Menos de um ano depois das enchentes, desabrigados de Blumenau (SC) temem novas chuvas

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Nove meses depois de perder suas casas durante a enchente do ano passado, os moradores de Blumenau (SC) enfrentam novamente o medo da chuva. "Cada vez que o tempo fecha a gente se desespera. Agora, com os novos temporais, eu estou apavorado", descreve Moacir Francisco de Souza, de 50 anos, que vive no Vale do Ribeirão Fresco, a leste do centro da cidade.

Desde segunda-feira, temporais, vendavais e tornados voltaram a castigar a região Sul do país. Mais de 270 mil pessoas foram afetadas em 159 municípios. Em Blumenau, chove sem parar e o rio da cidade ameaça transbordar.

E com as novas chuvas, volta a sensação de que a situação não melhora nunca, diz Souza. Ele conta que desde a cheia do ano passado está hospedado na casa de vizinhos e tenta reconstruir sua vida. Entre novembro e dezembro de 2008, cerca de 135 pessoas morreram e outras 80 mil ficaram desabrigadas no Estado.

Em agosto último, um laudo da prefeitura decretou que a propriedade que ele tinha no bairro está em área de risco e ele não pode voltar para lá. "Perdi tudo. Perdi minha casa, minha fonte de renda e meu orgulho. Desde então nada foi feito. Ninguém em Blumenau recebeu nada. Ficou só no blá blá blá. As pessoas voltam para os locais de risco, porque não têm alternativa. Ninguém conserta a situação, só usa da força", reclama.
  • Divulgação/AMVRF

    Moradores conversam em frente a uma casa construída no terreno ocupado em Blumenau (SC)



Ele afirma que pretende entrar na Justiça contra a prefeitura, mas enquanto a decisão não sai diz que não sabe o que fazer. "Vou ficar de um lado para o outro. Viver na casa de vizinhos é horrível. Depois de um mês, deixa de ser solidariedade. Mas não penso em mudar de cidade, porque não adianta ficar fugindo. É preciso mudar essa política", afirma.

A Central de Reconstrução da Prefeitura iniciou nesta sexta-feira (11) uma força-tarefa para acelerar a retirada de famílias que continuam em áreas de risco. Quem não sair será acionado judicialmente.

"E as pessoas vão para onde? Não existe um projeto, ninguém está preocupado. Elas vão lotar os galpões da prefeitura, porque o poder público não acha lugar para colocar essas pessoas", afirma Heriberto Bailer, diretor da Associação de Moradores do Vale do Ribeirão Fresco, que conseguiu abrigar 22 famílias da região, que perderam suas casas no ano passado, ocupando um terreno da prefeitura.

A permanência dos moradores ali é motivo de disputa na Justiça. O governo municipal pediu a reintegração de posse, mas no começo de abril o desembargador Domingos Paludo, do Tribunal de Justiça, permitiu que os desabrigados permanecessem na área até que a prefeitura disponibilize novas moradias. O governo recorreu.

Os moradores, no entanto, afirmam que cansaram de esperar casas ou ajuda do poder público e querem a posse definitiva do terreno e das casas que construíram com seus próprios recursos.

Bailer explica que no terreno, ocupado em 19 de fevereiro, vivem cerca de 100 pessoas, sendo 50 crianças. As casas são de madeira fina, o chão é de barro e a vida é simples, mas cada unidade, que mede cerca de 200 m², tem luz elétrica e água encanada, as únicas despesas que os moradores têm por viverem ali. "As casas não são bonitas, mas o espaço entre elas é bom e é muito melhor que nos abrigos", diz.

Nos seis galpões mantidos pela prefeitura desde as chuvas do ano passado, 310 famílias - ou 1.200 pessoas - precisam se dividir em módulos de madeira improvisados, que medem 25 a 37 m². As divisórias são finas e não há teto. As reclamações de barulho são inevitáveis. Banheiros, cozinha e área de serviço são coletivos. "Por lá, molhou tudo de novo", conta Bailer.

Segundo a coordenadora geral de Moradias Provisórias da Secretaria de Assistência Social de Blumenau, Alessandra Fandaruff Bonelli, não há um prazo para essas pessoas deixarem os galpões. Ela diz que até o momento não houve registro de entrada de novas famílias atingidas pelas chuvas mais recentes, mas isso deve mudar com a força-tarefa da Central de Reconstrução.

Moacir de Souza reclama ainda que o dinheiro de doações, que foi depositado na conta da Defesa Civil durante a tragédia do ano passado, não foi revertido em benefício dos desabrigados. "O poder público atua na infraestrutura do município, mas não nos dá apoio. A prefeitura diz que usou o dinheiro para comprar dez terrenos para a construção de apartamentos, mas até hoje ninguém nunca viu nada. Recebemos auxilio-reação por seis meses, para pagar o aluguel, e só", reclama.

A Defesa Civil informa que os R$ 36 milhões arrecadados com doações foram usados no auxílio-reação, na compra de terrenos e em convênios com a Prefeitura de Blumenau. Outros R$ 2,7 milhões aguardam documentação dos municípios para serem repassados.

O governo federal liberou na época R$ 121,7 milhões para Santa Catarina, sendo R$ 116,1 milhões em forma de transferência direta para o Estado e o resto em ajuda humanitária.

Os apartamentos serão distribuídos por meio de programa habitacional do governo federal. A perspectiva é de que 1.000 unidades sejam entregues até março do ano que vem.

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