Número de conflitos no campo cai no 1º semestre, mas mortes são mais recorrentes, diz CPT

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizada às 13h

A violência no campo não para de crescer apesar de os focos de conflito terem diminuído, aponta relatório divulgado nesta quinta-feira (3) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Segundo os dados do primeiro semestre deste ano, o número de disputas caiu de 678 (no mesmo período de 2008) para 366 agora, uma queda de 46%. O número de pessoas envolvidas também diminuiu e foi de cerca de 300 mil (2008) para 193 mil (em 2009).

Violência no campo

  • Genaro Joner/Zero Hora

    No dia 22.08.2009, dezenas de pessoas acompanharam o velório do sem-terra Elton Brum da Silva, morto durante a remoção de integrantes do MST da Fazenda Southall, em São Gabriel (RS). Dias depois, o soldado autor do disparo foi afastado



Mesmo assim, doze pessoas foram assassinadas, 44 sofreram tentativa de assassinato, 22 receberam ameaça de morte, seis foram torturadas e 90 foram presas no último semestre. Na média, isso significa que uma pessoa morre vítima da violência a cada 30 disputas. Em 2008, era 1 assassinato a cada 52 conflitos.

Os dados revelam ainda que o número de pessoas torturadas passou de 1 a cada 399 conflitos para 1 a cada 61, e o número de tentativas de assassinato foi de 1 a cada 21 para 1 a cada 8 conflitos.

"O que nos espantou nesses dados foi que o Estado se tornou muito mais agressivo. Proporcionalmente, há mais despejos, mais mortes e mais torturas", analisou o coordenador nacional da CPT, Dirceu Fumagalli, que ressaltou um novo movimento: o Estado despeja mais e, consequentemente, o empresariado do campo expulsa menos.

Violência espalhada e pistolagem
De acordo com a CPT, também aconteceu um "espraiamento da violência pelo país". Em 2008, os assassinatos foram concentrados em sete Estados. Agora, eles se espalharam por 11 regiões.

O aumento da violência foi maior no Centro-Oeste: 3 assassinatos em 2009 (1 em 2008), 13 tentativas de assassinato (0 em 2008), 80 famílias expulsas (0 em 2008), 1.200 famílias despejadas (455 em 2008).

No Sudeste, a situação no campo também piorou. Os assassinatos passaram de 0 para 2, as tentativas de assassinato de 1 para 5 e as prisões de 0 para 3. Para a CPT, é surpreendente a violência na "região mais rica e desenvolvida do país, onde se poderia imaginar que os conflitos agrários estariam tranquilamente superados".

Pressionado pelo PMDB,
Lula não cumpre prazo para atualizar índices de produtividade da terra

Sob forte pressão da bancada do PMDB no Congresso, o presidente Lula não cumpriu a promessa feita aos trabalhadores sem-terra de revisar os índices de produtividade da terra - fixados em 1980 com base em dados de 1975. Lula também vem sofrendo pressão de ruralistas e do ministro Reinhold Stephanes (Agricultura).



A comissão destaca ainda que houve um aumento "preocupante" nos casos de pistolagem (famílias que sofreram ameaças, agressões ou qualquer forma de pressão e violência por parte de pistoleiros) no Nordeste e no Sudeste.

Na Bahia, por exemplo, houve um aumento de 630% - de 102 casos em 2008 para 900 agora. Já em Minas Gerais, a ação dos pistoleiros não havia sido detectada no ano passado e hoje soma 131 casos.

"Isso mostra o aumento da violência do poder privado, consequência da impunidade e da inoperância dos órgãos competentes em punir esta prática por parte de grandes fazendeiros e empresas rurais", escreve a CPT.

Disputa por terra
A comissão considera conflitos por terra, água e trabalhistas no balanço. As disputas por terra, no entanto, representam 67% dos conflitos.

O relatório mostra que as ocupações e os acampamentos diminuíram de um ano para o outro. As ocupações baixaram de 187 para 102 e os acampamentos de 27 para 22. O número médio de pessoas por acampamento, no entanto, aumentou de 68 famílias por acampamento, em 2008, para 104 em 2009.

Trabalho escravo
Mais de 2.000 pessoas foram libertadas do trabalho escravo no primeiro semestre de 2009. Foram 95 denúncias, concentrada especialmente nos Estados do Acre, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Tocantins e Bahia.

"O trabalho escravo, no entanto, é encontrado em todas as unidades da federação. E ele continua aumentando porque há uma cultura no nosso país de descaso e impunidade", explicou Fumagalli.

A região Sudeste, mais uma vez, surpreendeu por apresentar um aumento significativo de pessoas libertadas - passou de 555 durante todo o ano passado para 786 apenas no primeiro semestre - e concentrar 39% dos resgatados. O Nordeste responde por 28,8% e o Norte por 21,9%.

Aumentou também o número de menores de idade em trabalho escravo. De janeiro a junho do ano passado, foram 16 crianças e jovens libertados. Neste ano, subiu para 88. "Quase um menor de idade para cada conflito. Isso mostra uma nova geração sob o jugo da escravidão", apontou a CPT.

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