Rota completa 39 anos fugindo do estigma de "polícia que mata"; conheça os túneis do batalhão em SP

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Mocinho ou bandido? Durante anos, a Rota ficou conhecida em São Paulo como a polícia que mata antes, para perguntar depois. É fugindo desse rótulo que as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar completaram 39 anos de existência nesta quinta-feira (15), com direito a solenidade e churrasco aos familiares e amigos dos policiais militares, que, com orgulho, desfilaram suas boinas negras pelo 1º Batalhão de Policiamento de Choque Tobias de Aguiar, na avenida Tiradentes, centro da capital.

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Por trás das palmas para as medalhas entregues aos membros da tropa reserva do Comando Geral da Polícia Militar do Estado, ainda é possível ouvir que os bons tempos da patrulha eram quando tinha quatro ou cinco "derrubadas", a gíria para mortes de bandidos. Mas são tempos que ninguém confirma terem existido ou, se existiram, melhor não lembrar.
  • Roberto Setton/UOL

    A Rota completou 39 anos de existência nesta quinta (15). A divisão foi criada em 1970 como tropa de apoio no combate a assaltos a banco no centro de São Paulo. O UOL Notícias visitou os túneis do 1º Batalhão de Polícia de Choque, no centro da capital paulista; confira as fotos

"Meu pai me disse para respeitar o cidadão de bem, que paga o nosso salário, é uma cartilha", diz Salvador D'Aquino Junior, 35, que leva o nome daquele que fundou a Rota em 1970. Orgulhoso, ele conta que, em dezembro, finalmente um busto no pátio do quartel vai simbolizar o criador da tropa, e defende sua atuação. "Não tem essa história de atirar primeiro para perguntar depois não. É modo de falar. Ela é violenta com quem tem que ser violenta", conta ele, que não é policial, mas fez amigos lá graças à profissão do pai.

Viaturas andam em círculos com a sirene ligada para celebrar o aniversário da Rota



Mística da Rota ou
enfrentamento sem excessos

A mesma defesa faz o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto. Ele nega que o índice de letalidade da polícia tenha aumentado depois que o efetivo da Rota nas ruas foi ampliado.

"Não vejo nenhum paralelo nisso. Sempre que houver necessidade, é uma tropa muito preparada em que eu confio plenamente. O crime está cada vez mais violento, as ações são muito mais ousadas, o enfrentamento é constante e a letalidade é uma decorrência do enfrentamento. Não de um exagero, de qualquer ação mais contundente da Rota, e sim, de um enfrentamento que é uma opção dos bandidos", afirma.

"O secretário fala hoje em resgate da dignidade, mas quem tirou isso da Rota foram os governos. Não foi o perfil da Rota que mudou, e sim, o do governo. Os oficiais de praça da Rota trabalham em nome da lei, são legalistas. As administrações colocavam tropa na frente de escola, em jogo de futebol, quando a destinação de uma força especial tática com essa característica é para o enfrentamento", avalia deputado estadual Major Olímpio (PDT), que serviu na Polícia Militar por 29 anos.
  • Roberto Setton/UOL
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    Criado em 1891, o Batalhão Tobias de Aguiar possui túneis subterrâneos, que já serviram como rota de fuga, caso houvesse uma invasão, ligação com quartéis vizinhos, treinamento e como celas para prisioneiros



Para Olímpio, criou-se uma mística sobre a Rota, mas ele diz que é um grupamento que tem todas as suas ações padronizadas. Qualquer comparação ao Bope (Batalhão de Operações Especiais) do Rio de Janeiro, levada ao mundo pelo filme "Tropa de Elite", para ele, é meramente ingênua. "Eu fui instrutor de aula de tiro lá. O RJ é um mundo à parte. Aqui, o treinamento é muito mais avançado e racional."

O secretário da Segurança afirma ainda que se trata de uma tropa "diferenciada, profissional". "As várias operações foram feitas [recentemente] pela Rota sem nenhum excesso", referindo-se à prisão de 24 suspeitos de envolvimento com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), em abril deste ano. "Houve inclusive uma incursão numa favela em que os marginais atiraram, e a Rota conseguiu prender vários traficantes sem disparar nenhum tiro. Isso mostra o profissionalismo que era o que eu dizia quando o coronel Telhada assumiu. Eu queria uma Rota eficiente, mas dentro da legalidade", completa.

O tenente coronel Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, no comando da Rota desde maio, é nome elogiado dentro do grupamento, pela experiência e por conhecer a história e os membros da tropa. "Colocar comandante de direitos humanos aqui é como colocar anjo trabalhando para o diabo, padre trabalhando no bordel. Não adianta", versa um dos comentários na festa sobre um comandante anterior, de autor que prefere não ser identificado.

Ganhando respeito
A Rota começou como uma ronda bancária nos anos 70, para ajudar a coibir assaltos a banco no centro da cidade. Salvador D'Aquino teve a ideia de destinar uma parte do batalhão, que não ia para as ruas, só fazia treinamento, para combater a onda de assaltos. "Os policiais chegavam em Veraneios, em seis, armados. Por isso causavam aquela impressão que gerava respeito", diz o 1º tenente Gerson Pelegati.

Ele explica que a Rota é chamada para o controle de distúrbios civis apenas em último caso. Ela tem um maior número de homens treinados especialmente para o combate de ocorrências de roubo, tráfico de entorpecentes, armas e extorsão mediante sequestro. "Esse é o nosso filé", diz. É uma das quatro forças do batalhão que, em sua totalidade, também realiza escoltas especiais para presidentes e autoridades, presos perigosos, armamento e de grande quantidade de dinheiro do Banco Central.

Em relação ao estigma de "terror dos bandidos", o tenente, há 13 anos na polícia, sete em relações públicas, diz que sempre lhe fazem essa pergunta. "Eu digo que somos uma polícia muito bem treinada." Segundo ele, a rota trabalha em três turnos (matutino, vespertino e noturno) de 12 horas. Destas, três são de treinamento. "Se o bandido chega atirando, nós entendemos que ele quer ganhar tempo para se evadir. Então, nós estamos preparados para revidar se for preciso. A comunidade do bem tem confiança na gente."
  • Roberto Setton/UOL

    O registro de identidade do fundador da Rota, Salvador D'Aquino, que é carregado na carteira pelo filho. "Não tem essa história de atirar primeiro para perguntar depois não. É modo de falar. Ela é violenta [a Rota] com quem tem que ser violenta", afirma Salvador D'Aquino Junior



E a estratégia começa na hora de não revelar o efetivo atual. "Fica no mistério para a bandidagem não saber". Nesse momento, o tenente é interrompido por dois jovens que o cumprimentam em meio à festividade. "Esse ano é Barro Branco [Academia da Polícia Militar]", dizem. "É difícil, tem que estudar bastante e não desistir se não passar de primeira", responde.

Porões da história
É Pelegati quem mostra à reportagem do UOL Notícias a entrada para os túneis subterrâneos que, parte da construção de 1891, serviam como rota de fuga, caso houvesse uma invasão, ligação com quartéis vizinhos, treinamento e como celas para prisioneiros. Inclusive de castigo aos soldados que cometiam infrações.

"Muitos perguntam se eram presos políticos, mas não eram. Nós não temos nem registro de quem eram esses presos. Eram os homens maus da época, porque não havia marginais como os de agora. Hoje, esses túneis não são mais usados. São salas para guardar material de logística e, aos finais de semana, são abertos para visitação", diz.

São 300 metros de túneis que circundam o batalhão, ligando-o à Cavalaria e também até onde é hoje a Nossa Caixa, local que já foi um presídio. À visitação, estão abertos 40 metros. O restante foi fechado porque não havia como fazer manutenção e também em razão da construção do metrô. "Sempre se perdem um ou dois aqui, mas dentro de três dias a gente consegue localizar todo mundo", brinca.

Ataques do PCC em 2006

Também na solenidade, o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, afirmou que agiria da mesma maneira que seu antecessor Saulo de Castro durante a onda de ataques atribuídos à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) em maio de 2006, em São Paulo. "Responderia da mesma forma, sem dúvida alguma. Naquela oportunidade, não houve nenhum excesso, a resposta da Polícia Militar foi adequada, profissional, enérgica como deveria ser diante da forma desafiadora como a criminalidade se mantinha, se portava, e vocês podem constatar que não havia nenhum excesso. Hoje, agiríamos com o mesmo rigor", afirmou



Rato, baratas, aranhas e morcegos habitam os corredores iluminados com candelabros de mais de 100 anos, agora com lâmpadas em vez de tochas, o que facilita a visitação. No final de uma das alas, o arco final foi fechado recentemente, mas uma pequena passagem estreita mostra uma luz no fim do túnel que daria na Cavalaria. "Aqui é o único lugar do mundo onde tem luz no fim do túnel", diz o tenente. Isso por causa de um incêndio em 2004 em que se perdeu uma parte do quartel, abrindo uma passagem de luz na penumbra dos porões.

"Já houve pedidos para fazer filmes e até desfile de modas aqui", conta Pelegati, que nos leva ainda ao salão nobre, onde está a maquete do batalhão. Na saída, outro policial chega para visitar a sala, que hoje estava aberta ao público. "É uma história triste a dessa maquete. O policial que fez tem um filho, que entrou para o crime. É muito difícil para a gente, que educa, ver essas coisas acontecerem, mas acontecem", lamenta, e volta para a festa.

No pátio, é hora do parabéns. Mais de cem pessoas se reúnem para festejar os anos da Rota, a homenageada do dia. "Se fizer uma enquete para ver quem respeita a Rota, vai dar 100%. Meu pai, no fim da vida, sempre acompanhava as ações pela televisão. Era que nem um filho, que o pai gosta de ver crescer", diz D'Aquino. E uma canção encerra a comemoração daqueles que admiram aquela que é considerada uma das polícias mais controversas do país: "Rá, tim, bum, Rota, Rota, Rota!"

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