teria se recusado a receber atendimento médico no local, o transexual foi levado até uma viatura policial. Antes de ser colocado no veículo, ele foi jogado no chão mais uma vez. Centenas de pessoas no local presenciaram essa cena.

A secretária de Estado da Cidadania, dos Direitos Humanos e da Mulher, Wedna Miranda, afirmou que o Estado está tentando localizar a vítima da agressão para dar assistência psicológica. "Já entramos em contato com a organização do evento, já o identificamos e vamos assisti-lo. Nós também procuramos a polícia para repudiar o fato. As pessoas assistiram às imagens horrorizados", disse.

Sindicância
Além do afastamento, a PM também abriu sindicância para apurar a atuação dos militares no caso. Durante os 30 dias de investigação, eles vão realizar apenas serviços administrativos no quartel.

A repercussão negativa no Estado levou o comando da PM a convocar uma entrevista coletiva nesta quarta-feira. O comando da PM repudiou publicamente os métodos utilizados pelos policiais. "Verificamos que houve excessos. Não é esse o procedimento indicado para a condução de presos. Queremos dar uma resposta rápida à sociedade, pois um policial não tem direito de fazer o que ele fez", ressaltou o Coronel José Praxedes, comandante de Policiamento do Interior.

Apesar de reconhecer os excessos da ação, o comandante do 11º Batalhão - que compreende o município de Penedo -, Coronel Pinheiro, defendeu o militar que coordenou a prisão. "Nossa guarnição recebeu um chamado por prática de atos obscenos na rua. Ao chegar ao local, os policiais o fizeram ver que o comportamento dele [transexual] não era o adequado. Pela exaltação, houve uma evolução da ocorrência. Ele esperneou, não aceitou ser levado à ambulância para ser medicado e aí houve o excesso dos policiais. Mas o chefe da operação é um excelente policial militar e tem feito várias ocorrências de destaque", alegou, sem revelar os nomes dos militares envolvidos.

Segundo o coordenador da Rede GLBT (Gays Lésbicas, Transexuais e Bissexuais) no Nordeste, Bizan Velô, a punição administrativa não é suficiente e o caso será levado à Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. "Foi uma situação arbitrária: agredir um cidadão, independente dele ser transexual, que estava em um evento dele. Ali era um espaço GLTB. Vamos acionar a Secretaria para ver a situação desse caso", informou.

Preconceito
O presidente do Conselho Estadual de Segurança Pública, Delson Lyra, acredita que a ação foi motivada por preconceito sexual. "Foi algo gritante, inaceitável. Aparentemente aconteceu por ímpeto preconceituoso. Mesmo se a prisão fosse legal, não necessitava de tamanha indignidade, contra a integridade física. Acredito que a polícia vai punir os envolvidos", afirmou.

Já o presidente da comissão de direitos humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Alagoas vê despreparo policial. "Diariamente recebemos denúncias do abuso do poder de polícia, o que caracteriza despreparo dos militares. Vamos ter contato com a vítima e pedir que o Ministério Público se posicione sobre o caso", afirmou.

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