Atlas reúne informações sobre os cem anos em que São Paulo mais recebeu imigrantes

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

De 1850 a 1950, a história do Brasil registrou o fim do tráfico negreiro, a abolição da escravidão, a proclamação da República e o início do processo de industrialização do país.

Essas mudanças históricas foram acompanhadas por uma intensa mudança no perfil étnico da população brasileira - e, em especial, da paulista, com uma intensa entrada de imigrantes estrangeiros, recrutados para atuar como mão-de-obra, essencialmente.

O "Atlas da Imigração Internacional em São Paulo" (Editora Unesp), recentemente lançado, reúne uma série de informações antes dispersas sobre este processo, permitindo compreender melhor como ele ocorreu.

O atlas é assinado pelos pesquisadores Maria Silvia C. Beozzo Bassanei, Ana Silvia Volpi Scott, Carlos de Almeida Prado Bacellar e Oswaldo Mário Serra Truzzi.

  • Fonte: Atlas da Imigração Internacional em São Paulo 1850-1950
  • Fonte: Atlas da Imigração Internacional em São Paulo 1850-1950
Um dado apresentado pela obra mostra que, entre as últimas décadas do século 19 e o início dos anos 1970, São Paulo recebeu 2,8 milhões de imigrantes, do total de 5 milhões de estrangeiros que ingressaram no país.

Além de ser o Estado que mais recebeu imigrantes no período, numericamente, São Paulo conheceu um processo diferente do que o ocorrido em outras unidades da federação.

Enquanto no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo, outros Estados com forte presença imigrante, a regra foi a distribuição de pequenas propriedades para os novos habitantes do país, em São Paulo predominou a imigração para suprir mão-de-obra para a grande lavoura cafeeira, explica Oswaldo Truzzi, sociólogo e professor da Universidade Federal de São Carlos.

Assim, a presença do imigrante, como escreve o também sociólogo José de Souza Martins na apresentação do trabalho, levou o "tecido social paulista" a tomar uma "feição própria, singular no contexto nacional".

"No esquema mais convencional, os imigrantes estrangeiros, após uma viagem dura, que podia durar até quatro semanas, eram desembarcados no porto de Santos e trazidos de trem à Hospedaria dos Imigrantes, na capital paulista. Lá, em geral, permaneciam alguns dias, para serem contratados por agentes de fazendeiros que os acompanhavam diretamente às fazendas do interior do Estado", conta Martins.

Como São Paulo representou o principal centro de recepção de estrangeiros durante o período, o livro acaba dando também um bom painel da imigração para o Brasil.

Mas o fundamental do livro não é a descrição do processo migratório, mas os números que estão por trás dele. É possível acompanhar a mudança no perfil dos estrangeiros, majoritariamente homens no início, e sobretudo italianos, para um quadro mais equilibrado e multiétnico, com grande número de espanhóis e portugueses, por exemplo.

Os números, recolhidos de censos e estatísticas agrícolas do governo de São Paulo, não são, no entanto, sempre precisos - eles são suscetíveis a mudanças de métodos e mesmo a interpretações de mudanças de legislação.

  • Dados de agosto de 2009
Um exemplo, registram os autores, é o recenseamento de 1890. "A apuração dos estrangeiros ficou muito afetada pelas apressadas interpretações das normas do novo governo republicado referentes à naturalização".

De acordo com um decreto do governo republicano, deveriam ser considerados cidadão brasileiros os estrangeiros que já residiam no Brasil em 15 de novembro de 1889, salvo declaração em contrário. O resultado é que no município de Rio Claro, exemplifica a obra, foram contados 89 estrangeiros no quadro "nacionalidade". Já no quadro "instrução", o censo de 1890 registra 574 estrangeiros que sabiam ler e escrever.

O livro traz também mapas que ilustram o avançar da presença imigrante no Estado e informações sobre a propriedade de terra por estrangeiros - o que equivale, em boa medida, a dizer terra na mão de pequenos proprietários - na primeira metade do século 20.

Textos da época, fotografias e interpretações dos autores ajudam a entender o significado e a evolução do processo.

Atualmente, vivem no país cerca de 900 mil estrangeiros. Entre os grupos significativos, estão coreanos e bolivianos - uma imigração que é, em boa medida, posterior ao período analisado, atraída não mais pelo trabalho no campo, mas pelo urbano.

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