Falta dar atenção ao patrimônio rural, diz especialista, sobre o lançamento do PAC das cidades históricas

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Ao lado de Dilma e Aécio, Lula lança PAC de revitalização das cidades históricas

Para o arquiteto e urbanista Eduardo Carlos Pereira, o PAC das Cidades Históricas é bem vindo, mas falta ainda ao país um programa que dê conta dos patrimônios rurais e agroindustriais e paisagísticos.

O plano, lançado hoje pelo governo federal, levará R$ 140 milhões em investimentos a 32 cidades históricas até o fim deste ano. O governo planeja financiar a recuperação de 5.200 imóveis privados e de 200 monumentos e imóveis públicos.

As cidades do PAC

EstadoCidades
AlagoasMarechal Deodoro, Penedo e Piranhas
BahiaCachoeira, Cairu e Salvador
CearáIcó, Sobral e Viçosa
GoiásPirenópolis
MaranhãoSão Luís
Minas GeraisBelo Horizonte, Diamantina, Ouro Preto e São João del Rei
Mato Grosso do SulCorumbá
ParáBelém
ParaíbaAreia e João Pessoa
PernambucoOlinda, Recife e Serinhaém
PiauíParnaíba e Pedro 2º
Rio de JaneiroRio de Janeiro
Rio Grande do NorteNatal
Santa CatarinaLaguna e São Francisco do Sul
São PauloSantos
SergipeSão Cristóvão
Outras 141 cidades integrarão o programa até o fim de 2012.

"Temos que comemorar este programa", diz Pereira, coordenador do grupo de trabalho do Patrimônio Histórico do IAB-SP (Instituto dos Arquitetos do Brasil-São Paulo). Mas, ressalva ele, o patrimônio histórico, para os governos, acaba sendo "sempre urbano". Na sua opinião, o país deveria com urgência dar atenção às fazendas de café no interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. "O novo programa não contempla as fazendas de café brasileiras. Elas são um conjunto que podem ser consideradas patrimônios da humanidade."

Pereira, também coordenador de Patrimônio Histórico da 8ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, cita o caso de Cuba, onde o café tem um papel histórico menos importante para a história do país do que no Brasil, mas que teve suas fazendas reconhecidas pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura).

Ainda segundo ele, um problema hoje no país é a "gestão desigual" dos patrimônios. "Vi pessoalmente os casos de Laranjeiras (SE), São Cristóvão (SE) e Olinda (PE), que são referências para o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Paradoxalmente, temos o descaso com Iguape (SP), em que ocorre o oposto. É um problema de gestão? Lembro que Iguape é patrimônio da humanidade desde 1999."

Recentemente, ocorreu o desabamento total da cobertura do Sobrado dos Toledos. O prédio, levantado em estilo neoclássico, no século 19, é um dos principais prédios tombados da cidade fundada no século 16. O fato levou o arquiteto Carlos Lemos a escrever o artigo "Desastre anunciado em Iguape", publicado pela Folha de S.Paulo.

Além disso, ele afirma que o programa de financiamento não está bem resolvido. "Mandar toda a conta para o proprietário nem sempre funciona", diz, citando um caso de São Paulo, em que apenas 3 dos donos de 25 casas de uma vila aderiram a um plano de financiamento. Em Nova York, compara, há um programa em que uma comissão avalia casos específicos, verificando a capacidade pagamento dos proprietários, a forma de realizar a manutenção e busca a fonte de recursos.

"Estamos vivendo um momento de certa transformação. O patrimônio está deixando de ser um nicho de mercado de arquitetos e restauradores. Antes, havia uma espécie de endeusamento", diz Fernando Atique, doutor em história e fundamentos da arquitetura pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).

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  • Douglas Nascimento/Divulgação

    Detalhe de palacete paulistano

"Casos como o de Ouro Preto (MG), que quase perdeu o título de Patrimônio da Humanidade, e do bairro da Luz, em São Paulo, aproximaram a questão da população."

Ele cita ainda o impacto econômico, positivo ou negativo, que a renovação de áreas pode trazer a comerciantes, por exemplo, e a exploração do turismo como fatores que ajudaram a tirar o assunto do nicho. "O impacto disso sobre a preservação de fato do patrimônio nós vamos poder medir daqui a uma década", completa.

Segundo ele, o descaso com patrimônio histórico tem levado governantes a terem de responder na Justiça. "A omissão tem gerado processos complicados para os gestores públicos. Nesse sentido, tem sido gerada uma pressão positiva de prefeitos e governadores por verbas", explica, para justificar o interesse político de programas de preservação.

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