Três tornados e vendavais obrigam mais de 7.000 a abandonarem suas casas em SC

Do UOL Notícias*
Em São Paulo

"Situação é desesperadora", diz prefeito de Guaraciaba

"Há muitas árvores caídas, casas e galpões destruídos. Parece coisa de filme", disse Ademir Zimmerman, o prefeito da cidade que tem 10.604 habitantes

O Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri/Ciram) confirmou nesta quarta-feira (9) que três tornados atingiram três cidades de Santa Catarina na madrugada de ontem, causando mortes, ferimentos e desabamentos. As cidades atingidas foram Guaraciaba, Santa Cecília e Salto Veloso.

De acordo com a meteorologista Francine Gomes, do Epagri/Ciram, os tornados atingiram a categoria F1 na Escala Fujita de classificação de tornados - que vai de F0 a F6 -, com ventos entre 120 a 180 km/h.

Ela explica que estão em estudo se outras localidades podem ter tido tornados em Santa Catarina. "Não se pode descartar a possibilidade", disse. Em outros locais do Estado, segundo ela, foram registrados ventos acima de 100 km/h, o que pode caracterizar um tornado.

Para confirmar os tornados, foi feita uma análise dos estragos causados pelos ventos, já que não havia imagens que confirmassem o fênomeno, que aconteceu no período da noite. "Foi feita essa análise dos estragos causados pelos ventos. Não registramos a ocorrência dele, o funil propriamente dito, mas outra forma de determinar se houve ou não um tornado é pelos estragos que ele provoca, como estruturas retorcidas, árvores cortadas ao meio, quando parece que veio um machado e cortou, ou um rastro de maior destruição, carros virados ao contrário", detalhou a especialista.

Segundo a meteorologista, três fatores atuando ao mesmo tempo favoreceram a formação dos tornados em SC. "Foi uma tarde muito quente, a temperatura máxima chegou a 32ºC em Itapiranga, cidade vizinha de Guaraciaba. Foi um dia abafado, com disponibilidade de umidade no ar, e a chegada de frente fria que já tinha causado estragos no sul favoreceu a formação de nuvens com desenvolvimento vertical, que são nuvens de tempestade", explicou.

Ela disse que não há possibilidade de o tornado que atingiu a Argentina ser o mesmo que chegou a Guaraciaba, cidade bem próxima à fronteira. "Pode ser uma área grande de instabilidade que formou vários tornados. Um tornado não tem tempo de vida útil para atingir vários municípios ao mesmo tempo", afirmou. Segundo ela, a nuvem que dá origem e um tornado se forma e se dissipa em uma hora. "O tornado, sim, se forma e se dissipa, em média em 20 minutos", completou.

Gomes descarta novos tornados no Estado, mas lembra que é muito difícil prevê-los, devido ao seu tempo curto de vida. "A região vai continuar com tempo instável, há chance de temporal entre a tarde de sexta e sábado. Mas a tendência é que não sejam tão intensos como esses de ontem, pois estamos com temperaturas mais baixas e já choveu muito nos últimos dias, diminuindo a umidade", apontou.

Os números da tragédia
Segundo a Defesa Civil do Estado, o número de feridos chegou a 138, com a morte de quatro pessoas, em 46 municípios catarinenses atingidos pelas fortes chuvas e ventos. Em todo o Estado, 1.163 pessoas perderam suas casas e 7.046 tiveram que deixar o local onde moravam, em razão de risco na estrutura.

A Defesa Civil calcula que pelo menos 54 mil pessoas tenham sido afetadas. Em Abelardo Luz, 3.000 ficaram desalojados após a forte chuva de granizo que provocou prejuízos em pelo menos 2.012 edificações. "A previsão de chuvas intensas para o restante da semana ainda preocupa. A possibilidade de acúmulo de água no solo mantém o alerta", afirma o diretor da Defesa Civil de Santa Catarina, major Márcio Luiz Alves. Mais de 10 mil edificações foram abaladas.

Prefeitos da região Oeste estão reunidos nesta manhã para colher informações e repassar à Defesa Civil, visando à liberação de recursos por parte do governo estadual. "Pelo que pude presenciar, quatro mortes foram pouco diante dos estragos", relata o deputado estadual Pedro Baldissera (PT), que participa da reunião. "Os prejuízos são de pelo menos R$ 50 milhões", estima.

Feridos e situação de emergência
Do total de feridos, mais de 40 estão hospitalizados e 70% das residências foram danificadas pelo provável tornado que se abateu sobre a região. Até agora, 17 cidades estão em situação de emergência: Santa Terezinha do Progresso, São Domingos, Vargeão, Vargem Bonita, Dionísio Cerqueira, Ipuaçu, Monte Castelo, Corupa, Shroeder, Abelardo Luz, Entre Rios, Lebon Regis, Ouro Verde, Passos Mais, Rio das Antas, São Bernardino e Tigrinhos.

O município de Guaraciaba, no extremo oeste de Santa Catarina, ainda contabiliza as perdas com o tornado registrado nesta terça-feira. No município, 250 pessoas estão desabrigadas. Entre os 138 catarinenses feridos, 89 são da cidade; desses, 14 estão hospitalizados, sem risco de morte.

A cidade é a única de Santa Catarina em estado de calamidade pública e possui 20 equipes de trabalho com integrantes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros. A prefeitura informou hoje (9) que as aulas na cidade estão suspensas por tempo indeterminado.

Chuva faz represas de SP alcançarem maiores níveis dos últimos anos

A chuva que atingiu São Paulo nesta terça-feira (8), a maior do ano, contribuiu para que as duas principais represas que abastecem a população da Grande São Paulo alcançarem o maior nível nos últimos anos para o mês de setembro, segundo a Sabesp.

A decisão se deve aos estragos nas próprias escolas e também ao difícil acesso de veículos, inclusive os que fazem o transporte escolar. A direção dos colégios pediu aos professores que, durante o período fora da sala de aula, se disponibilizem a ajudar as famílias atingidas pelo temporal.

Os professores e as demais pessoas que quiserem atuar como voluntários devem procurar os centros de informações e apoio na prefeitura, no Corpo de Bombeiros, no Centro de Convivência dos Idosos ou no Ginásio de Linha Caravaggio, onde estão os desabrigados.

Levantamento preliminar indica que a chuva prejudicou 170 famílias em Guaraciaba. Além das 70 casas completamente destruídas, 110 tiveram o telhado danificado. Além dos fortes ventos, o município registrou queda de granizo na última segunda-feira.

Ainda não foi feito levantamento sobre prejuízos econômicos. O município de Guaraciaba é o segundo maior produtor de leite de Santa Catarina, com duas grandes empresas: Cedrense e Terra Viva (cooperativa de assentados da reforma agrária). O tornado destruiu pastagens, salas de ordenha, galpões e matou parte do rebanho. "Não há como mensurar o estrago. Nossa preocupação é com o socorro humano, neste momento", afirma o coordenador da Defesa Civil do município, Tarcísio Hanauer.

Ontem (8), o prefeito da cidade, Ademir Zimmermann, decretou situação de calamidade pública. Ainda há pontos da cidade sem energia. A prefeitura informou que o governo de Santa Catarina já autorizou o município a adquirir medicamentos, colchões, lonas e produtos de primeira necessidade às famílias atingidas.

Municípios mais atingidos em Santa Catarina

  • Arte UOL

O governador do Estado, Luiz Henrique da Silveira, e representantes da Defesa Civil de Santa Catarina devem visitar Guaraciaba hoje.

Doações de roupas, calçados, cobertores, colchões e alimentos podem ser deixadas no Centro de Convivência dos Idosos, onde uma equipe realiza a triagem dos materiais. Quem não puder levar até o local pode ligar para os telefones (49) 3645-0785 ou (49) 3645-0122.

A previsão para hoje na Região Sul, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), é de tempo nublado, com pancadas de chuvas, trovoadas e possibilidade de chuvas fortes em áreas isoladas. A Defesa Civil informou que deve continuar chovendo na região durante toda a semana.

Sem telefone, água e luz
Outras cidades também foram fortemente atingidas. O município de São Domingos estava sem comunicação, enquanto a localidade de Campina da Alegria, no município de Vargem Bonita, sofre com a falta de água e energia elétrica, verificando o destelhamento de 206 edificações. O município de Ipuaçu estava sem energia e com registros de destelhamento de casas e queda de árvores.

O município de Coronel Martins estava sem comunicação e energia elétrica, com destelhamento e queda de árvores. Monte Castelo informou aos técnicos da Defesa Civil Estadual a existência de cerca de 106 edificações atingidas, com pelos menos dois feridos, sendo uma vítima de enfarte e 40 desalojados.

Penha, na foz do rio Itajaí-Açu, estava sem água e sem eletricidade, além de contar com 411 edificações atingidas pelo vendaval. Em Blumenau, no Vale do Itajaí, foram verificados destelhamentos, quedas de árvores e o desabamento de um galpão da empresa Auto Viação Catarinense.

*Com informações das agências Brasil e Estado e de Ana Sachs e Luiz Nunes

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