"Está todo mundo com medo", diz morador de Ilhota (SC), atingida novamente por chuvas

Ana Sachs
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Dez meses depois, a pequena Ilhota (a 112 km de Florianópolis) vive novamente o drama da chuva intensa, que deixou 47 mortos na cidade em novembro do ano passado. "Todos querem ir embora, estão desanimados. É calamidade mesmo, está todo mundo com medo, mas medo mesmo", disse Leoni Reinert, de 42 anos.
  • Arte UOL


Ilhota é uma das 57 cidades em estado de emergência em Santa Catarina por conta das chuvas dos últimos dias. Há 50 desabrigados e 122 desalojados na cidade.

Reinert foi um dos moradores afetados pela precipitação intensa em 2008. Seu rancho no Complexo do Baú, onde criava aves, suínos e gado, está interditado por risco de desabamento desde o ano passado. A cadeia de morros foi uma das mais afetadas pelas chuvas na época e, neste ano, volta a ser castigada. "Está chovendo feio, está começando a desabar tudo de novo. Já estão tirando as famílias. Algumas tinham saído no ano passado e depois voltado, e agora tem que sair de novo", contou.

Segundo a Defesa Civil de Santa Catarina, as pontes mais baixas na região do Complexo do Baú já foram arrastadas pela correnteza dos rios e 12 famílias estão isoladas. Outras ainda, pode ter que deixar suas casas. As recomendações foram feitas por equipes de geólogos, enviados pelo governo do Estado, que estiveram na região para análise do solo.

"Agora com essa chuva de novo, lá está ficando cada vez pior. Dizem que entre hoje para amanhã vai chover coisa de seis dias", afirmou. Choveu tanto no ano passado, que os técnicos da Defesa Civil disseram a Reinert que em menos de dois anos ele não poderia voltar para sua antiga casa. Com a nova onda de chuvas, esse prazo deve ficar ainda maior.

Meteorologistas: Sul não tem radares suficientes para prever fenômenos

Atingida por fenômenos climáticos extremos com frequência, a região Sul do Brasil não possui radares meteorológicos suficientes para cobrir todo o seu território, segundo meteorologistas entrevistados pelo UOL Notícias. Os radares são capazes de detectar com precisão a ocorrência de chuvas intensas, tempestades, tornados, ciclones, entre outros em um raio de até 200 km.



Após ser removido de seu rancho, Reinert passou três meses em um abrigo. Hoje, ele vive em uma casa alugada no bairro de Ilhotinha. A ajuda do Estado se limitou a seis parcelas para o aluguel. Depois, fico apenas a espera por uma nova casa, que ainda não saiu. "Foram seis parcelas do auxílio-reação e, depois, se vire quem puder."

Reinert conseguiu a doação de um terreno da prefeitura para construir uma nova casa. Segundo ele, um empresário de São Paulo estaria ajudando ainda com tijolos e dinheiro para fazer o aterro da casa. "Vamos aterrar para ficar mais alto, pois é um lugar baixo, pode ter enchente. Mas não adianta, ou vamos para o morro ou ficamos na água, onde deram o terreno."

Enquanto a nova casa não sai do chão, Reinert dá um jeito de pagar as contas com o salário mínimo que recebe - um cirurgia mal feita na perna o deixou incapacitado -, além da renda da esposa, que serve cafezinho na prefeitura. Um filho de 14 anos vive com eles. "Tem muita gente de aluguel ainda aqui. "Lá na minha casa a gente estava muito bem, mas a gente vai se virando", disse.

Em nove anos vivendo no Complexo do Baú, Reinert disse que nunca havia presenciado tanta chuva na região como no último ano. "Todo mundo estava bem ali. Nunca ninguém lá tinha passado por isso. Tem gente que nasceu no Baú, que vivia há mais de 80 anos na região e que nunca tinha presenciado algo assim", conta.

Mas mesmo com as novas chuvas, ele ainda espera voltar para sua antiga casa. "Eu tenho esperança de voltar ao Baú, eu comprei aquilo ali a prazo e ainda estou pagando as prestações. Quase nove meses, até agora não consegui fazer minha casa e ainda vivo de aluguel. Mas tem gente pior que eu", afirma.
  • Flávio Florido/UOL

    Leoni Reinert, em sua propriedade, seis meses depois dos temporais de 2008



Segundo do Ciram (Centro de Informações Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina), a chuva deu uma trégua nesta quinta-feira na região de Indaial, estação mais próxima de Ilhota. Mas não há como saber com certeza como está a situação na cidade, informou o centro. Segundo a meteorologista do Tempo Agora, Desirée Brandt, os temporais na região Sul devem continuar até 15 de novembro.

Mortes na região Sul
Ao todo, seis pessoas morreram na região Sul do país por conta das chuvas dos últimos dias - três em Santa Catarina e três no Rio Grande do Sul.

Mais de 11 mil pessoas tiveram que sair de casa em Santa Catarina nos últimos dias - 9043 desalojados (acolhidos em casas de amigos e parentes) e 2359 desabrigados (conduzidos a abrigos públicos) em 91 municípios. Aproximadamente 103 mil pessoas sofreram algum tipo de prejuízo no Estado, e entre elas 17 que ficaram feridas.

O Rio Grande do Sul contabiliza 200 desalojados, 300 desabrigados e 45.630 afetados pelas chuvas e ventos. Os fenômenos dos últimos dias deixaram 25 municípios em situação de emergência.

No Paraná, os temporais afetaram diretamente 9.616 pessoas em 29 municípios paranaenses. Há no Estado 776 desalojados e 555 desabrigados. Ao menos 1179 casas sofreram algum tipo de dano.

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