Modificação corporal enfrenta preconceito nas ruas e proibição nas leis

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Esta é daquelas reportagens com a recomendação "não tente fazer isso em casa". Se o conselho partisse do sindicato de tatuadores, a mensagem seria "não faça em nenhum lugar." A onda de modificação corporal veio da Europa e dos EUA (onde é chamado de body modification) e é praticada por quem já não se contenta em pintar a pele e aplicar piercings nos lugares tradicionais.

  • Leandro Moraes/UOL

    Thiago Costa Barros, 22, começou com piercing no supercílio. Agora ostenta cornos na testa

Aplicar chifres de silicone na testa, cortar o lóbulo da orelha e alargá-lo até que ele sirva de porta-latinha, dividir a língua ao meio, voar suspenso por ganchos de aço na pele, implantar esferas no pênis, dilatar mamilos, operar o lábio e as maçãs do rosto para ganhar feições felinas. São algumas das alternativas para os "primitivos modernos", esses jovens urbanos que modelam o corpo evocando incisões que egípcios, maias, polinésios, africanos e indianos faziam e fazem há milênios.

"Qualquer técnica que inclua incisão e implante podem gerar um inquérito por exercício ilegal da medicina. Usar bisturi e espátula e embutir coisas sob a pele é coisa para médicos", opina Ronaldo Sampaio, conhecido como Snoopy e como o vice-presidente do Sindicato de Estúdios de Tatuagem e Body Piercing do Estado de São Paulo.

A entidade defende a aprovação pelo Congresso do projeto de lei 2104/07, que tenta regulamentar a profissão, sem incluir as modificações. Mas outro projeto já foi aprovado pela Câmara Federal, obrigando supervisão médica em toda a atividade (leia texto completo em quadro abaixo).
 

ESTICA E PUXA

  • Leandro Moraes/UOL

    Com quatro ganchos nas costas, garoto sobrevoa pista de dança

  • Alex Almeida/UOL

    Além do óculos, garoto usa alargador na orelha, nariz e boca

A posição do sindicato é controversa, principalmente dentro desse universo. "Cada um tem seu método. Eu estou trazendo para o Brasil técnicas que foram desenvolvidas lá fora. Não pode haver só a técnica oficial do sindicato", argumenta André Fernandes, que dá palestras pela América do Sul acompanhado de um colega argentino e outro chileno.

Entre os ensinamentos dos simpósios de André estão temas como scalpelling (cortar com escalpelo), branding (tatuar queimando com metal quente) e skar (desenhar cicatrizes).

Um festival reuniu neste mês em São Paulo os adeptos da modificação corporal. Um deles era Thiago Costa Barros, 22, técnico em enfermagem e estudante de veterinária.

Na testa, ele tem dois cornos ("Os animais tem como proteção. E eu me identifico mais com eles que com os humanos"). Nos braços, vários implantes que dão relevo as suas tatuagens ("Não é só pela estética. Eu me sinto melhor, me completa"). A língua foi bifurcada ("Queria um semblante mais maléfico, sempre fui ligado a coisas mórbidas"). No pênis, colocou cinco esferas ("Fiz quando estava solteiro e promíscuo. Dizem que aumenta o prazer da mulher em 40%. Minha namorada gosta"). Nos planos, extirpar os mamilos ("Fica bonito. Só não fiz porque só um venezuelano faz isso e estou esperando ele vir ao Brasil").

Como Thiago, Nelson Pereira também trabalha como piercer (ou perfurador corporal, nome mais castiço dado pela regulamentação). Mas Pereira está dilatando seu mamilo. Junto com seis esferas que incrustou na genitália, são suas operações para "aumentar o prazer". Ele planeja ainda perfurar o saco escrotal e a concha do ouvido. "Tenho medo da dor. Só ela me impede de fazê-lo", diz o rapaz de 28 anos.

"Eu queria ficar diferente. E uma coisa leva a outra. Hoje é uma necessidade", explica Pereira a razão de sua metamorfose. Para completar, ele também é praticante da suspensão - um sistema com gancho de aço cirúrgico e cordas ergue o adepto a partir de perfurações na pele das costas. "É melhor do qualquer droga. Bate uma endorfina que você só sente dor quando volta para o chão", relata.
 

TIGRE OU DRAGÃO

  • Reprodução

    Nos EUA, as modificações são radicais como o do "catman"

  • Reprodução

    Os alargadores de orelha podem ser tão largos como o da foto

A reportagem do UOL Notícias acompanhou as suspensões que aconteceram no clube Inferno dentro programação da feira Frrrkcon (convenção dos freak, termo em inglês para os "esquisitões"). O rapaz era pendurado no alto da pista de dança. Parecia que ele fazia parte do sistema de iluminação, postado ao lado do globo espelhado e do estrobo.

Ao som de "Young Folks", do grupo sueco Peter, Bjorn & John, um garoto se balançava pelo ar. As costas tinham quatro anzóis fincados e quatro filetes de sangue escorrendo. Uma garota se agarrava de suas pernas. "Nossa é indescritível. É uma coisa louca, muito boa", define Renan Teixeira, depois de sua oitava suspensão. O resto da noite ele ostenta gaze e esparadrapo para conter as feridas.

Entretanto, o mais bizarro da noite ainda estava por vir. Pegue os comedores de gilete que se apresentam nas ruas e some uma atração de show de aberrações: isso dá Freak Garcia. Vestido de boneca e maquiado como Coringa de Heath Ledger, esfola seu corpo de todas as formas possíveis levando sua dor e o sangue frio do público ao limite.

Ele grampeia dólares falsos na pele. Enfia uma furadeira no nariz. Senta num banco de faquir, cheio de pregos. Pendura de um piercing genital um cacho de bonecas. Balança dois despertadores a partir de uma corrente cravada nas pálpebras. Tudo isso ao som de temas de desenhos animados, músicas clássicas e canções do Pink Floyd.
 

PARA PESQUISADORA, A MODIFICAÇÃO CORPORAL É UMA ESPÉCIE DE ARTE

Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, Cláudia Machado de Souza pesquisa atualmente a modificação corporal como uma espécie de arte corporal. "A body modification é um saber da body art, porém só pode ser entendida como arte por aqueles que possuem os códigos para entendê-la. Desta forma, não se pode considerar os corpos transformados pela body modification apenas como arte, eles são mais do que isso, são expressões na carne da identidade dos indivíduos", afirma a pesquisadora.

"Os verdadeiros modificados não querem virar atração. Não querem virar um exibição. Na verdade, sua exposição acaba sendo motivo de muito preconceito. Tem muita gente mal-criada na rua que me chama de diabo. Eu passo, e elas falam `credo?. Acham que não tem eu não tenho audição", conta Thiago sobre como é desfilar com dois pares de chifres na cabeça. Ele não se conforma que a sociedade que valoriza seios turbinados de silicone não aceita qualquer outro tipo de implante.

André concorda com ele. "No Brasil, ainda há muito preconceito. Lá fora o povo aceita melhor. Aqui, o mercado de trabalho não aceita que tem modificações", reclama. Thiago é prova disso. Depois de portar chifres, não conseguiu mais emprego de técnico em enfermagem.

A maioria na convenção de modificados trabalha com estúdios de tatuagem. Seus corpos são com um show-room para os clientes. "Não faço nada em alguém que eu já não tenha feito comigo. O experimento é em si mesmo", confirma Nelson.

Enquanto em convenções em Las Vegas, Cidade do México ou Berlim reúnem mais de 8.000 seguidores da modificação corporal, em São Paulo é muito menos. "Se conseguir 30 profissionais em uma sala, já é um sucesso", define André. "A molecada que está entrando agora não quer aprender e vai só na tentativa e erro", completa.

O sindicalista Ronaldo dá números a essa opinião. Segundo ele, são 200 mil estúdios de tatuagem e piercing no Brasil e apenas 30% trabalha com profissionais capacitados (cursos de biossegurança e primeiros socorros) e locais adequados (com paredes laváveis e pias).
 

SUPERVISÃO MÉDICA

A Câmara Federal aprovou um projeto de lei que obriga supervisão médica para qual procedimento considerado "invasivo", o que incluiria acupuntura, peeling facial ou tatuagem. O projeto foi para o Senado e já gera polêmica entre os tatuadores. Uns falam que o serviço vai encarecer muito. Já o sindicato paulista dos tatuadores e piercers diz que pode fechar com CFM (Conselho Federal de Medicina) para evitar que a lei que tramita no Congresso legislativa vire realidade.

"Houve uma banalização. Agora tatuador é que nem DJ: qualquer curioso pode exercer. O cara não sabe o nome das camadas da pele nem a cor de uma artéria e se diz profissional", sentencia o vice-presidente do sindicato paulista.

Ao mesmo tempo que os peitos de silicones ficaram acessíveis a várias classes sociais com crediários a perder de vistas, também se multiplicaram as casas prometendo modificações mais "antiestéticas". Segundo o sindicato, o foco principal em São Paulo é a Galeria do Rock, onde o cálculo é que existam 60 estúdios improvisados.

O modificado mais célebre no Brasil foi Felipe Klein, filho do ministro dos Transportes do governo Fernando Henrique Cardoso entre 1995 e 1996, Odacir Klein. Ele se suicidou há cinco anos atrás e os legistas de Porto Alegre estranharam ao chegar ao IML um corpo com chifres de teflon na testa, argolas nos genitais e mamilos, além da língua bifurcada.

"Ele era um cara doce, não tinha nada a ver com a aparência que queriam dar para ele. Eu me identifico com ele. Como o Felipe, eu valorizo mais os animais que os humanos", desabafa Thiago.

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