Rio vive crise no sistema ferroviário; serviço está muito aquém de sua capacidade, diz especialista

Marina Lemle
Especial para o UOL Notícias
No Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro enfrenta neste mês o que parece ser o ápice de um descaso de anos em relação à sua malha férrea. Passageiros insatisfeitos e forças policiais protagonizaram cenas de violência nas últimas semanas, que culminaram na paralisação das composições em algumas estações e muito transtorno a quem depende do meio de transporte para se locomover diariamente. Em protestos que acabaram em confusão, usuários reclamaram de falta de trens, constantes atrasos, problemas técnicos e da infraestrutura do transporte sob trilhos fluminense.

Raio-x dos trens do Rio

Viagens por dia716
Capacidade estimada 1 milhão de passageiros/dia
Horário de maior movimentodas 6h às 9h e das 17h às 20h
Preço da passagemR$ 2,50
Extensão da malha ferroviária de serviços225 km
Número de carros em circulação525
Número de estações89
Municípios atendidosRio de Janeiro, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Nilópolis, Mesquita, Queimados, São João de Meriti, Belford Roxo, Japeri, Paracambi e Magé
Na década de 1980, o sistema ferroviário metropolitano do Rio de Janeiro chegou a transportar 600 mil passageiros, com picos de um milhão. Em 1998, quando foi entregue à atual concessionária SuperVia, transportava apenas 150 mil. O número de usuários foi caindo à medida que o Estado não lhe deu a devida atenção. Hoje, o sistema se recuperou e atende a quase 500 mil pessoas, mas mesmo assim funciona muito aquém da sua capacidade. A avaliação é do professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ Hostílio Xavier Ratton Neto.

O sistema tem 225 km de via férrea, 89 estações e cobre 11 municípios. De acordo com o professor, a cobertura geográfica da malha é muito boa, atingindo toda a região norte e parte da centro-oeste da região metropolitana, mas faltam investimentos no serviço.

"É um dos maiores sistemas do mundo, que poderia funcionar melhor se houvesse mais trens, com um sistema de sinalização melhor, mais segurança e intervalos menores, como um trem a cada 3 minutos, em vez de 10", sugere.

O engenheiro lembra que os projetos originais da época da concessão previam 1,5 milhão de passageiros ainda no início da década. "O sistema ferroviário do Rio de Janeiro tradicionalmente não tem recebido aportes financeiros, recursos materiais e humanos para garantir a qualidade dos serviços. São necessários não apenas mais trens, mas equipamentos, trilhos, manutenção e tudo que não foi feito ao longo dos tempos", afirma.

Segundo o professor, quem tem de investir é o governo, já que o sistema lhe pertence. "A SuperVia não tem obrigação de investir e vai ter que tirar leite de pedra. Ela já recuperou o sistema, mas ainda está muito aquém. O Estado é que não assume", critica.

Problemas sob os trilhos

  • Rafael Andrade/Folha Imagem

    Passageiros são vistos perto de cancelas de embarque que foram destruídas durante protesto na estação de trens de Nilópolis, na baixada fluminense; 11 ficaram feridos

  • Reprodução de TV

    Manifestantes protestaram na linha do trem em Nilópolis (RJ), depois que um problema operacional causou atrasos na manhã do dia 7 de outubro

O secretário de Transportes, Júlio Lopes, negou que o sistema funcione abaixo de sua capacidade. "Ele está dentro de sua capacidade. O que não está como queremos é a qualidade da prestação de serviço ao usuário. A capacidade é compatível com a quantidade, mas precisaríamos ter mais trens para dar um serviço melhor", disse ao UOL Notícias.

De acordo com a assessoria da SuperVia, não faltam trens. Os atuais 159 teriam capacidade para atender ainda mais do que 500 mil passageiros por dia. A empresa informa que, em 10 anos de administração do sistema ferroviário, investiu mais de R$ 500 milhões em reformas de trens e estações e infraestrutura, melhorando significativamente a pontualidade (de 27% para 92%) e regularidade do serviço (99% atualmente). Estas melhorias teriam permitido a triplicação do número de passageiros transportados.

A passageira Regina Lúcia de Souza, que usa o serviço todos os dias, discorda de que não sejam necessários mais trens. "Devia haver mais trens. O tempo é muito grande entre um carro e outro: meia hora em dia de semana e uma hora no fim de semana. E a passagem é muito cara, principalmente para quem vai em pé. Além disso, falta segurança. É preciso fechar as portas para o trem andar, mas tem gente que não respeita. Devia haver seguranças nas portas".

O mecânico têxtil Osirley Martins de Amorim também pega o trem todos os dias, de Paracambi até a Central. Ele sente falta de melhor informação aos usuários, mais segurança e mais carros. "Os seguranças são muito abusados e marrentos com a gente. E precisa de mais trens na hora do pico, a partir de três da manhã. Às quatro, a gente já vem igual na lata de sardinha, espremido, um trepado por cima do outro", conta.

Na primeira revisão quinquenal, finalizada em dezembro de 2008, a Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Aquaviários, Ferroviários, Metroviários e Rodovias do Estado do Rio de Janeiro (Agetransp) recomendou que o Estado e a concessionária chegassem a entendimentos para investir na instalação de sistemas de sinalização e controle de tráfego, de modo a garantir uma maior segurança na circulação de trens e, consequentemente, minimizar as possibilidade de acidentes por falha humana, que geram grande transtorno operacional e risco para os usuários. O Conselho Diretor da Agetransp autorizou, em 22 de setembro, a contratação de serviço especializado para avaliação completa do sistema de sinalização e controle do tráfego ferroviário.

Copa, Olimpíadas e renovação do contrato
Governo e concessionária já focam os dois próximos eventos esportivos - Copa do Mundo e Olimpíadas - para tocar novos projetos em relação à malha férrea. O relatório do Comitê Olímpico Internacional (COI) a respeito da candidatura do Rio para as Olimpíadas de 2016 apontou o transporte como ponto fraco da cidade.

"Em 30 dias teremos um novo planejamento fechado. Esperamos ter uma qualificação grande no serviço de trens. Queremos chegar a 2014 e às Olimpíadas de 2016 trabalhando com intervalos reduzidos entre trens, com característica de serviço metroviário. Muitos investimentos estão sendo feitos e muitos ainda serão", enfatizou o secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, durante inauguração de um trem reformado na estação Central do Brasil, palco dos últimos conflitos entre passageiros e policiais. O custo da reforma foi de R$ 2,8 milhões.

No evento, Lopes e Amin Murad, presidente da concessionária SuperVia, falaram dos investimentos previstos na malha férrea. "Serão comprados 60 novos trens. Já compramos 30, que estão sendo fabricados na China e deverão chegar em dezembro de 2010. Não há como adquirir trens para pronto uso. Esta foi a licitação mais rápida e de melhor preço que tivemos no Brasil nos últimos anos", disse o secretário.

Lopes também informou que os 30 novos trens custaram US$ 200 milhões. Segundo Murad, presidente da concessionária, o acordo com o governo prevê que até 2015 todos os trens tenham ar-condicionado. Hoje, dos 525 veículos, apenas 36 têm a ventilação.

De acordo com a empresa, a meta é transportar 1 milhão de passageiros por dia útil até 2015 e 1,5 milhão até 2023, ano em que se encerra o contrato de concessão, cuja renovação já está sendo discutida.
  • Divulgação

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