"Perigóticas" invadem a cena dark e fazem seu Carnaval sombrio

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Morcegos me mordam: as periguetes do gótico existem. Todos os garotos de preto já viram as "perigóticas", muitos já se atracaram com uma. Todas meninas dark conhecem o comportamento delas, mas nenhuma aceita o rótulo.
 


Esta é mais uma aclimatação do país que colocou o punk de chinelo e misturou o heavy metal com umbanda. A gíria periguete (ou piriguete) surgiu na Bahia para definir as garotas de alta rotatividade nos blocos e micaretas. A expressão migrou para o funk carioca, e a figurinha fácil ganhou letra pouco elogiosa. E ela agora desembarcou no mundo sombrio.

"O som gótico mudou, as pessoas mudaram. Com a internet e as páginas de relacionamento, ficou fácil entrar nesse mundo, saber das festas. Por isso, surgiram essas garotas que pouco se importam com a música. O que elas querem é ir à caça", define Luciana Campos, toda revestida com um vinil preto, colante e cheio de tachinhas, para se apresentar em banda de gothic metal.

Luciana está na entrada da balada chamada "Infernéticas, a Noite das Diabinhas", que oferece desconto para a menina que for paramentada com chifre, rabo e asas satânicas. O local, um antigo inferninho, oferece até o escurinho de um dark room para os darks mais afoitos.

Enquanto o Madame Satã, QG do movimento desde anos 80, está lacrado e cimentado pela Prefeitura paulistana, várias festas góticas se espalham pelas ruas escuras do centro. Umas pendem para o sexo, incluindo performances tórridas no palco. Outras têm referência terrorífica, como vampiros, carrascos medievais e seres com íris brancas.
 

  • Arte UOL

    Os flyers das festas eróticas da cena gótica anunciam descontos para as garotas ousadas

Ficou célebre na net a festa "Pirigótikas", que prometia entrada vip e bebida grátis para a garota fosse sem calcinha. O flyer, com quatro mortícias de roupas diminutas, correu a rede digital, mas a balada mesmo não pegou.

"Não deu certo porque as garotas acharam o nome muito pejorativo. Eu fui, mas a pista ficou vazia", confessa Ana Paula Gimenez, portando chifrinhos luminosos entre os cabelos.

O movimento gótico ou dark teve início na virada dos anos 70 para os 80, misturando as músicas mais soturnas do pós-punk britânico, vestimenta escura, referências esotéricas e ideário da literatura romântica.

Hoje em dia, esse gótico dos grupos Bauhaus, Sisters of Mercy ou Siouxsie and The Banshees é chamado de "old school" ou tradicional, enquanto a cena fica cada vez mais eclética, incluindo o gothic metal, a gothic rave, o gothabilly, o eletrônico macabro EBM e o rock industrial.

E no meio dessa salada surgiu até a figura da periguete macabra. "O gótico é um guarda-chuva de estilos. Embaixo dele cabe até essas garotinhas fetichistas chamadas de perigóticas", teoriza Cáhh Manson, nome artístico do vocalista do Mechanical Animals, que toca covers do andrógeno Marilyn Manson.

Vestida de espartilho e meia arrastão, Kaline Sousa também critica a miscelânia dentro do grupo. "Essas baladas com temática sexual é para atrair mais público. As mulheres vão montadas porque ganham desconto na entrada. Os caras são atraídos pela temática sexy. Hoje em dia, o gótico é uma mistureba. Entra até essa periguete do mal", aponta Kaline.

Outras freqüentadoras das festas concordam com ela. "É uma mina que só pensa na pegação. O gótico sempre teve um lado sensual, mas isso não é motivo para apelar", afirma Diane Lopes.
 

  • Reprodução

    A banda inglesa Bauhaus virou ícone do gótico dos anos 80 com a música "Bela Lugosi Is Dead"

Já Nice Gonzaga está mais preocupada com o marido, que dá assistência no sistema de som das festas. "Se eu pudesse, torcia o pescoço de cada uma. Elas são muito atiradas", desabafa.

Pesquisadora de antropologia urbana da USP (Universidade de São Paulo), Raquel Basilone também aponta essa relação entre o circuito dark é a sensualidade.

"O visual fetichista sempre esteve presente no gótico. Herdou do punk uma postura hedonista com a vida, e de certa maneira refinou-o. Fica bastante claro nos visuais que o prazer exaltado é também o sexual", afirma a estudiosa de grupos jovens.

"Mas não é uma vulgaridade gratuita, mas sim crítica ao valor repressivo imposto pela sociedade, e talvez por um modo de celebração da finitude da vida, já que a morte é temática recorrente em letras de músicas", completa Raquel, que desenvolve pesquisa sobre a cena black metal, que converge em alguns valores com setores do góticos - um exemplo são as manifestações de repúdio ao cristianismo.

No estereotipo popular, o gótico é o sujeito que frequenta os cemitérios à noite e se veste como um membro a família Addams. As perigóticas seriam as criaturas hormonais desse clã . Tudo que começa como tragédia termina como comédia.

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