Assimilamos níveis de barbárie cada vez maiores, diz especialista

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

O uso da violência alcançou uma proporção tão exagerada no Rio de Janeiro que passamos a achar natural e inevitável que um corpo seja colocado em um carrinho de supermercado e exposto no meio da rua. A análise é do coordenador do Observatório de Favelas, Jailson de Souza, que culpa a corrida armamentista --tanto dos criminosos, quanto da polícia-- pela situação de guerra que a cidade enfrenta hoje.

"Não é a primeira vez que isso acontece. O que vemos é uma superação dos limites e um recrudescimento da violência. Vamos assimilando níveis de barbárie cada vez maiores. Desta vez, um helicóptero foi derrubado. Vai chegar o dia em que um caveirão será destruído pelos criminosos", disse, comentando os conflitos que resultaram na queda de um helicóptero da PM no sábado (17).

Na tarde desta terça-feira (20), o corpo de um homem não identificado, executado com tiros, foi encontrado dentro de um carrinho de supermercado em um dos acessos ao morro dos Macacos, palco de intensos confrontos entre facções rivais que disputam pontos de venda de drogas. Segundo moradores, o morto seria um criminoso ligado ao Comando Vermelho (CV).

Souza lembrou que em maio de 2004, um pai usou um carrinho de supermercado para levar o corpo de seu filho de 14 anos até o pé do morro do Zinco, na zona central do Rio. Um mês antes, o corpo de um suposto traficante morto em confronto com a polícia na Rocinha, na zona sul, foi carregado em um carrinho de mão.

Corrida armamentista
O especialista afirma que enquanto não colocarem um fim à política bélica, dos agentes se armarem cada vez mais para enfrentar pessoas também cada vez mais armadas, nenhum problema será resolvido e a situação no Rio de Janeiro só vai piorar.

"Desde a década de 80, a polícia insiste nisso e o número de mortos só cresce. Temos 6.000 mortes todos os anos no Rio. O número de desaparecidos aumentou de 4.000 para 9.000 em cinco anos. Isso significa que muitas pessoas foram assassinadas e tiveram o corpo ocultado pelos criminosos", destaca.

Segundo ele, o primeiro passo para que as coisas mudem é reconhecer que esse é um modelo falido. "Depois, a polícia precisa agir com inteligência e prevenir os problemas, prender os líderes do crime e desarticular permanentemente o poder paralelo. A polícia tem que chegar antes e não depois que a guerra já explodiu", afirma.

Além disso, defende, o Brasil precisa de uma política efetiva de combate ao tráfico de armas. "As armas que derrubaram o helicóptero são facilmente detectáveis e mesmo assim foram contrabandeadas. A sociedade só tem olhos para o tráfico de drogas, mas é preciso combater o acesso às armas".

Souza é contra a intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro. Ele lembra que quando houve a ocupação do morro do Alemão, em 2007, 19 pessoas morreram. "Agir como a Polícia Militar já faz não adianta nada", ressalta.

Ele afirma ainda que, no longo prazo, o maior desafio é recuperar a soberania do Estado e articular diferentes instâncias, passando pela integração das polícias e pelo envolvimento real da sociedade.

"É preciso querer mudar. Não podemos achar que a barbárie é inevitável. Não podemos desumanizar. Houve uma privatização da soberania, porque o Estado perdeu o controle dos territórios. Os grupos criminosos se sustentam pelo domínio dessas áreas e são eles que definem a ordem social. Hoje, esses territórios estão nas mãos das milícias e do tráfico de drogas. Para que isso mude, é preciso um processo de pressão muito maior", conclui.

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