"Mães de maio" dizem que filme sobre PCC conta meia-verdade

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Noticias
Em São Vicente (SP)

A combinação de cinema nacional e realidade policial rendeu indicação para prêmios e muita polêmica nos últimos anos com "Carandiru", "Cidade de Deus", "Tropa de Elite" e "Última Parada 174". E não vai ser diferente com "Salve Geral - O Dia em que São Paulo parou", do diretor Sérgio Rezende, que estreia nesta sexta (2). Até as mães de vítimas do maio sangrento de 2006, pano de fundo do enredo, criticam o filme.
 



"Esse filme não mostra a matança sobre a sociedade civil. Pelo que li, a história termina no terceiro dia, na segunda, e as mortes continuaram por mais cinco dias", aponta Débora Maria da Silva, que preside a Associação de Amparo a Mães e Familiares Vítimas de Violência, que programou um protesto nesta sexta (2), às 18h, no Espaço Unibanco, na avenida Augusta (centro de São Paulo).

O grupo é mais conhecido pelo codinome "mães de maio", uma referência ao grupo familiares de vítimas mais conhecido mundialmente, "Madres de la Plaza de Mayo", que luta pela punição dos crimes da última ditadura na Argentina (1976-1983).

Aliás, a dimensão do que aconteceu na semana sangrenta no Estado de São Paulo é demonstrada se comparada com os números do regime militar brasileiro: foram assassinados a tiros 493 pessoas entre 12 e 20 de maio de 2006 em território paulista, enquanto 424 é o total de mortos e desaparecidos pela repressão da ditadura de 1964 a 1985.

O foco principal do filme, que é o indicado brasileiro para a lista final do Oscar de filme estrangeiro em 2010, é a relação entre mãe de classe média e filho presidiário, com ambos se envolvendo com uma facção criminosa que em tudo se parece com o PCC - até é chamada de "o Partido". "Ele não retrata a realidade das mães. Não me sinto representada", afirma Débora sobre o papel interpretado por Andréa Beltrão, que acaba ajudando a advogada da facção, e até se envolvendo sexualmente com um líder criminoso, inspirado em Marcos Herbas Camacho, o Marcola.
 

LÍDERES DO PCC VÃO À JÚRI

Para aumentar a temperatura do assunto, nesta quinta-feira (1º) começa o julgamento de Marcola e Júlio César de Moraes, o Julinho Carambola, pelo assassinato em 2003 de Antônio José Machado Dias, o então juiz-corregedor de Presidente Prudente - seja dito de passagem, esse caso também entra na trama de "Salve Geral" (veja vídeo ao lado).

Depois de ser alvo dos meios policiais, que, em blogs e entrevistas, apontaram desde parcialidade ou ingenuidade do diretor (a principal crítica é apresentar o PCC como defensor dos direitos dos presos e não como uma máfia, como apontam as autoridades locais).

O filme reproduz o tradicional tema da mater dolorosa (a produção anterior de Rezende, "Zuzu Angel" cercava o mesmo mote), mas a figura materna ficcional aceita sem pestanejar as regras do jogo de corrupção e violência. Já as "mães de maio" lutam para que esse estado de coisas mude.

"O problema é que as chacinas promovidas por encapuzados e esquadrões da morte continuam. Isso acontece porque não houve justiça", se queixa Vera Lucia de Freitas, mãe de Mateus, morto a tiros com 21 anos após voltar da escola em São Vicente, litoral paulista.

Junto com ele, foi alvejado seu colega de classe Ricardo Noronha, 17, que tinha acabado de passar em uma peneira do Santos Futebol Clube. "Era a paixão dele. Podia estar agora defendendo o Brasil, mas foi executado", afirma Débora, a líder do grupo santista.

O filho dela caiu primeiro. O gari Edson Rogério Silva dos Santos foi morto na mesma calçada que varreu na manhã do dia 15 de maio de 2006. Após ter sido detido por suposto envolvimento em assalto, ele tentava a reabilitação social. A passagem, contudo, decretou sua condenação à morte por um grupo usando toucas ninjas.

A semana sangrenta teve como estopim a transferência de prisão de vários líderes do PCC. Como retaliação, o grupo criminoso promoveu dezenas de rebeliões prisionais e execuções de agentes do Estado, que ficou a cargo dos indultados pelo Dia das Mães.

Um total de 43 policiais, bombeiros e carcereiros foram assassinados entre sábado e domingo. A reação veio ainda na noite do domingo e foi até o sábado seguinte e vitimou 450 civis, ou seja, dez para cada baixa das forças de segurança.
 

A GUERRA ENTRE PCC E ESTADO

A Ouvidoria da Polícia de São Paulo juntou indícios de atuação policial em grupos de extermínio, em um total de 54 casos com "características de execução sumária". "Os laudos mostram tiros de cima para baixo, com a mesma bala atravessando a mão e o crânio, o que aponta que a pessoa estava em posição defensiva. Além disso, os restos de pólvora em torno dos orifícios são típicos de que o assassino estava próximo", explica o ouvidor Luiz Dantas.

Outros casos suspeitos são as 48 ocorrências de "resistência seguida de morte", em que o PM estava em serviço e descreveu que matou após o suspeito não permitir a detenção. "Esse termo não existe na legislação. E o problema é que quem matou aparece no boletim como vítima e a pessoa morta ainda é incriminada", relata Dantas.

O ouvidor afirma que há indícios da participação policial nas chacinas. "Vários depoimentos falam que uma viatura policial passou pelos locais e identificaram pessoas minutos antes que carros pretos com encapuzados chegassem para executar", conta.

A líder das mães é mais taxativa. "Eu atribuo à PM a morte do meu filho", diz Débora, que pede indenização ao Estado, como receberam no ano passado os familiares dos policiais vitimados. Com a comprovação de que por trás das toucas estavam policiais, as mães usam o argumento de que o Estado não ofereceu segurança naquela semana para pedir reparação.

"O Estado não se aparelhou para frear aquela onda de violência. Já que o nexo policial é difícil de caracterizar, afinal, os autores estavam mascarados, as cápsulas de bala foram retiradas e os mortos levados a hospitais antes da chegada da perícia", diz a defensora pública Vânia Pereira, que está à frente de dois casos contra a Fazenda Pública.

A resposta padrão da Secretaria de Segurança Pública é que não há comprovação da presença de agentes do Estado nas ações. Por isso mesmo, não há espaço para pedido público de desculpa. Essa possibilidade se torna ainda mais remota porque o governo mudou de mãos e havia um governo interino à época (Geraldo Alckmin havia se lançado candidato à Presidência e deixou o governo paulista para Cláudio Lembo).
 

"A morte do meu filho foi um crime político. Era ano de eleição e os poderosos não podiam mostrar que não controlavam a situação. Matar nossos filhos foi a solução", desabafa Débora. Vendo que mais de 60% dos casos foram arquivados e nenhum apontou culpado, sua associação, junto com outras ONGs (organizações não-governamentais), já pediu a federalização das investigações e levou a questão a OEA (Organização dos Estados Americanos).

As mães que viraram ativistas sociais contam que a polícia continua pressionando para que a luta delas não vá à frente. "Eu já sofria todo o tipo de perseguição. No mês passado, fui presa por oito dias acusada de associação ao tráfico. Os PMs chegaram falando que 'não damos viagem perdida' e forjaram o flagrante", conta Ednalva Santos, mãe de Marcos Rebello Filho, 26 à época, um surfista e funcionário de papelaria em São Vicente que foi morto quando saía de uma lan house.

Nas manifestações que participam, as "mães de maio" pintam o rosto de branco e desenham uma lágrima vermelha. "Para quem fala que nós somos as mães de bandidinhos, a gente mostra nossa luta, arriscando a própria vida", afirma Ednalva.

A reportagem do UOL Notícias procurou as corporações, sindicatos e associações dos agentes públicos de segurança, mas todas responderam que os familiares de policiais, bombeiros e carcereiros mortos em maio de 2006 não quiseram se pronunciar sobre o assunto.

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