Paradoxo do Círio de Nazaré, gays da Festa da Chiquita roubam cena nas ruas de Belém

Pedro Alexandre Sanches
Especial para o UOL Notícias
Em Belém

O visitante neófito que chega a Belém do Pará para mais uma edição do Círio de Nazaré acredita a princípio estar na cidade mais religiosa do planeta. Objeto de adoração da festa católica, Nossa Senhora de Nazaré se espalha pela cidade a cada detalhe e em cada canto, em centenas de réplicas, em faixas de saudações, nas preces difundidas pelos alto-falantes, na boca de cada um dos estimados dois milhões de fiéis que peregrinam por Belém seguindo a imagem da santa pelas diversas procissões do segundo fim de semana de outubro.

Tanta devoção precisava ter um antídoto, e tem. Espremida entre duas gigantescas procissões, na madrugada do sábado para o domingo acontece a Festa da Chiquita, celebração de diversidade sexual que lota cada esquadro da grande praça da República, bem aos pés do imponente e tradicionalíssimo Teatro da Paz. O ponto de convergência é um palco de dois andares montado de frente para a avenida Presidente Vargas, um dos pontos-chave do trajeto feito pela santa antes e depois de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, simpatizantes e alguns antipatizantes chacoalharem a praça e a avenida.

  • Ricardo Lima/UOL

    Organizadores dançam no palco montado para a Festa Chiquita, que reúne público GLS durante a celebração religiosa do Círio de Nazaré; a festa é o lado profano da procissão que toma conta de Belém do Pará na segunda semana de outubro, quando mais de dois milhões de fiéis saem às ruas para homenagear Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira do Estado

Iniciado o ciclo católico, a imagem da santa entra em Belém no sábado pela manhã, de barco, em procissão fluvial pela Baía do Guajará. Na noite do sábado, acontece a trasladação, um "Círio invertido", em que a imagem é levada pelas ruas rumo à Catedral da Sé. Na manhã do domingo, ocorre o Círio propriamente dito: da Sé de volta para a Basílica de Nazaré. Assim que a santa atravessa a Presidente Vargas, por volta das 21h de sábado, o batuque ritual pagão toma conta do palco de luzes instalado ao lado do Teatro da Paz. Quando os fiéis voltam às ruas para o Círio, na madrugada de domingo, a população LGBT ainda está festejando, numa desconcertante mistura musical que inclui sons eletrônicos de boate, o carimbó do grupo tradicional Borboletas do Mar, MPB e muito tecnobrega.

"É o amor se fazendo em carne", celebra o coordenador da Chiquita há 31 anos, Eloi Iglesias, parodiando um dos lemas oficiais do Círio. Cantor profissional, ele inicia a Chiquita cantando Cazuza do alto de uma grua (o "sputgay"), vestido num figurino branco que une motivos carnavalescos, indígenas e de drag queens. "Mãe é mãe, e o resto é vaca", ele provoca, em relação ao slogan governamental-religioso "Pará de todas as Marias. Pelo palco se revezam, ao longo da madrugada, transformistas, DJs de tecnobrega, personalidades locais vencedoras do troféu Veado de Ouro, grupos folclóricos e a paraense honorária Fafá de Belém.

A Chiquita entra em êxtase quando o som na caixa é tecnomelody, uma inventiva panaceia de brega romântico antigo, música eletrônica de boate, jovem guarda, sons caribenhos e electro dos anos 90 e 2000. Após o grito de guerra de Iglesias de que "o brega é nosso!", a massa urra em uníssono refrões de discórdia amorosa como "cabô, cabô, bobeou, dançou/ você vacilou, vai colher tudo que plantou", mas, bem à moda da indústria artesanal que se formou em torno do tecnobrega, ninguém parece saber o nome desse ou daquele autor dos hits. A cantora transformista Roberta Rocha investe numa vertente gay do tecnomelody e sacode a plateia cantando "eu quero dar, eu quero dar, eu quero dar, eu quero dar só pra você/ castanha do Pará".

Mas a mistura vai bem além do tecnobrega - o tecnopop de Lady Gaga faz sucesso nas picapes de DJs anunciados como "o fenômeno LGBT". Iglesias canta Cazuza e Roberto Carlos (este, de "Nossa Senhora" e "Jesus Cristo" a "Amor Perfeito" em versão profana, é onipresente no Círio). A transformista Magda Strass dubla Gal Costa em fase pop brega ("Sou Mais Eu") e uma versão de Claudia para "Ave Maria do Morro", sucesso ancestral de Dalva de Oliveira.

Defendendo preceitos opostos aos da Igreja Católica, a Chiquita permanece incômoda até hoje para as autoridades eclesiásticas, que não a reconhecem como integrante da extensa programação do Círio.

O pique de escracho percorre toda a festa, mas tem de conviver com tom de crescente politização. Iglesias e convidados explicam em detalhes o que é homofobia e discorrem sobre as dificuldades vencidas, em confrontos com evangélicos, pelas paradas gays do interior paraense, em cidades como São João de Pirabas, Marudá e Marapanim. O coordenador LGBT de uma delas divulga uma marcha ambiental que vai acontecer, pede "um país e um Pará sem racismo nem homofobia" e se emociona: "Tenho orgulho de ser negro e de ser homossexual".

Nos gramados e passarelas da praça da República, a mistura é vertiginosa. Uma faixa pregada às árvores dá o tom: "Baratão das Calcinhas saúda a Virgem de Nazaré". Skatistas de tranças rastafári acompanham shows de reggae em palco à parte. Senhoras de saias comportadas cruzam com "infiéis" de cabelo moicano. Casais heterossexuais passeiam de mãos dadas entre travestis e beijos gays de rapazes musculosos.

Iglesias se irrita com alguma violência avistada do alto do palco e puxa vaias contra os que, mesmo dentro da Chiquita, não entendem o espírito democrático da festa anticatólica (o que não significa que muitos de seus participantes não frequentem igualmente as procissões religiosas). E não suspende jamais as provocações: "Gay é que nem geladeira e fogão, toda casa tem um".

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